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Autópsia # 01: Silenciar

1.
Estás na sala a ver televisão e eu na cama, à tua espera; excitada, o espírito alvoraçado e o corpo ansioso, a antecipar o orgasmo (mais importante: a antecipar todo o percurso que teremos de percorrer até alcançar o orgasmo, carícia após carícia). E tu sem vir, adiando.
Admito: cedo nos habituámos a criar estratégias para adiar a inevitabilidade do sexo; ambos aprendemos a detectar no outro os indícios da excitação e, como raramente as vontades coincidem, fomos aperfeiçoando alguns métodos que nos permitissem contornar a obrigatoriedade de satisfazer o desejo do outro. Estabelecemos uma estratégia silenciosa e envergonhada, que nos embaraça e constrange, mas que funciona, que nos satisfaz; mas a verdade é que se um de nós quer foder, prefere não o fazer (cerrar os olhos e tentar dissolver a excitação em fantasias, por exemplo) a ter de admitir que o outro o fará contrariado; a ter de admitir que o outro irá foder por favor.
Mas claro que, por vezes, toda esta racionalização se revela absurda e inconsequente: e engolir a excitação, fantasiar orgasmos, não chega; por vezes, é necessário ceder; engolir o orgulho e acreditar que o outro também cederá; que o outro também quer.
Vou esperando, então.

2.
Impaciente, salto da cama e passeio-me, langorosa e convidativa, pela sala; com esperança que percebas e venhas (importa-me lá que o faças por favor; amanhã pensarei nisso, lidarei com o arrependimento; mas, agora, preciso mesmo que venhas), com esperança que não me forces a pedir; tentando desculpar – desculpar, apenas; e não justificar – o teu desinteresse. Mas limitas-te a sorrir, sem alegria nem ânimo; sem me olhar.
Regresso à cama, onde espero, nua e gélida, desesperançada; transformando a frustração em paciência. Quando finalmente chegas, entras na cama cuidadosamente, com movimentos lentos e silenciosos, talvez até sustendo a respiração; tentas que os nossos corpos não se toquem; ou melhor: fazes um esforço consciente para não me tocares. E eu mantenho-me imóvel e rígida, certa de que sabes que estou acordada. Vou esperando, sabendo que nada acontecerá; mas sou incapaz de interromper o silêncio e pedir-te: fode-me, que preciso de acalmar o corpo, adormecer o espírito. Quero fazê-lo mas sei que não conseguirei; e a contradição (há poucos minutos parecia quase disposta à degradação de pedir) destroça-me: porque não a compreendo; não me compreendo.
Por isso, deixo-me estar quieta e infeliz, a tristeza a corroer-me devagarinho; sinto a decepção invadir-me, logo acompanhada pela indignação, pela revolta; pondero se devo confrontar-te, iniciar uma discussão, disfarçar o choro com gritos. Claro que não me movo, que não reajo: limito-me a aguardar que o silêncio da noite me embale, me adormeça.

3.
Depois, subitamente, tomo consciência do teu ressonar; e sinto-me ainda mais só e desamparada, mais triste; como se percebesse finalmente que nunca estive verdadeiramente acompanhada. E o sentimento de solidão e desamparo é tão incisivo, tão dilacerante, que sinto uma desesperada necessidade de conforto, de toque; suponho que poderia suspender o meu ódio por ti e aproximar-me cuidadosamente, aconchegar o meu corpo no teu (como estás a dormir, talvez não te afastasses); sentir a tua pele, a tua pulsação, o teu calor: e enganar a solidão, iludi-la momentaneamente (até que o sono chegue); usar-te. Mas no último instante consigo resistir à tentação e prefiro ceder a uma outra forma de desespero, mais privada, mais segura; prefiro desdobrar-me em companhia (inventar companhia): e toco-me.
Toco-me, numa ingénua tentativa de me sentir menos só; os segundos passam, pérfidos e inconsequentes, acusadores, enquanto os meus toques evoluem inconscientemente (ou muito conscientemente?) para algo novo e diferente, para algo surpreendente e inesperado. Dou por mim a masturbar-me a poucos centímetros de ti, enquanto escuto o teu ressonar monótono e pacificador. E por mais que tente, não consigo sentir-me envergonhada ou culpada ou miserável. Pelo contrário: sinto-me confortável; avançando tranquilamente em direcção ao orgasmo, à auto-suficiência. À libertação, talvez.
(E repara: falo sempre em foder; nunca em fazer amor.)