Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXII)

Como se esperava, veio o dia em que o mundo acabou para os seres humanos. Todos se extinguiram, e o planeta pode finalmente viver em silêncio. Uma consequência evidente do desaparecimentos da humanidade foi o despovoamento das casas; lentamente, todas foram definhando, tornando-se habitadas apenas pelo vazio. Mas o vazio é mau morador, e as casas ansiavam por repovoamento; ansiavam por acolher vida no seu interior; ansiavam por companhia. Foi então que algumas espécies de árvores começaram a nascer dentro das casas desabitadas; e lá floresceram, especialmente as que viviam em casas que optaram por abdicar do tecto para que a luz do sol e a chuva pudessem entrar livremente e alimentar os novos habitantes. Com o tempo, a paisagem passou a estar repleta destas simbioses casa-árvore: modelos perfeitos de adaptabilidade ao outro. Ramos com paredes, paredes com ramos: onde começava a árvore e terminava a casa? Prosperaram as florestas de casas arborizadas; ao longe, os mares observavam. E durante algum tempo, o planeta foi feliz. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXI)

Acordo a pensar em ti. Talvez por ter sonhado contigo, apesar de não conseguir recordar; mas deverá ter sido um sonho intenso. Levanto-me e tomo banho; durante todo esse tempo, penso em ti; percebo como sinto saudades tuas, como me apetece ouvir-te. Depois de me vestir, pego no telefone e ligo-te. Está desligado. Como alguma coisa, bebo um café. Volto a tentar ligar. Desligado. Subitamente, tomo consciência do absurdo do meu comportamento. Morreste há três semanas e meia. Continuo com o telemóvel na mão; olho para ele, sem saber o que lhe fazer. Pergunto-me, estupidamente, o que terá acontecido ao teu telemóvel; porque raio ninguém o carrega, porque não o mantêm vivo? Sinto saudades tuas, apetece-me ouvir-te.

Convite


Curadoria: Sandrine Cordeiro e Paulo Kellerman

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXX)

Vejo a floresta à minha frente. Caminho entre as árvores, olhando-as como se as conhecesse; por vezes, toco-as ao de leve. E elas correspondem: como se apertássemos as mãos. O sol desce lá à frente, inundando a atmosfera com um manto dourado e flutuante que parece envolver todas as árvores. Escuto o som ténue causado pelos meus passos na terra; e sinto que essa terra não tem idade, é anterior à minha existência, ou à existência da própria humanidade. É como pousar os pés sobre o próprio tempo, ou as estrelas: caminhar em cima da intemporalidade. Avanço passo após passo sentindo-me leve, como se a minha presença não trouxesse peso ao universo. Escuto o diálogo de animais que não conheço, pronunciando-se nos seus idiomas cantantes; um diálogo que não me exclui; sempre me espanto, como se fosse uma primeira vez: os animais da floresta cantam, as suas linguagens são canções. Ao contrário do berro que ouço, que me traz de volta à realidade. A floresta desaparece do meu espírito: tudo o que acabei de ver - sentir - ocupou três segundos da minha vida, o tempo que espaçou os dois socos. Recebo o novo embate, gemo, volto a fechar os olhos. Perante mim, surge de novo a floresta; os pés sobre a terra, os ouvidos preenchidos com as melodias ancestrais da natureza. A tortura pode prosseguir indefinidamente: o meu espírito manter-se-á livre. A minha floresta. 

27 de Março


Se calhar vamos fazer alguma coisa.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXIX)

Sempre foi um terapeuta atento e delicado; trabalha com cada um dos seus pacientes de forma a contribuir para a superação das angústias e dores que trazem consigo. Auxilia-os da melhor forma que sabe, estimulando-os a que percebam por si próprios as causas dos seus sofrimentos e as melhores estratégias de superação. Sabe que a sua função não é apresentar soluções, mas acompanhar cada paciente no seu próprio percurso em busca de uma possibilidade de resolução. Acompanha - presença efectiva, solidária; mas também desafiante, se necessário - o percurso feito por cada um; perante cada sucesso ou fracasso, está sempre presente. E assim aprende o que pode ser eficaz ou não; como se o seu consultório fosse, afinal, um laboratório; um local de exploração e teste, de aprendizagem. Se um dia tiver alguma daquelas dores ou angústias, poderá (talvez) aplicar em si o que aprendeu com os seus pacientes; como se, afinal, fossem eles o terapeuta. Como se eles, ao percorrerem os seus itinerários individuais de superação únicos e diferenciados, compusessem um mapa de caminhos e rotas possíveis; um mapa onde são assinalados atalhos e becos sem saída, locais de interesse ou a evitar, postos de abastecimento ou de refúgio. Um mapa precioso a cuja composição assiste dia após dia, maravilhado com a cartografia das emoções que é desenhada perante si. Agradecido aos seus pacientes por lhe mostrarem que é possível navegar entre as emoções humanas (essa selva fulgurante e misteriosa); e não se perder. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXVIII)

Um escritor tem o hábito de registar ideias e pensamentos em cadernos quase diariamente. Os anos passam e a colecção de cadernos aumenta: são dezenas deles, coloridos e de diferentes tamanhos, alinhados numa estante. Por vezes, gosta de olhar e apreciar o seu passado - assim à distância, sem entrar nele; perceber que está ali, disponível. A verdade é que sente um conforto inexplicável ao olhar aquele arquivo de pensamentos e ideias; mas é muito raro pegar num dos cadernos e ler o que escreveu. Quando o faz, a reacção é sempre a mesma: sente um enorme embaraço; questiona-se sobre os motivos de ter escrito aquilo, questiona-se sobre que pessoa era aquela e na qual já não se revê. O incómodo pode ser tão grande que costumam passar meses até voltar a abrir um dos cadernos, geralmente por distração. Apesar disso, nunca suspende a recolha de ideias, nunca cessa de registar. Os anos passam e a colecção de cadernos aumenta, imparável. Não se percebe para quê. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXVII)

Procurava uma relação estável e plena; e para isso faria o que fosse necessário. Homens que lhe eram apresentados por amigas, homens que captavam o seu interesse nas redes sociais, homens que conhecia em sequência de contactos de trabalho, homens com quem se cruzava nas aplicações de encontros: se o seu instinto os sinalizava como potencialmente interessantes, aceitava marcar um encontro. Sempre no mesmo local, um restaurante acolhedor onde se sentia em casa. Sempre com a mesma disponibilidade para se encantar. Falava, ouvia, ria; não se incomodava com os silêncios. Havia momentos em que se divertia, havia momentos em que se entediava. Mantinha sempre a mente aberta, o espírito receptivo. Apenas tinha uma regra: os jantares duravam três horas; e se durante esse período o homem com quem estava não pronunciasse pelo menos uma vez, por sua iniciativa, a palavra "amor", despedia-se e cortava de forma paremptória qualquer possibilidade de contacto futuro. Três horas, nem mais um minuto.  

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXVI)

O combatente tem uns dias de férias e regressa a casa. Uma das coisas em que mais pensa quando está no campo de batalha é no seu filho pequeno e em tudo o que gosta de fazer com ele; contar-lhe estórias antes de adormecer; andar de bicicleta; fazer bolos que nunca saem bem; desenhar; inventar coisas com legos; brincar com os cães; rir. Faz tudo isso nesse primeiro dia de férias; nem por um momento se lembra do campo de batalha, do regresso inevitável. Foi um dia longo que passou demasiado depressa. Acabou de lhe contar a estória para adormecer, estão ambos deitados no escuro; ouvem a respiração um do outro. Então o menino pergunta numa voz quase imperceptível: papá, mataste muitos inimigos? E depois: sabes o nome deles? E depois: sabes se tinham filhos? E depois: terei de lutar com esses filhos, tal como tu lutaste com os pais? E depois: achas que os vou conseguir matar, como tu mataste os pais deles? A cada nova questão, a voz do filho fica mais imperceptível, quase inaudível; como se não estivesse realmente a dizer palavras, mas apenas a ecoar pensamentos. O combatente não sabe como responder. Poderia estar apenas a imaginar? Poderiam aquelas perguntas - que atribui ao filho - serem, afinal, projecções dos seus próprios pensamentos? Concentra-se no murmúrio das respirações; ambos fingem que adormeceram. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXV)

No dia em que o filho nasceu, o pai plantou uma árvore no jardim. A sua ideia era que crescessem juntos, criança e árvore; em harmonia e cumplicidade. E assim foi. Desde muito cedo que o menino manteve uma relação especial com a sua árvore; uma relação que foi evoluindo para uma irmandade não declarada, mas concreta. O menino cresceu, e de repente era adulto; aprendeu que era necessário ser discreto quanto aos seus sentimentos, quando ao que revelava de si. As pessoas que o rodeavam tinham uma necessidade infinita de compreender e explicar tudo o que ouviam; e aquilo que não conseguiam compreender nem explicar era descartado como irracional; estúpido; loucura. Foi por isso que nunca contou a ninguém que considerava a árvore como uma irmã gémea. Nunca contou a ninguém que, tal como sempre acontece com os irmão gémeos, havia entre si e a árvore um elo subtil e inexplicável, espiritual, que lhes permitia ter um conhecimento íntimo do outro. Foi por isso que - muitos anos passados - soube que a árvore se aproximava da sua morte; sem revolta nem ressentimento, pois tivera uma vida feliz. Também sabia (tinham tido essa conversa muito cedo, ainda na infância) que a árvore desejava morrer à beira do mar. Tratou de tudo com serenidade, mas resolução; foi um processo caro e complexo, especialmente por causa das autorizações e licenças necessárias; mas nunca hesitou - apesar de ouvir constantes "irracional", "estúpido",  "loucura". Até que se cumpriu o desígnio de ambos e a transplantação foi feita. Todos os dias vinha ao fim da tarde até à praia e juntava-se à árvore na sua nova casa; viam o pôr do sol juntos, aguardavam o anoitecer e o aparecimento das primeiras estrelas; nunca se cansavam da melodia do oceano. Mesmo depois de sentir que a árvore já não estava viva, continuou a vir durante muitos dias. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXIV)

Toda a gente lhe dizia o mesmo: a identidade de uma pessoa baseia-se na sua memória. Isso irritava-o porque significava que a sua personalidade estaria sempre associada ao passado, o que lhe parecia muito limitativo. Gostaria de ser mais condicionado pelo futuro do que pelo passado. Claro que poderia incorporar em si - naquilo que era - as suas expectativas e previsões em relação ao que esperava para o futuro, deixando de estar apenas vinculado ao passado. Mas as suas expectativas e previsões alteravam-se constantemente, por vezes de forma radical. Integrar essa volatilidade no seu quotidiano seria arriscado e, de certa forma, ingerível. O que fazer, então, para trazer o futuro para o presente? Decidiu inovar. As memórias são, por natureza, retrospectivas; para se constituírem, vão buscar algo ao passado. Mas e se existissem memórias prospectivas? Memórias que procuram algo no futuro e se formam a partir disso. Como uma semente que já se consegue visualizar - e sentir - como árvore. Claro que o futuro está por acontecer. Então - pensou, com entusiasmo - há que imaginar o futuro a partir do presente; e depois, ir a esse futuro imaginado buscar matéria para formar memórias, tal como se vai ao passado para fazer exactamente o mesmo. Assumir cada expectativa e previsão não como possibilidade mas como efectividade. Claro que essas memórias imaginadas e depois recordadas poderão não ser totalmente fidedignas; mas as memórias assentes no passado também não o são. Cada memória que tens - explicou uma vez a um amigo, que depois nunca mais lhe falou - é uma ficção; que importa se essas ficções se baseiam no que aconteceu ou no que ainda pode vir a acontecer?   

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXIII)

Sempre foi acusado de não revelar emoções; de ser frio e pouco empático; de parecer quase maquinal, para não dizer desumano. Cansou-se das acusações e foi ao psicólogo procurar uma solução. E o psicólogo fez o seu diagnóstico: lamento, mas parece que não tem a capacidade de mostrar emoções porque, na verdade, não as sente. Ouviu aquilo e pensou: isso sei eu. Mas questionou: e qual o tratamento para isso? O psicólogo não hesitou: inventar emoções. Admirou-se e quis confirmar: fingir? O psicólogo explicou que se inventasse emoções podia acontecer que a sua estrutura mental se habituasse àquela novidade e começasse a absorver essas invenções e, com o tempo, a replicá-las. Como se estivesse a auto-condicionar-se a sentir; ou a aprender. Aplicou a instrução e as pessoas que o rodeavam logo notaram a diferença. Era-lhe fácil fingir. Admirou-se por nunca se ter lembrado de o fazer; facilitava-lhe muito a vida. Quando lhe perguntavam qual a origem daquele milagre, falava do psicólogo. E surpreendia-se por as pessoas da sua vida não distinguirem entre emoções reais ou fingidas, como se afinal não existisse diferença. 

348 » 352

Dicionário improvisado. Jornal de Leiria (online e versão em papel).

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXII)

Iniciara a tradição no final da adolescência e ainda a cumpria, apesar de já ter mais de cinquenta anos; quase sessenta. Era simples: no primeiro dia da Primavera olhava-se ao espelho durante algumas horas. Via tudo o que tinha perante si, estudava cada detalhe, analisava cada pormenor, descobria nuances ou até novidades, reencontrava surpresas entretanto esquecidas; memorizava o seu rosto. Demorava o tempo que fosse necessário, sem pressa; depois, arrumava o espelho num armário e focava-se no que memorizara. Desde o final da adolescência que apenas se olhava ao espelho uma vez por ano. Durante trezentos e sessenta e quatro dias, a memória era o seu espelho. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXI)

Desde cedo que se entusiasmara com a namorada do amigo. Na sua perspectiva, era um interesse relativamente inofensivo, alimentado exclusivamente na sua própria imaginação. Parecia-lhe que fantasiar com outras pessoas não era problemático; apenas seria complicado se aquilo que imaginava começasse de alguma forma a condicionar o seu comportamento; se a imaginação contaminasse a própria vida quotidiana. O que não era o caso. Portanto, imaginava coisas; e nada mais. Até que num dia de bebedeira o amigo revelou detalhes de uma das suas sessões sexuais com a namorada. Muitos detalhes. Um filme inteiro. Ele escutou com atenção e reteve cada pormenor; construiu uma memória fiel e minuciosa do que fora vivido pelo amigo. Passou a ver muitas vezes aquele filme. E nunca teve consciência do que acabou por acontecer: em determinado momento passou a ser ele o protagonista do filme, substituindo o amigo. Apropriando-se da memória alheia. No fundo, talvez fosse como o oxigénio: anda por aí na atmosfera, disponível; não tem dono. Respira-se e pronto. Tal como as memórias: usurpam-se e pronto. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XX)

Um homem caminha pelo parque ao fim do dia, entretido a olhar as pessoas com quem se cruza e a pensar na vida. De repente, desmaia. Quando acorda no hospital, não sabe quem é; não tem qualquer memória, qualquer referência. Nada. Com o tempo, os médicos percebem que o seu cérebro não irá recuperar: todas as memórias perdidas para sempre; e com elas, a base da sua identidade. As pessoas que o amam, e que lhe asseguram que ele ama de volta, iniciam um lento e paciente processo de reconstrução da sua memória, contando-lhe recordação após recordação. Ele vai guardando o que lhe transmitem e reconstruindo a sua identidade a partir do que que ouve e aprende sobre si próprio. Decepcionado, porque não gosta da pessoa que está a descobrir; da pessoa que supostamente era; da versão de si que os outros conheciam. Surpreendido com as pessoas que o amam, e que lhe asseguram que ele ama de volta: será que acreditarão mesmo que basta inserir um conjunto de memórias num corpo e, por magia, obter a exacta pessoa que pretendem? 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XIX)

Desde que perdera a mobilidade, passava muito tempo à janela. Olhava o pedaço de mundo que tinha pela frente e parecia nunca se aborrecer. Os netos foram desistindo de o tentar convencer a pedir ajuda para sair do quarto, a abandonar a janela durante algumas horas; a entrar no mundo. Tentavam perceber qual o fascínio de olhar sempre para o mesmo. Perguntavam: gostas de observar as pessoas que passam todos os dias e aprender a conhecê-las à distância? Ele sorria e respondia que sim. Ou perguntavam: gostas de ver os aviões que passam alto e imaginar quem lá irá e para onde e fazer o quê? Ele sorria e respondia que sim. Os netos tranquilizavam-se, impressionados por o avô já não esperar nada; por se limitar a estar, e isso ser suficiente. Parecia-lhes uma forma de sabedoria e falavam com orgulho do avô àqueles amigos que nunca tinham tempo para nada, que nunca paravam, que viviam sôfregos e ansiosos. No seu quarto, o velho olhava pela janela. Com esperança de que alguma daquelas pessoas que todos os dias ali passavam caísse e partisse a cabeça, morrendo ali mesmo; ou que um daqueles aviões pequeninos que passavam entre as nuvens caísse do outro lado da rua.