(Escrito a partir de um desenho de João Concha)
Estava tão habituada a ser aquilo que sempre fui que nem me passava pela cabeça que poderia ser algo diferente, que poderia tentar ser algo novo. Parece que me habituei a ser uma mera repetição de mim própria, percebe? Suponho que a previsibilidade é uma droga muito forte, dá-nos a ilusão de que controlamos alguma coisa, que dominamos minimamente o nosso cantinho de mundo, que a nossa vida pode vir a ser aquilo que desejamos que seja. Tal como os bebés: basta terem três ou quatro semanas de vida e já sabem que se chorarem o tempo suficiente e com a intensidade adequada, é previsível que lhe limpem o rabo ou lhe dêem leite; aprendemos isto nos primeiros dias de vida e habituamo-nos, nunca mais paramos de chorar. A verdade é que muitas vezes acabamos por compatibilizar os nossos desejos àquilo que prevemos que possa acontecer, àquilo que é mais plausível que aconteça; abdicamos de desejar o que efectivamente deveríamos e poderíamos desejar, porque o tememos inalcançável, para nos contentarmos em desejar aquilo que cremos realizável e exequível; deixamos de sonhar sermos uma estrela pop universal mega adorada para nos satisfazermos com um novo jogo de karaoke e sermos uma estrela caseira, adorada assim-assim por amigos bondosos. É como se houvesse uma espécie de central sindical reaccionária dentro de cada um de nós, a reivindicar não uma evolução e um crescimento e uma mudança mas a simples manutenção da nossa situação; e sob a influência desta central sindical, passamos a viver numa espécie de patamar mínimo de desejo e felicidade, acantonados nos nossos direitos adquiridos; habituamo-nos a esse patamar mínimo, seguro e previsível, controlável; abdicamos de ambicionar e perseguir uma felicidade esplendorosa, inesperada e possivelmente aniquiladora, talvez avassaladora mas obviamente impossível de manter indefinidamente, para nos acomodarmos a uma amostra de felicidade mínima mas estável, a uma espécie de serviços mínimos de felicidade, sem risco nem chama. Dizemos que vivemos cada dia como se fosse o último mas, na verdade, vivemos cada dia como se fosse o antepenúltimo. E para disfarçar, para nos iludirmos, ainda arranjamos um nome pseudo-sofisticado para isso: procrastinar. Sabe o que penso? Chamem-lhe o que quiserem mas o que andamos mesmo a fazer é a foder as nossas vidas, bem devagarinho e quase sem querer, mas a fodê-las irremediavelmente.
Enfim. Deixe-me lá regressar ao que interessa. Andava eu descansadinha da vida, a procrastinar para aqui e para ali, quando reparei no homem. Um tipo completamente banal, sem nada que chamasse a atenção ou motivasse um olhar. E sabe porque reparei nele? Por causa da repetição, da previsibilidade. Porque ele estava no mesmo sítio todos os dias, à mesma hora; habituei-me a vê-lo naquele banco de jardim, o olhar parado e amorfo, como se fosse um cego voluntário, olhando mas recusando-se a ver. Passava por ali quando ia almoçar e lá estava ele, a olhar para o vazio; não parecia doido nem doente nem nada de estranho, apenas alguém parado no mundo, à espera de acontecesse qualquer coisa. Dia após dia após dia, lá estava ele, lá passava eu. E então, certa vez, falei-lhe; não sei porquê nem para quê. Mas foi isso que aconteceu, aproximei-me dele e falei-lhe. Já imaginou uma coisa destas, eu a afastar-me um bocadinho da minha rotina para falar com um desconhecido? Estranho. Mas foi o que aconteceu. De qualquer forma, por que motivo é que as pessoas se aproximam umas das outras? Qual a motivação, qual o objectivo? Quando nos dirigimos a um desconhecido, fazemo-lo por motivos egoístas ou altruístas? Por nós ou por ele? Queremos ajudar ou ser ajudados? Estamos a reparar no outro ou apenas queremos que ele repare em nós? Questões interessantes, não são? E quem as conseguir responder com honestidade fica por certo a saber um pouco mais de si próprio; o que pode não ser necessariamente algo positivo. Adiante. Aproximei-me do homem e disse: Boa tarde. Ele olhou-me sem surpresa nem desagrado, sem verdadeiro interesse. Estava tão próximo dele que senti o seu perfume; um perfume magnífico, de que sempre gostei, que até ofereci ao meu marido mas que ele não usou uma única vez. Allure, de Chanel. Gosta? C’est magnifique. Senti-me um bocado parva, ali indefesa perante o seu desinteresse; e estive quase para lhe pedir um cigarro, só para justificar a minha abordagem, mas percebi que isso apenas agravaria a parvoíce. Que faria eu com a porcaria do cigarro? Então, lá acabei por dizer: O senhor está bem? Desculpe lá mas é que se nota um bocado que se passa algo grave consigo e, sei lá, achei que poderia precisar de ajuda ou assim. Penso que, por um momento, se sentiu surpreendido, mas optou por disfarçar; a central sindical que havia em si impôs-se, impediu grandes deslumbramentos. Quase sorriu mas não o chegou a fazer. E sim, tenho noção de que isto que acabei de dizer, de ele quase sorrir mas não o chegar a fazer, é um verdadeiro disparate. Pareceu-me que não iria responder e perguntei-me se seria surdo ou simplesmente mal-educado; também poderia ser tolinho e não ter percebido uma palavra; ou estrangeiro. Fiquei ali um instante, rodeada pelos sons do parque e envolvida numa subtil nuvem de Allure, sentindo-me estranhamente serena e despreocupada. Sem esperar nada, apenas a saborear aquela espécie de suspensão do tempo. E foi então que ele falou. Diz ele: Sabe que já houve casos de elefantes que morreram de amor? Quando perdem o companheiro, recusam-se a comer e podem acabar por morrer. Os pragmáticos – ou seja: quase toda a gente – dirão que não morrem nada de amor mas sim de fome mas os pragmáticos são gente demasiado aborrecida para alguém ligar ao que dizem. Não acha? E sorriu; um sorriso nem bonito nem feio, simplesmente normal. Pensei um pouco no que ele acabara de dizer, perguntei-me: estás a morrer de amor, é isso que queres dizer? Mas não disse nada, nem sequer sorri (é o que acontece quando se sai da rotina, quando se foge à previsibilidade: fica-se desorientado). Depois de proferido o discursozinho, afastou o olhar de mim e regressou ao seu estado de contemplação (ou de idiotice, como diriam os pragmáticos); esqueceu-me e afastou-me, de forma nada subtil. Fiquei para ali durante uns segundos, baralhada, a pensar em elefantes mortos e embriagada de Allure, a perguntar-me se ele achara que eu só poderia ser uma dessas tais pessoas pragmáticas, demasiado aborrecida para ser escutada. Contrariei o embaraço e forcei-me a reagir, disse: Chiça, que estou atrasada. E, sem aguardar reacção ou resposta, afastei-me, regressei ao meu caminho.
No trabalho, acabei por passar uma tarde terrível. Pensava no homem, que talvez ainda continuasse sentado no banco de jardim, rodeado pela exuberância da natureza (chilreios de pássaros e assim – minudências de poetas), alheio ao mundo e alheado pelo mundo, a pensar em elefantes mortos. E, simultaneamente, havia uma ideia que não me saía da cabeça, enquanto preenchia o caralho das folhas de cálculo: até os elefantes se amam para toda a vida. Depois, quando cheguei a casa, olhei para o meu marido e momentaneamente pensei no homem do jardim, no seu olhar apático, na sua angústia silenciosa. Olhei-o durante um momento – até ele se encafuar no escritório –, tentando evocar uma outra versão sua, já quase esquecida, aquela que eu amara. Sim, amámo-nos durante algum tempo mas há muito que isso terminara; contudo, ali continuávamos, juntos, pouco exigentes, procrastinadores. Olhei para ele, para a sua versão há muito não amada, e pensei no perfume que lhe oferecera há uns anos, apeteceu-me perguntar-lhe se o deitara fora, por que motivo nunca o usara, se lhe teria custado muito fazer-me a atenção de se borrifar com ele duas ou três vezes; e de seguida, já que estava a fazer perguntas, cogitei que poderia prosseguir com o interrogatório e chegar à questão que verdadeiramente interessava: quando deixaste de me amar? Segui para a cozinha e fiquei bastante tempo indecisa entre peru ou frango. Simultaneamente, fui pensando em algo inesperado. Sabe o quê? Naqueles anúncios um bocado foleiros que os velhotes mandam colocar nos jornais, quando fazem cinquenta anos de casamento; porque o farão? Por orgulho, para se exibirem, para provarem que é possível sobreviver a cinquenta anos de vida em comum? Ou para prevenirem os outros, alertando-os a escapar enquanto é tempo? Enfim, as coisas que me passam pela cabeça. Lá continuei, distraída com a previsibilidade da minha vida, pensando isto e aquilo. Até que chegou a hora de jantar. Sentei-me à espera do meu marido e a olhar para o frango, a pensar coisas sem senso (por exemplo: será que o homem do parque me terá achado bonita?), tentando distrair-me com a televisão. Até que ele chega, olha para o prato, bufa um bocado; e diz: Foda-se, frango outra vez? Lembrei-me, não sei porquê, de uma vez em que ele me foi esperar ao trabalho e, depois, me levou a um restaurante chique onde comemos um prato sofisticado e vistoso que afinal era, simplesmente, frango bem disfarçado; depois, fomos para uma praia deserta e fizemos amor (não altura ainda não fazíamos sexo, apenas amor), acompanhados pelo murmúrio do mar, pela luz ténue da lua (lá está: minudências de poetas, novamente); conversámos e rimos, incapazes de admitir que estávamos com frio e com fome e bastante desconfortáveis – areia por aqui e por ali, incomodando – porque, na verdade, sentíamo-nos tão bem juntos; fizemos planos para o futuro e jurámos que iríamos ser felizes para sempre, acreditámos que assim seria. Pensando nisso, respondi distraidamente: Poderias ser tu a fazer o jantar, para variar. Mas enquanto fomos prosseguindo a refeição, em silêncio, voltei inevitavelmente a pensar no homem do jardim (que talvez ainda por lá estivesse, apenas acompanhado por um qualquer pássaro mais nocturno; a morrer devagarinho, tal como todas as outras pessoas – mas um pouco mais depressa, apenas um pouquinho mais depressa que todas as outras pessoas) e, de repente, assim mesmo de repente, pareceu-me não apenas necessário mas inevitável que, por uma vez, contrariasse a previsibilidade da minha vida.
O jantar prosseguiu, portanto. Mas houve um momento, inesperado e incontrolável, em que eu disse: Sabias que os elefantes podem morrer de amor? Que quando perdem o companheiro desistem de viver? Mas sabes o que acho? Que são muito estúpidos, os elefantes. Mesmo estúpidos. Apesar de dizermos mais nada um ao outro, uns dias depois começámos finalmente a discutir os pormenores do divórcio. Mas logo nessa noite, quando já estava na cama, sentindo-me um pouco triste, um pouco assustada, um pouco incrédula, pensei em como era curioso e peculiar e poético que a minha vida acabasse por mudar de forma decisiva apenas por causa de um desconhecido, por causa de uma frase enigmática dita por um desconhecido; e, confesso-lhe, nessa noite adormeci a pensar no homem do parque.
Estava tão habituada a ser aquilo que sempre fui que nem me passava pela cabeça que poderia ser algo diferente, que poderia tentar ser algo novo. Parece que me habituei a ser uma mera repetição de mim própria, percebe? Suponho que a previsibilidade é uma droga muito forte, dá-nos a ilusão de que controlamos alguma coisa, que dominamos minimamente o nosso cantinho de mundo, que a nossa vida pode vir a ser aquilo que desejamos que seja. Tal como os bebés: basta terem três ou quatro semanas de vida e já sabem que se chorarem o tempo suficiente e com a intensidade adequada, é previsível que lhe limpem o rabo ou lhe dêem leite; aprendemos isto nos primeiros dias de vida e habituamo-nos, nunca mais paramos de chorar. A verdade é que muitas vezes acabamos por compatibilizar os nossos desejos àquilo que prevemos que possa acontecer, àquilo que é mais plausível que aconteça; abdicamos de desejar o que efectivamente deveríamos e poderíamos desejar, porque o tememos inalcançável, para nos contentarmos em desejar aquilo que cremos realizável e exequível; deixamos de sonhar sermos uma estrela pop universal mega adorada para nos satisfazermos com um novo jogo de karaoke e sermos uma estrela caseira, adorada assim-assim por amigos bondosos. É como se houvesse uma espécie de central sindical reaccionária dentro de cada um de nós, a reivindicar não uma evolução e um crescimento e uma mudança mas a simples manutenção da nossa situação; e sob a influência desta central sindical, passamos a viver numa espécie de patamar mínimo de desejo e felicidade, acantonados nos nossos direitos adquiridos; habituamo-nos a esse patamar mínimo, seguro e previsível, controlável; abdicamos de ambicionar e perseguir uma felicidade esplendorosa, inesperada e possivelmente aniquiladora, talvez avassaladora mas obviamente impossível de manter indefinidamente, para nos acomodarmos a uma amostra de felicidade mínima mas estável, a uma espécie de serviços mínimos de felicidade, sem risco nem chama. Dizemos que vivemos cada dia como se fosse o último mas, na verdade, vivemos cada dia como se fosse o antepenúltimo. E para disfarçar, para nos iludirmos, ainda arranjamos um nome pseudo-sofisticado para isso: procrastinar. Sabe o que penso? Chamem-lhe o que quiserem mas o que andamos mesmo a fazer é a foder as nossas vidas, bem devagarinho e quase sem querer, mas a fodê-las irremediavelmente.
Enfim. Deixe-me lá regressar ao que interessa. Andava eu descansadinha da vida, a procrastinar para aqui e para ali, quando reparei no homem. Um tipo completamente banal, sem nada que chamasse a atenção ou motivasse um olhar. E sabe porque reparei nele? Por causa da repetição, da previsibilidade. Porque ele estava no mesmo sítio todos os dias, à mesma hora; habituei-me a vê-lo naquele banco de jardim, o olhar parado e amorfo, como se fosse um cego voluntário, olhando mas recusando-se a ver. Passava por ali quando ia almoçar e lá estava ele, a olhar para o vazio; não parecia doido nem doente nem nada de estranho, apenas alguém parado no mundo, à espera de acontecesse qualquer coisa. Dia após dia após dia, lá estava ele, lá passava eu. E então, certa vez, falei-lhe; não sei porquê nem para quê. Mas foi isso que aconteceu, aproximei-me dele e falei-lhe. Já imaginou uma coisa destas, eu a afastar-me um bocadinho da minha rotina para falar com um desconhecido? Estranho. Mas foi o que aconteceu. De qualquer forma, por que motivo é que as pessoas se aproximam umas das outras? Qual a motivação, qual o objectivo? Quando nos dirigimos a um desconhecido, fazemo-lo por motivos egoístas ou altruístas? Por nós ou por ele? Queremos ajudar ou ser ajudados? Estamos a reparar no outro ou apenas queremos que ele repare em nós? Questões interessantes, não são? E quem as conseguir responder com honestidade fica por certo a saber um pouco mais de si próprio; o que pode não ser necessariamente algo positivo. Adiante. Aproximei-me do homem e disse: Boa tarde. Ele olhou-me sem surpresa nem desagrado, sem verdadeiro interesse. Estava tão próximo dele que senti o seu perfume; um perfume magnífico, de que sempre gostei, que até ofereci ao meu marido mas que ele não usou uma única vez. Allure, de Chanel. Gosta? C’est magnifique. Senti-me um bocado parva, ali indefesa perante o seu desinteresse; e estive quase para lhe pedir um cigarro, só para justificar a minha abordagem, mas percebi que isso apenas agravaria a parvoíce. Que faria eu com a porcaria do cigarro? Então, lá acabei por dizer: O senhor está bem? Desculpe lá mas é que se nota um bocado que se passa algo grave consigo e, sei lá, achei que poderia precisar de ajuda ou assim. Penso que, por um momento, se sentiu surpreendido, mas optou por disfarçar; a central sindical que havia em si impôs-se, impediu grandes deslumbramentos. Quase sorriu mas não o chegou a fazer. E sim, tenho noção de que isto que acabei de dizer, de ele quase sorrir mas não o chegar a fazer, é um verdadeiro disparate. Pareceu-me que não iria responder e perguntei-me se seria surdo ou simplesmente mal-educado; também poderia ser tolinho e não ter percebido uma palavra; ou estrangeiro. Fiquei ali um instante, rodeada pelos sons do parque e envolvida numa subtil nuvem de Allure, sentindo-me estranhamente serena e despreocupada. Sem esperar nada, apenas a saborear aquela espécie de suspensão do tempo. E foi então que ele falou. Diz ele: Sabe que já houve casos de elefantes que morreram de amor? Quando perdem o companheiro, recusam-se a comer e podem acabar por morrer. Os pragmáticos – ou seja: quase toda a gente – dirão que não morrem nada de amor mas sim de fome mas os pragmáticos são gente demasiado aborrecida para alguém ligar ao que dizem. Não acha? E sorriu; um sorriso nem bonito nem feio, simplesmente normal. Pensei um pouco no que ele acabara de dizer, perguntei-me: estás a morrer de amor, é isso que queres dizer? Mas não disse nada, nem sequer sorri (é o que acontece quando se sai da rotina, quando se foge à previsibilidade: fica-se desorientado). Depois de proferido o discursozinho, afastou o olhar de mim e regressou ao seu estado de contemplação (ou de idiotice, como diriam os pragmáticos); esqueceu-me e afastou-me, de forma nada subtil. Fiquei para ali durante uns segundos, baralhada, a pensar em elefantes mortos e embriagada de Allure, a perguntar-me se ele achara que eu só poderia ser uma dessas tais pessoas pragmáticas, demasiado aborrecida para ser escutada. Contrariei o embaraço e forcei-me a reagir, disse: Chiça, que estou atrasada. E, sem aguardar reacção ou resposta, afastei-me, regressei ao meu caminho.
No trabalho, acabei por passar uma tarde terrível. Pensava no homem, que talvez ainda continuasse sentado no banco de jardim, rodeado pela exuberância da natureza (chilreios de pássaros e assim – minudências de poetas), alheio ao mundo e alheado pelo mundo, a pensar em elefantes mortos. E, simultaneamente, havia uma ideia que não me saía da cabeça, enquanto preenchia o caralho das folhas de cálculo: até os elefantes se amam para toda a vida. Depois, quando cheguei a casa, olhei para o meu marido e momentaneamente pensei no homem do jardim, no seu olhar apático, na sua angústia silenciosa. Olhei-o durante um momento – até ele se encafuar no escritório –, tentando evocar uma outra versão sua, já quase esquecida, aquela que eu amara. Sim, amámo-nos durante algum tempo mas há muito que isso terminara; contudo, ali continuávamos, juntos, pouco exigentes, procrastinadores. Olhei para ele, para a sua versão há muito não amada, e pensei no perfume que lhe oferecera há uns anos, apeteceu-me perguntar-lhe se o deitara fora, por que motivo nunca o usara, se lhe teria custado muito fazer-me a atenção de se borrifar com ele duas ou três vezes; e de seguida, já que estava a fazer perguntas, cogitei que poderia prosseguir com o interrogatório e chegar à questão que verdadeiramente interessava: quando deixaste de me amar? Segui para a cozinha e fiquei bastante tempo indecisa entre peru ou frango. Simultaneamente, fui pensando em algo inesperado. Sabe o quê? Naqueles anúncios um bocado foleiros que os velhotes mandam colocar nos jornais, quando fazem cinquenta anos de casamento; porque o farão? Por orgulho, para se exibirem, para provarem que é possível sobreviver a cinquenta anos de vida em comum? Ou para prevenirem os outros, alertando-os a escapar enquanto é tempo? Enfim, as coisas que me passam pela cabeça. Lá continuei, distraída com a previsibilidade da minha vida, pensando isto e aquilo. Até que chegou a hora de jantar. Sentei-me à espera do meu marido e a olhar para o frango, a pensar coisas sem senso (por exemplo: será que o homem do parque me terá achado bonita?), tentando distrair-me com a televisão. Até que ele chega, olha para o prato, bufa um bocado; e diz: Foda-se, frango outra vez? Lembrei-me, não sei porquê, de uma vez em que ele me foi esperar ao trabalho e, depois, me levou a um restaurante chique onde comemos um prato sofisticado e vistoso que afinal era, simplesmente, frango bem disfarçado; depois, fomos para uma praia deserta e fizemos amor (não altura ainda não fazíamos sexo, apenas amor), acompanhados pelo murmúrio do mar, pela luz ténue da lua (lá está: minudências de poetas, novamente); conversámos e rimos, incapazes de admitir que estávamos com frio e com fome e bastante desconfortáveis – areia por aqui e por ali, incomodando – porque, na verdade, sentíamo-nos tão bem juntos; fizemos planos para o futuro e jurámos que iríamos ser felizes para sempre, acreditámos que assim seria. Pensando nisso, respondi distraidamente: Poderias ser tu a fazer o jantar, para variar. Mas enquanto fomos prosseguindo a refeição, em silêncio, voltei inevitavelmente a pensar no homem do jardim (que talvez ainda por lá estivesse, apenas acompanhado por um qualquer pássaro mais nocturno; a morrer devagarinho, tal como todas as outras pessoas – mas um pouco mais depressa, apenas um pouquinho mais depressa que todas as outras pessoas) e, de repente, assim mesmo de repente, pareceu-me não apenas necessário mas inevitável que, por uma vez, contrariasse a previsibilidade da minha vida.
O jantar prosseguiu, portanto. Mas houve um momento, inesperado e incontrolável, em que eu disse: Sabias que os elefantes podem morrer de amor? Que quando perdem o companheiro desistem de viver? Mas sabes o que acho? Que são muito estúpidos, os elefantes. Mesmo estúpidos. Apesar de dizermos mais nada um ao outro, uns dias depois começámos finalmente a discutir os pormenores do divórcio. Mas logo nessa noite, quando já estava na cama, sentindo-me um pouco triste, um pouco assustada, um pouco incrédula, pensei em como era curioso e peculiar e poético que a minha vida acabasse por mudar de forma decisiva apenas por causa de um desconhecido, por causa de uma frase enigmática dita por um desconhecido; e, confesso-lhe, nessa noite adormeci a pensar no homem do parque.