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# 80: À escuta


(A partir do quadro "À Escuta" de Joana Lucas. Ebook disponível aqui.)

Sabe como é, doutor, as coisas morrem e pronto, vão morrendo devagarinho dia após dia; é chato mas paciência, acontece a todos, acontece com tudo o que está vivo, por que motivo não haveria de acontecer com os casamentos? Morrem, e pronto, azar, temos pena; morrem, simplesmente, como tudo o resto. Ok, são as regras, há que aceitá-las. O problema, doutor, e o senhor sabe certamente melhor do que eu qual é o problema, não sabe?, o problema é conseguir perceber que o casamento está morto, isso é que custa; e, logo de seguida, aceitar que o casamento está morto, isso também custa bastante, na verdade é o que custa mais. Aceitar o fracasso, assumir a culpa, lamentar o tempo perdido e etc, tudo isso custa. Custa muito, custa mesmo, mas depois disso, depois de perceber e aceitar, o pior está ultrapassado e basta seguir em frente, seguir em direcção ao futuro, que ele não espera muito tempo. Basta fazer o funeral do casamento, digamos assim, e avançar. Ora muito bem, o problema é passar por lá, passar efectivamente pelo sofrimento, vê-lo no olhar do outro como se estivéssemos a olhar para um espelho. O problema é sofrer. Agora estamos aqui sossegadinhos a conversar, lá fora o sol brilha e os pássaros esvoaçam, os semáforos funcionam sem falhas e as montras das lojas são renovadas (já reparou no carinho com que as raparigas vestem os manequins?, é enternecedor), daqui pouco passamos por um café e comemos uma torrada bem fofa e quente, numa mesa afastada estará alguém que de repente dará um gargalhada monumental, uma gargalhada que contagiará todo o café, porque não há nada como a gargalhada anónima e injustificada de um desconhecido para nos fazer sentir bem; sentimos a felicidade ali mesmo ao lado, a pairar tão perto, e damos por nós a pensar que não há nada que nos impeça de sermos igualmente felizes, de ter gargalhadas iguaizinhas. É assim que funciona, não é, doutor? A imitação tem um papel muito importante nas nossas vidas, na definição dos nossos estados de espírito; tudo é contagiante, começando pela alegria. Não se ria, sabe que é mesmo assim. Mas deixe-me regressar ao que interessa: ao sofrimento, que as torradas ficam para depois. O sofrimento da casa silenciosa. Andarmos de sala em sala, sem vontade de ali estar mas sem outro sítio onde ir, olhar para o outro e não ter nada que lhe dizer, esperar que não faça perguntas porque não apetece nada, mas mesmo nada, responder-lhe. E que perguntas poderia ela fazer, oh doutor? Depois de se viver um ano ou assim com alguém, não há perguntas novas que se possam fazer, o catálogo está esgotado. Mas deve estar farto de ouvir esta conversa, não é? O quanto custa olhar para alguém que se amou e ser incapaz de perceber porque se amou aquela pessoa, que havia nela para amar. Bom, tudo isto é de uma banalidade atroz. Um dia estamos em casa de uns amigos e rimos que nem desalmados, rimos tanto que somos a inveja de todos os outros (como se estivéssemos a usurpar demasiados risos para nós, cara riso que gastássemos seria um riso a menos disponível para todos os outros), olhamo-nos com ternura e partilhamos um copo, regressamos a casa demasiado cedo porque queremos estar sós, queremos fugir que o mundo está tão cheio de gente, gente que só empata e estorva, e para cada um de nós basta a presença do outro e nada mais, lá vamos os dois no carro escuro e vagaroso, mãos dadas como um par de adolescentes, planeando qual será o nome da primeira criança, entramos em casa abraçados e fodemos devagarinho e fazemos um lanche na varanda e fodemos outra vez e adormecemos e acordamos e sorrimos e pronto, é assim a felicidade. Isto, num dia; porque no outro, tudo se transformou, súbita mas imperceptivelmente, numa memória difusa e um pouco embaraçosa. E quem faz isso, doutor, quem é o responsável? Quem chega junto de nós e pega naquilo que de mais preciso tivemos para o transformar numa irrelevância? Porque alguém tem que o fazer, as coisas não se limitam a acontecer, alguém tem de as fazer acontecer. Ou seremos nós uma espécie de fábrica de irrelevâncias? Andamos pelo mundo colhendo pedaços de felicidade, aqui e ali, aproveitando tudo o que podemos, para logo o transformarmos em nada; será isso, doutor? Mas estou a devanear, desculpe lá. Seguindo em frente. O que interessa é que, de repente, deixámos de nos conhecer. Eu ainda a amava mas não a conhecia, tudo o que sempre soubera dela, tudo o que fora aprendendo e descobrindo, parecia subitamente ilusório e irrelevante, acessório. Como se de repente descobrisse que estava a viver com uma pessoa desconhecida, percebe? Olhava-a e não sabia o que estava a pensar, o que estava a sentir. E por que acontecia isto, assim subitamente? Bom, talvez o que estivesse a acontecer fosse algo diferente. Talvez ela não se tivesse tornado subitamente desconhecida, talvez a verdade fosse que eu nunca a conhecera, nunca soubera nada dela. Afinal, chegamos realmente a conhecer algo de quem amamos ou apenas aquilo que projectamos nele, aquilo que imaginamos e queremos e precisamos de conhecer? Ou aquilo que nos deixam conhecer, aquilo que permitem que se conheça? Mas estou a complicar. Na verdade, era simples: não fazia ideia do lhe ia pela cabeça. Ou talvez nunca tivesse feito ideia. Talvez as relações sejam muito mais rudimentares do que se imagina; uma pessoa olha para alguém e decide: é isto que estás a sentir; e pronto, está feito: o sentimento está lá, basta agora colhê-lo; dá-se o sentimento e logo depois vai-se buscá-lo, ponto final. Não, ponto final, não; porque quando o vai buscar, surpreende-se por o descobrir lá, delicia-se quando percebe que é o sentimento que lhe dá mesmo jeito, que vem mesmo a calhar, delicia-se tanto que se esquece que o colocou lá, que ele apenas está lá porque imagina que está lá; resumindo: o que conhecemos dos outros é o que lhes impingimos; ou seja: não conhecemos nada dos outros. Estarei enganado, doutor? Sabe, antes de perceber isto, parecia tolinho. Amava-a mas, subitamente, não a conhecia; em que estará a pensar?, perguntava-me. Claro que não lhe perguntava a ela, por isso seria assumir a minha ignorância; era como chegar junto dela e dizer-lhe: olha, ajuda-me lá um bocadinho que eu não sei nada de ti; apesar de te amar, claro. E ela responderia: mas se não sabes nada de mim, como podes dizer que me amas, o que amas em mim? E eu teria de admitir: xeque-mate. Mas, como estava a contar, não fazia ideia do que lhe ia pela cabeça. Que pensaria ela de mim, da nossa relação? Não sabia. E então andava por ali a pairar, a ver se apanhava alguma coisa no ar. Ridículo, não acha? Bom, a única forma de não ser ridículo é estar morto. Já que ela não falava, tentava ouvir os seus pensamentos, tentava escutar o seu silêncio. Está a imaginar? Ela sentada à mesa da cozinha ou assim e eu escondido trás de uma parede, a ver se captava alguma coisa. Já imaginou o piadão, se alguém invisível nos tirasse uma fotografia, se um satélite estivesse a seguir os meus movimentos? Um piadão tremendo, melhor do que uma anedota. Não acha? Está aqui a ouvir-me, todo sério e tal, e sei que faz um esforço valente para não sorrir; mas pode rir, se quiser. Afinal, tem piada. A ver se lhe apanhava os pensamentos, já imaginou tal coisa, doutor? Bom, se as conversas que ouvimos nos telemóveis circulam pelo ar, andam por aí às soltas, porque não poderíamos captar os pensamentos daqueles que amamos? Seria uma questão de frequência, de rede. O problema é que, na verdade, não haveria motivo nenhum para os pensamentos lhe saírem da cabeça, não é?, estavam lá bem protegidos, para que haveriam de sair cá para fora? Mas olhe só para a tolice desta conversa. Enfim, nunca deixamos de ser umas criancinhas, por mais que finjamos que não; nunca desistimos de acreditar no pai natal, em explicar o óbvio com teorias rebuscadas. De qualquer forma, tudo isto teve a sua importância; porque foi quando tomei consciência da minha figura atarantada, da minha vulnerabilidade e impotência, que percebi que o casamento estava morto, que tinha morrido; e estando morto, não interessava especialmente perceber quem o matara, porque morrera. Morrera, simplesmente; não havia necessidade de chamar a polícia. Havia que seguir em frente e pronto. E foi o que fiz. Mas sabe o que tem piada? É que, afinal, talvez tenha resultado, esta minha inopinada tentativa de prospecção (prospecção, já viu bem?) de pensamentos. Resultou, sim: porque o pensamento andava ali pelo ar, pairando ao sabor das nossas respirações, e acabei por o captar. Claro que o doutor dirá que era um pensamento meu, da minha própria mente, dirá que não captei nada, limitando-me a perceber e aceitar algo vindo do meu próprio subconsciente, ou inconsciente ou lá como vocês lhe chamam. Mas e se não fosse assim, tudo racional e lógico? Se tivesse existido mesmo uma transmissão? Se ela tivesse efectivamente difundido silenciosamente, sem recorrer a palavras ou gestos ou olhares, o que pensava e desejava? Terei percebido a mensagem correctamente? E se me enganei, doutor? Se percebi tudo ao contrário?