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O espirro

Escrito a partir de uma foto de Andreia Monteiro.





- Quatro anos? A sério?
- Sim, estivemos juntos quatro anos.
- E acabas uma relação de quatro anos assim de repente? Na casa de banho de um cinema?
- Porque não? Há pensamentos que vão evoluindo lentamente, que se vão alimentando a si próprios e ganhando consistência, que se tornam evidentes, esmagadores; e então transformam-se em decisões óbvias e inevitáveis. Basicamente, é como um espirro: há decisões que quando chegam não se podem travar, da mesma forma que não travas um espirro.
- Um espirro? És tonta. Mas explica-me lá isso melhor. Desde o início.
- Bom, não há muito que explicar. Estávamos em casa e decidimos ir ao cinema. A ideia foi minha, porque de repente senti-me um bocado asfixiada com a companhia dele, com o silêncio dele. Então perguntei: e se fossemos ao cinema? Sabes o que respondeu? Disse: só se me deixares escolher o filme.
- Que parvo.
- Pois. Lá fomos ver o filme que ele escolheu, que me pareceu melhor do que ficar ali em casa a olhar para nada. Mas nem foi isso que me irritou, ser ele a impor uma escolha. O que me incomodou mesmo foi o facto de ter optado por um filme que já tínhamos visto.
- Isso da escolha dos filmes é engraçado. Há pessoas que não suportam ver um filme que já conhecem; e há outras que adoram rever vezes sem conta os seus filmes favoritos. E isto acaba por esconder um significado profundo, acho eu. De forma subtil, divide as pessoas em duas categorias opostas: as que preferem o conforto da previsibilidade e as que precisam permanentemente da novidade.
- Não sei, isso das filosofias é contigo. Mas numa coisa tens razão: nunca vi ninguém tão previsível como aquele homem. E por isso lá fomos ver um filme que tínhamos visto há uns dias e que ele adorara. Estava ali, quieta e caladinha, a pensar no tempo em que íamos ao cinema e ele não me largava a mão, como se me achasse preciosa e tivesse medo que lhe fugisse, como se tocar-me em todos os momentos fosse tão importante como respirar. Enfim, palermices. Mal olhava para o filme e dizia a mim própria que, assim, mais valia ter ficado em casa. E foi necessário fazer um certo esforço para aguentar até ao intervalo, apetecia-me sair dali quanto antes.
- Quando é preciso fazer esforços, não é nada bom sinal. Sentias assim há muito tempo?
- De forma consciente, não. Mas se calhar, sem o perceber, já andava a fazer um esforço há algum tempo. A perder a paciência, talvez. Acho que é mais isso, ficar sem paciência. Que foi precisamente o que aconteceu lá no cinema, perdi a paciência. E mal chegou o intervalo, fugi para a casa de banho.
- Fugiste?
- Um termo um bocado forte, não é? Mas julgo que foi isso que senti: precisava de fugir. E então tranquei-me na casa de banho. Nem sei bem do que fugia, talvez precisasse apenas de respirar, de estar comigo própria, de não ter que representar nem fingir nem nada. De encontrar um equilíbrio qualquer. Sei lá.
- E que sentiste, enquanto estavas lá? Que pensaste? Que decidiste?
- Fiquei no meu compartimento, quietinha. Havia outras mulheres por ali, ouvia-as a andar de um lado para o outro, adivinhava o modo como se olhavam ao espelho. Mas depois ficou tudo silencioso e percebi que ficara sozinha, percebi que o filme já deveria ter recomeçado. Mas não fui capaz de sair dali, e deixei-me estar.
- Não foste capaz ou não quiseste?
- Vai dar ao mesmo, não é? Interessa a forma como chegas a determinado lugar, desde que chegues? Não fui capaz ou não quis. É igual.
- Ficaste na casa de banho até ao final do filme?
- Não. Fiquei algum tempo mas não até ao final. E, basicamente, durante todo esse tempo, olhei para a ventoinha.
- Qual ventoinha?
- Era um cinema antigo, um edifício muito antiquado. E na parede da casa de banho tinha uma daquelas ventoinhas antigas que funcionam como respiradouros ou algo assim. Não percebo nada disso. Apenas sei que havia uma ventoinha e fiquei a olhar para ela.
- Porquê?
- Porque estava a rodar; um movimento constante e monótono, imperturbável. E de repente aquilo pareceu-me um símbolo muito forte, muito poderoso. Não conseguia deixar de olhar.
- Um símbolo de quê?
- De um certo tipo de pessoas. De pessoas que vivem em círculos, sempre no mesmo movimento constante, sem surpreenderem ninguém, sem imprevisibilidade, sem vontade própria. Vão rodando e pronto; parece que nem é movimento de verdade. Rodando sempre na mesma direcção. Porque uma ventoinha não pode girar em ambos os sentidos, pois não? Parece que com algumas pessoas acontece o mesmo. E se caminham sempre na mesma direcção, como poderão contrariar a normalidade? Como poderão surpreender alguém? Como se poderão surpreender a si próprios?
- Ok. A ventoinha é o teu marido. Já percebi.
- Olhava para a ventoinha e pensava nele, sim; pensava como a sua vida, a sua personalidade, se assemelhava ao movimento de uma ventoinha. Circular e monótono, invariável; chato. De certa forma, irrelevante.
- E isso não te parece um pouco exagerado? A vida não pode ter um padrão reconhecível, mesmo quando analisada retrospectivamente; não podemos olhar para uma vida e catalogá-la como sendo um movimento circular ou rectilíneo ou quadrado ou o que seja. Não podes olhar para a vida de alguém e reduzi-la a uma forma geométrica qualquer.
- Pois, não podemos. O que não impede que certas vidas sejam formas geométricas.
- Sim, tens alguma razão; há uma diferença entre aquilo que uma pessoa é e a forma como vemos e consciencializamos o que essa pessoa é. E por vezes, vemos mal, consciencializamos mal. Criamos imagens, distorcemos. No fundo, é tudo um jogo de espelhos. Não achas?
- Não faço ideia.
- O problema, penso eu, é que muitas vezes nem sequer conseguimos ter um conhecimento correcto de nós próprios. Como poderemos, então, ter a pretensão de conhecer os outros? Por isso, deveríamos começar por ter noção do que somos; mas como? Era bom se conseguíssemos vermo-nos de fora, como se fossemos um personagem num filme. Sermos espectador da nossa vida. Mas isso não é possível, certo?, e o mais aproximado que podemos ambicionar é revermo-nos nos outros, permitir que os outros sejam o nosso espelho; o que implica que consigamos mostrar aquilo que realmente somos, para que o outro o possa simplesmente reflectir.
- Porque estamos a falar de espelhos?
- Por nada. Estava apenas a pensar que antes de olhares para uma ventoinha, talvez pudesses olhar para o espelho. Estás nunca casa de banho e tens que optar entre uma ventoinha e um espelho; ou seja: olhar para o outro ou para ti. Só isso.
- Parece uma acusação. Porque me estás a acusar? Já imaginaste que talvez esteja cansada de olhar para o espelho e de me ver reflectida? E já imaginaste que os espelhos também podem deformar e distorcer, que não são neutrais e imparciais?
- Tens razão. No olhar do outro encontramos aquilo que de pior temos e por isso é que, tantas vezes, nos afastamos. Mas no fundo, estamos a tentar fugir de nós próprios, esquecendo que estamos apenas a olhar para um reflexo nosso. É verdade que os outros podem acentuar o nosso lado pior. É verdade que não sabemos bem como fazer para que o outro reflicta aquilo que temos de melhor, da mesma forma que raramente reflectimos aquilo que os outros têm de melhor. Mas também é verdade que precisamos desesperadamente dos outros, de espelhos; ou então definhamos de solidão.
- Estás muito melodramática. Muito pomposa. Muito palavrosa. Muito opinativa. Muito presunçosa. Que se passa contigo, afinal?
- Falta de homem, se calhar.
- És tão parva.
- Mas acaba lá de contar a tua estória. Estavas a olhar para a ventoinha e a pensar no teu marido.
- Pois. Lá fiquei não sei quanto tempo. E então acabei por abandonar a casa de banho e regressar para junto dele. Aguardei que o filme terminasse e, depois, pedi-lhe que me acompanhasse à casa de banho. Barafustou, como é óbvio. Mas lá foi; porque na verdade não tem vontade própria; tal como as ventoinhas. A pouca gente que estivera no cinema já desaparecera, tínhamos a casa de banho para nós. Parecia que estávamos num mau filme.
- Desculpa a curiosidade. Mas alguma vez fizeram sexo numa casa de banho pública?
- Raio de pergunta. Não, nunca fizemos.
- É pena. Mas esquece isso, agora. E depois?
- Mostrei-lhe a ventoinha, apontei, disse que era aquilo que lhe queria mostrar. E ele ficou a olhar, sem fazer comentários. Lembro-me do silêncio, da penumbra, do cheiro a casa de banho, como se ainda lá estivesse. A ventoinha a girar devagarinho e nós a olharmos. E então não me contenho e digo: isto és tu.
- Foi incontrolável. Como um espirro. E ele?
- Ficou a olhar para mim, sem reacção; tal como antes olhara para a ventoinha. E depois sorriu. Um sorriso infinitamente triste e melancólico. Um sorriso bonito. E disse: não sei bem quem é a ventoinha, na verdade; se eu, se tu.
- A sério? Surpreendeu-te, afinal. Foi como se, de repente, a ventoinha começasse a rodar na direcção inversa.
- Apeteceu-me bater-lhe, apeteceu-me mandá-lo ao caralho, apeteceu-me desaparecer. Mas não fui capaz de fazer nada disso e, entretanto, ele virou as costas e saiu. Deixou-me ali com o cheiro e a penumbra e o silêncio e a ventoinha.
- E assim termina uma relação de quatro anos.
- É. Mas provavelmente não há uma forma boa de terminar, não é?
- Por vezes, pergunto-me: separarmo-nos de alguém significa reconquistar a liberdade? É uma libertação ou uma condenação? Afinal, talvez estejamos condenados a permanecer sós.
- Sabes o que tenho pensado, nestes dias? Se não serei eu a ventoinha; se não serei eu que tenho andado a rodar inconsequentemente, devagarinho, sempre na mesma direcção. Ou pior, se nos últimos tempos não terei sido uma ventoinha que nem sequer roda; e de que serve uma ventoinha imobilizada, se a sua essência é o movimento?
- Talvez te tenhas olhado ao espelho, afinal. Mas estou farta desta conversa. Olha, sabes o que estava a pensar? Podíamos ir dançar. Como fazíamos antes, lembras-te? Anda lá, está-me a apetecer. E enquanto dançarmos, nunca seremos ventoinhas, não é?
- As ventoinhas não dançam, pois não? Rodam e rodam e rodam mas por mais que rodem são incapazes de dançar. Gosto muito da tua ideia, há séculos que não danço. Vamos a isso. Vamos dançar, vamos ser movimento de verdade.
E foram.