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Apenas de Passagem: Exposição + Ebook

A exposição de fotografia de Tina Azinheiro “Apenas de Passagem” será inaugurada no dia 3 de Julho, na Livraria Arquivo (Leiria); no mesmo dia, será apresentado um ebook contendo reproduções das fotografias expostas e vinte contos originais que escrevi a partir de cada uma das fotos.
Por agora, fica um exemplo.


DEUS (apontando a mulher que caminha lentamente na rua, à nossa frente): Que transporta ela naquele saco, sabes?
EU (olhando-o com curiosidade, perguntando-me se estará mesmo interessado em saber): Os seus sonhos.
(Continuamos a avançar, em silêncio. A mulher parece ter alguma dificuldade em sustentar o peso do saco que transporta às costas; mas ninguém se aproxima para a ajudar, ninguém a olha sequer.)
DEUS (olhando o saco): Não percebo. Que queres dizer com isso?
(Apetece-me sorrir; mas não o faço.)
EU (num tom sério, pedagógico; talvez um pouco condescendente): É uma tradição antiga que existe nalgumas aldeias desta parte do país; quando aprendem a escrever, as crianças são encorajadas a registar em pedaços de papel aquilo que mais desejam, aquilo com que sonham. (Pausa breve.) Aquilo que esperam do futuro.
DEUS (interrompendo, ligeiramente agastado): Para quê?
EU (encolhendo os ombros, num tom algo displicente): Quem sabe, talvez apenas para exercitarem a escrita. Mas há crianças que vão crescendo e mantêm o hábito. (Incapaz de contrariar o tom provocatório.) Talvez apenas para que com a passagem do tempo e a dureza da vida não esqueçam aquilo que é importante. O que as motiva a viver.
DEUS (agastado): As pessoas não vivem apenas para concretizar os seus sonhos, as suas fantasias.
EU (num tom desinteressado): Talvez não. Por isso é que para muitas pessoas vai bastando sonhar; vão simplesmente acumulando sonhos, esquecendo-se ou desinteressando-se de os concretizar. (Pausa breve.) Basta a possibilidade.
DEUS (após uma hesitação, apontando a mulher que se afasta lentamente): Como ela?
EU (encolhendo os ombros): Há pessoas que acreditam que aquilo que possuem de mais precioso nas suas vidas são os sonhos que foram acumulando, tudo aquilo que ambicionaram e desejaram para si mas não alcançaram. (Observando a marcha da mulher.) E ainda persiste a tradição de oferecer os sonhos de toda uma vida, simbolicamente guardados em pedaços de papel, ao primeiro neto que nasce na família.
DEUS (ligeiramente comovido): Uma espécie de herança, de passagem de testemunho.
EU (num tom sério, quase solene): Aquilo que de mais precioso possuem. A possibilidade de uma vida melhor.
(Ficamos a ver a mulher afastar-se, arrastando-se com esforço. Quando acaba de cruzar a praça, imobiliza-se durante um momento, talvez para se orientar.)
DEUS (impressionado): E acumulou todos estes sonhos? (Abanando a cabeça, ligeiramente triste.) Quilos e quilos de sonhos.
(Observamos a mulher, atentos e respeitosos, certos de que em breve seguirá pela travessa que conduz à maternidade, onde o recém-nascido a aguardará. Mas quando finalmente retoma a caminhada, a mulher avança na direcção do mercado, onde entra sem hesitação. Deus olha-me, confuso e interrogador; e quase se indigna, quando depara com o meu sorriso e percebe a sua ironia. Quando se descobre enganado.)