Bastidores


Fotografia: Cristina Vicente

Duas plantas com pouco juízo (LIX)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Olha para aquilo. Não achas que é difícil respeitar uma pessoa depois de ver o estado das cuecas que pendura no estendal?» E riam.

Livro de parede





Livro de parede - 5º encontro

Um projeto de Paulo Kellerman, em parceria com a União das Freguesias de Marrazes e Barosa e as/os amigas/os da Sousa Santos - Biblioteca do Janardo, com o apoio do Município de Leiria. Fotos: Luís Melo | Musaiko para a União das Freguesias de Marrazes e Barosa

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXX)

Apenas tinha um espelho, que estava na casa de banho. Olhava-se nele duas vezes por dia, depois de se levantar e antes de se deitar. Exceptuando esses dois momentos diários, o espelho estava sempre coberto por um pano escuro. Uma vez contara a uma mulher que levara a casa e que precisara de ir à casa de banho para que servia o pano: "Serve para impedir que o espelho apanhe luz; assim, resiste melhor ao ambiente, o que retarda o seu envelhecimento. Ora, se o espelho se mantém jovem, é natural que quando me olho nele também eu pareça jovem. Entendes?" A mulher rira tanto, mas tanto, que depois disso ainda não tivera coragem de levar mais ninguém a casa. Mas continuava a tapar o espelho. 

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXIX)

Pediu um caderno à mãe; duas semanas depois, pediu outro. Só quando ia no quinto mostrou à mãe o que andava a fazer: escrevia números em extenso. Começara em um e chegara a dezanove mil e oitocentos. Quando já passara o cinquenta mil, descobriram o seu passatempo na escola. E quando chegou aos cem mil, houve uma pequena notícia no jornal da terra. Dizia-se que estava a tentar bater o recorde mundial de escrita de números em extenso. Não se importava que pensassem isso; não iria confessar que estava a escrever para o pai; a ajudá-lo. Sabia que ele estava num país distante e que o seu trabalho era apanhar fruta; sabia - porque ele lhe explicara - que teria dinheiro suficiente para regressar a casa depois de ter apanhado oito milhões de alperces. Antes de dormir, olhava sempre a sua pilha de cadernos onde ia registando um a um os alperces colhidos pelo pai.

Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (LXVIII)

Era um grupo quase secreto. Juntava pessoas que por algum motivo já tinham sido forçadas a transportar nos braços uma criança morta. Reuniam uma vez por semana e quase não falavam; unia-as um silêncio único e inexplicável, que expressava algo do que sentiam e eram incapazes de verbalizar. Surpreendiam-se sempre por o grupo ter tantos membros, apesar de ser quase secreto.

Duas plantas com pouco juízo (LVIII)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Três plantas entram num bar e sentam-se à mesa. Uma diz: a primeira que perder uma folha paga a conta.» E riam.

10 anos a fotografar palavras







Fotos: Gil de Lemos

Duas plantas com pouco juízo (LVII)

As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Não tenho qualquer problema em assumir que já fiz algumas intervenções estéticas. Um enxerto aqui, outro ali; qual o problema? Vergonha é ter ramos flácidos.» E riam.