Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXIII)

Estou aqui por causa de uma música. O problema começou num dia em que regressava do trabalho e a ouvi no rádio do carro; fiquei aparvalhado e com vontade de a ouvir de novo. Vontade, não; urgência. Mal cheguei a casa, liguei o computador e ouvi-a meia dúzia de vezes; e de cada vez impressionava-me mais. Investiguei um pouco e descobri que a música existia há vinte e sete anos; e quando vi a imagem da capa, percebi que a reconhecia; subitamente, com o impacto de uma pancada - assim: páááá -, percebi que tinha comprado aquele disco; que ouvira aquela música há vinte e sete anos, e que nessa altura me fora completamente indiferente. Nos dias seguintes, ouvi-a várias vezes, em várias circunstâncias. Como se a música fosse uma pessoa, e estivesse apaixonado por ela; incapaz de a largar. Ri sozinho, quando tive este pensamento. Mas foi aí que as coisas se complicaram; pensei: e se o que me aconteceu com esta música tivesse ocorrido em relação a uma pessoa? Alguém que há vinte sete anos me foi indiferente, mas por quem me poderia ter apaixonado se tivesse olhado com atenção. O tempo passou e a dúvida não me saía do espírito; para a esclarecer, tentei restabelecer contacto com pessoas do meu passado que não via há décadas. Dizem que fui insistente; dizem que fui inconivente; dizem que fui agressivo. Dizem que foi necessário (temporariamente, esclareceram) trancar-me aqui para me proteger. Dizem que não posso ouvir a música de há vinte e sete anos porque me deixa agitado, e confesso que é isso o que mais me custa.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXII)

Estava quase a adormecer quando uma mosca começou a rondar. Enervou-se com o incómodo, pôs-se em posição de ataque, desferiu a pancada, matou a mosca, sorriu. Pouco tempo depois, adormeceu. Algures nalgum canto do universo, um funcionário administrativo teve de abrir o excel adequado e actualizar os valores na coluna "menos uma mosca". Curiosamente, foi esse mesmo funcionário que algum tempo depois teve de actualizar o excel na coluna "menos um humano", porque o assassino de moscas não voltou a acordar. Deus apreciava simetrias e balancetes certos.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXI)

Ele sabia. Poucos sabiam, e ele era um deles. De noite, enquanto dormia, a alma saía do seu corpo, como se fosse dar um passeio. Isso das almas abandoarem o corpo para fazer turismo era estória antiga, do conhecimento de toda a gente. O que poucos sabiam, e ele era um deles, é que não se tratava de turismo. Não, nada de devaneios ao acaso ou passeios higiénicos. As almas iam aprender, como se fossem à escola; encontravam-se com outras almas, e escutavam os ensinamentos das almas doutoras. Aprendiam, e depois regressavam a casa. Isso era o que poucos sabiam, e ele era um deles. Aquilo a que se chama sonhar era, afinal, aprendizagem.   

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LX)

Reunidos em congresso, os cientistas debatiam sobre quais poderiam ser as melhores formas de alcançar a imortalidade na espécie humana. Todas as hipóteses avançadas pareciam vindas de livros de ficção científica, e nem todos bons livros. Até que o único cientista presente que ainda não recebera o prémio nobel sugeriu: e se arranjássemos uma forma de a morte se apaixonar?

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LIX)

Sempre se habituara à divisão clássica e consensual que prevalecia há milénios: havia verdade e havia mentira. Mas há muito que desconfiava que esse binário estava ultrapassado; acreditava que apenas pessoas eticamente fracas e cobardes ainda se deixavam seguir por essa simplicidade algo rústica, impingida às gentes mais susceptíveis por filósofos, moralistas e religiosos desde tempos imemoriais. Para si, a divisão que importava era outra: havia convicção e havia incerteza. Disse no seu famoso discurso: "Verdades e mentiras são categorias dinâmicas que se contaminam e confundem entre si. São formas artificiais e redutoras de capturar e aprisionar a realidade." E como falou com convicção, levaram-no a sério. Apesar de ser cómico de profissão. 

Uma peça para rir


NMNM apresenta:
(uma peça para rir)
JÁ EXPERIMENTASTE AZEITONAS?
(começa mal, que o título não tem graça)