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Obrigado, Gato (outra vez)

O Gato – Grupo de Teatro voltou a apresentar a encenação que Pedro Wilson criou a partir do livro Chega de Fado, desta vez em colaboração com o Operário Caffé Club e a livraria Livros & Companhia (Marinha Grande). Mudou o cenário mas a emoção repetiu-se. Obrigado.
(Fotos de Sílvia Alves)







Dão-se livros # 10

Regressa o livrinho de borla; para o receber, basta espreitar o ebook Apenas de Passagem e sugerir a palavra que melhor o defina. Entre as respostas chegadas até final de Julho, será sorteado alguém que receberá um dos livros da Deriva (Gastar Palavras, Os Mundos Separados que Partilhamos, Silêncios Entre Nós ou Chega de Fado) e ainda uma raridade: um exemplar de Miniaturas.

Apenas de Passagem

A exposição "Apenas de Passagem" de Tina Azinheiro já pode ser visitada na Livraria Arquivo (Leiria) e o ebook (fotos + estórias) será disponibilizado um destes dias. Por enquanto, fica mais um exemplo.





(Permanecemos há algum tempo num café, entretidos a olhar quem nos rodeia. Algumas mesas estão ocupadas por pessoas que conversam em voz baixa, sem se olharem; ainda não se ouviu um riso desde que chegámos. Mesmo no meio do café, um velho instalou-se confortavelmente a ler, completamente abstraído. Os dois funcionários permanecem na entrada do café, invejando quem passa lá fora.)
DEUS (apontando o velho): Já reparaste como permanece ali completamente imperturbável e indiferente ao que o rodeia? Que estará a ler?
EU (num tom indiferente mas que poderá parecer provocador): Talvez nem esteja a ler nada.
DEUS (irritado): Então não vês como está concentrado no livro?
EU (tom misterioso): Está a olhar para o livro; isso não significa que esteja a ler.
DEUS (tom irónico, quase corrosivo): Achas que está apenas a olhar para as letras?
EU (enfático): Acho.
DEUS (irritado): Mas porquê?
EU (num tom cálido): Porque não sabe ler.
DEUS (surpreendido): Não sabe ler?
EU (indiferente): Não.
DEUS (curioso): Então por que motivo passou a manhã no meio deste café, a fingir que lê?
EU (sorrindo ligeiramente): Para recordar.
DEUS (interessado mas algo incrédulo): Recordar? Que queres dizer com isso? Recordar o quê?
EU (tom monocórdico e agastado; como se me custasse revelar o segredo do velho): Está a regressar ao seu passado, a revivê-lo. A reencontrar-se consigo mesmo, quando era criança.
DEUS (impertinente): Fingindo que lê?
EU (tom defensivo): Não precisa de ler porque recorda as frases, uma a uma; está simplesmente a revivê-las, ouvindo-as ecoar na sua mente. Escutando-as na voz da sua mãe. (Após uma hesitação, baixando a voz.) Porque esse era um dos livros que ela lhe lia, quando ele era menino.
DEUS (depois de um longo silêncio, desviando finalmente o olhar do velho): Está a recordar a mãe?
EU (num tom quase solene, que me irrita um pouco): A despedir-se, talvez. Ou a completar o ciclo da sua vida, regressando ao princípio. Deixando-se transformar imperceptivelmente em criança, na criança que foi. (Permanecemos em silêncio, envolvidos pelo burburinho do café.) Antes ouvia a voz da mãe e fingia que ele próprio lia, para se sentir adulto; agora escuta o murmúrio distante da mãe e finge que lê, para se sentir durante um fugaz momento a criança que foi.
DEUS (num tom ternurento, que nos embaraça): Não é um velho que ali está, é isso que queres dizer?
Eu (baixando a voz): É uma criança disfarçada de velho. Uma criança que viveu tanto tempo disfarçada de adulto que conquistou o direito de voltar a ser criança.
(O velho permanece completamente alheado ao que o rodeia, concentrado no livro que segura nas mãos; mas os seus olhos, quase fechados e protegidos pelos óculos, parecem não se mover. Espreitamo-lo, atentos e curiosos, reparando que ele parece esquecido da necessidade de mudar a página.)
DEUS (incapaz de não olhar o velho): Mas por que motivo está aqui, no meio deste café? Porque não se refugia em casa, num local secreto e íntimo, privado?
EU (um pouco brusco): Porque deseja estar só. (Num tom mais conciliador.) E onde nos sentimos verdadeiramente sós? Quando estamos no meio da multidão, quando estamos rodeados de pessoas que não reparam em nós, não se interessam por nós, que não percebem que existimos.
(Deus espreita-me, apreensivo e perscrutador; mas ignoro-o, decidindo não responder ao seu olhar interrogativo.)