Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLI)

Mantinha há anos a mesma estratégia. Quatro encontros de descoberta do outro, a fase do encantamento. No quinto encontro, o primeiro beijo. No sexto, beijo acompanhado de mão no interior das cuecas do outro. No sétimo, a primeira relação sexual. No décimo, a primeira noite passada em conjunto. E era esse o momento determinante, aquele que decidia se haveria futuro comum ou não: o primeiro despertar junto do outro. Talvez um dia chegasse ao décimo primeiro encontro.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XL)

Chegava o fim do dia e o escritor sentava-se na varanda para descansar de um dia de escrita. Observava o desaparecimento do sol e, depois, a lenta transformação de cores na atmosfera que inevitavelmente terminaria em escuridão. Ouvia a agitação dos pássaros, procurava o aparecimento da primeira estrela. Sentia o toque da brisa na pele e tentava identificar que cheiros transportava e trazia até si; achava-se uma espécie de detective de cheiros. E pensava nos seus leitores; pensava nas pessoas que naquele exacto momento pudessem estar a ler algum dos seus livros. Quem seriam? Imaginava-os em varandas como a sua, talvez tocados pela mesma brisa mas desinteressados da primeira estrela; imaginava-os a emocionarem-se com o que liam; imaginava-os a imaginarem como seria o escritor que escrevera aqueles livros. Não lhe bastava imaginar personagens, precisava também de imaginar leitores; como se fossem personagens.

Passe-vite





Nem Marias Nem Manéis no Café Central
Fotografias: Cristina Vicente

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XXXIX)

Certo dia a pele começou a queixar-se. Dizia, primeiro timidamente e depois com crescente insistência: não me sinto livre. O resto do corpo ouvia, com alguma indiferença porque a pele tinha tendência para se queixar de tudo; mas a paciência foi-se consumindo. Começaram a surgir resmungos um pouco de todos os órgãos, mas nada calava a pele. Até que alguém se enervou. Disse o coração: cala-te, que já ninguém suporta tanto queixume. E depois disse: apenas tu és verdadeiramente livre neste corpo, porque apenas tu tens a possibilidade de ser tocada. O cabelo pensou: eu também posso ser tocado; mas preferiu não criar confusão e nada disse. A pele ficou em silêncio durante uns dias. Depois, primeiro timidamente e mais tarde com crescente insistência, começou a queixar-se: sinto-me demasiado livre.

Estória do dia


Livraria Arquivo. Uma estória nova a cada dia.
Fotografia: Cristina Vicente

Trinta anos






23 de Abril de 2026
Livraria Arquivo
Com Nem Marias Nem Manéis
Fotografias: Cristina Vicente

Arquivo particular

Livros recomendados.

Artista introspectivo


Fotografia: Cristina Vicente

24 de Abril


Mexe, mexe.

39 and counting


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Liberdade de mexer


Inscrições abertas e desejadas.

353 » 354

Dicionário improvisado. Jornal de Leiria (online e versão em papel).

1996


30 anos

Estória do dia

Todos os dias, uma estória nova para ler na Livraria Arquivo
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