Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LVIII)

Hoje vi dois pássaros entretidos num voo. Às voltas pelo céu, um à frente e outro atrás, para cima e para baixo, com grandes piruetas e ziguezagues inesperados. Achei que estariam a brincar, tal como duas crianças que jogam à apanhada, rindo alto. Depois surpreendi-me com um pensamento: e se não for uma brincadeira, mas um ataque? Se aquilo a que assisto for uma perseguição, um acto de caça inclemente? Continuo a observar, sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. Que sei eu da natureza? Que sei eu da vida? Quase nada. E depois pensei: que sei eu de ti? Quando te olho sinto que nada sei do que pensas ou desejas; sinto que és uma desconhecida. Sabes o que pensei quando via os pássaros às voltas? Que gostava que nos divorciássemos. Gostava de voar sozinho.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LVII)

O escritor divaga sobre a importância de encontrar um sentido para a vida. Fala de forma apaixonada e convicta, completamente seguro do que diz. A audiência escuta com atenção, aderindo ao que ouve não tanto pela excelência dos argumentos mas mais pela convicção e dramatismo com que são expostos. Até que a mulher mais bonita da audiência interrompe para explicar que não concorda: «Dizer que há um sentido para a vida é absurdo. Existe é a possibilidade de vislumbrar um sentido para determinado momento da vida. Mas para este momento em particular, que estamos aqui a viver em conjunto, não consigo encontrar qualquer sentido. Tenho de o procurar noutro lado qualquer.» E sai. O escritor fica incomodado, não tanto pela discordância pública em relação aos seus argumentos, mas por ter sido contrariado pela mulher mais bonita da audiência, que estava a tentar impressionar desde o primeiro momento.

Alegorias anti-fascistas

No Jornal de Leiria (edição em papel e online).

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LVI)

Ao fim do dia sentava-se no velho cadeirão, ao lado da sua árvore preferida, e contemplava o horizonte longínquo. Nunca se cansava de olhar, regressando ao que já conhecia ou descobrindo novos detalhes na paisagem; desconfiava que só fazia sentido olhar quando o que se via pudesse ser complementado pela imaginação. Até que um dia o horizonte se aborreceu de tanta contemplação e lhe disse: «Pára de olhar e faz alguma coisa. Mexe-te, caralho.»

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LV)

Toda a gente pensa que a sua obsessão enquanto arquitecto é conceber paredes perfeitas que impeçam que o ruído do mundo entre numa determinada sala. Mas a verdade é que o seu objectivo é outro: a função principal das paredes é impedir que o silêncio da sala saia e se perca no mundo.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIV)

Era uma planta muito jovem quando chegou àquela casa. Colocaram-na à beira de uma janela, onde se habituou ao excesso de luz. Nem sempre a regavam, e também se habituou à escassez de água. Foi adoptando a milenar filosofia das plantas (aceita, babe, que dói menos) e os dias foram passando. Outra coisa a que se habituou: discussões. Muito se discutia naquela casa, dia após dia. Mas não só se habituou como incorporou essa peculiar forma de estar na vida; e deu por si a desejar discutir com alguém. Talvez um dia trouxessem outra planta, e deixaria de estar sozinha; poderia discutir. Foi sonhando, enquanto olhava pela janela.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIII)

O relatório do técnico é claro: "O planeta é dominado por uma espécie execrável. Vão produzindo umas inovações que consideram muito avançadas, mas que na verdade são (do ponto de vista científico) muito infantis; baseando-se na suposta superioridade dessa tecnologia e da sua própria evolução enquanto criaturas auto-conscientes, desconsideram todas as restantes espécies e colocam em risco a sobrevivência do planeta. Mas mesmo entre si têm comportamentos discriminatórios e agressivos não compatíveis com o actual estado civilizacional do universo. Cito apenas um exemplo: há indivíduos desta espécie que violentam os seus semelhantes por não apreciarem o seu local de nascimento. Há milénios que não me deparava com uma espécie tão ostensivamente imbecil, como o referido exemplo comportamental demonstra. Recomendo que não seja feita qualquer aproximação por parte da sociedade das civilizações inter-espaciais e que se permita que esta espécie definhe e se auto-extinga, conduzida pela sua arrogante estupidez." O burocrata que analisa este relatório coloca-lhe um carimbo, dando despacho positivo, e sente-se feliz por não ser desses técnicos que têm de explorar territórios tão selvagens e depressivos; arrepia-se ao tomar consciência - uma vez mais - de como ainda há focos de horror espalhados pelo universo. Suspira. Sente que o trabalho se arrasta, que tarda em chegar a hora de encerrar a repartição. Suspira de novo. Talvez saia mais cedo, precisa de comprar mais tinta para o carimbo.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LII)

Por vezes, tudo o que o oceano deseja é sossego e tranquilidade; parar um pouco. Mas a lua não deixa.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LI)

Era uma vez uma pessoa que decidiu adoptar um cão. O cão instalou-se e logo adoptou uma árvore que vivia no jardim. A árvore não se importou; quando tinha adoptado aquela pessoa já sabia que mais tarde ou mais cedo viria um animal. É da natureza das famílias irem crescendo.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (L)

A estrela decidiu dormir uma sesta. Quando acordou, o minúsculo e longínquo planeta que gostava de contemplar quando acordava (tinha sonhos agitados e observar a insignificância tranquilizava-a) já não era azul.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLIX)

O homem e a mulher viviam naquela caverna há muito tempo. Aborreciam-se um pouco, assim sozinhos. Certo dia, um deles começou a emitir um som específico sempre que desejava sexo; o outro, percebendo o significado desse som, também começou a reproduzi-lo sempre que lhe apetecia. Com o tempo, passaram a desenvolver sons individualizados para cada uma das posições que, em determinado momento, queriam explorar. E assim nasceu a linguagem humana. Numa caverna, por aborrecimento.