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A estória da Patrícia

Por vezes, acontecem coisas curiosas. O Manuel (que não conheço) contactou-me a perguntar se aceitava escrever uma estória original para a sua amiga Patrícia (que também não conheço). Pretendia fazer-lhe uma surpresa e oferecer-lhe a estória num gesto de pura amizade. Aceitei, claro; é que não há nada tão precioso como a amizade. Não será dos meus melhores contos mas é, para mim, especial. E é da Patrícia, apenas; mas como ela autorizou, aqui está: "Dois adolescentes comem gelados na Santini, num domingo à tarde…" Ou, simplesmente, "A estória da Patrícia".   




Ele (muito entusiasmado, esbracejando um pouco, feliz; numa voz demasiado alta, que por vezes provoca olhares desaprovadores porque a felicidade alheia incomoda sempre um bocado, provoca inveja):
Havia a música, claro; e a música era feita de emoção pura, uma emoção que me atravessava todo o corpo e o dominava, o anestesiava, o inebriava; era como se houvesse uma qualquer força estranha e impalpável percorrendo-me os vasos sanguíneos, junto com os glóbulos vermelhos e essas coisas todas, uma força vital que provinha directamente da música e que algum órgão exótico e semidesconhecido, escondido num qualquer canto recôndito do corpo (tipo o pâncreas, estás a ver? Uma daquelas cenas que ninguém sabe para que servem), transformava em prazer e bem-estar, em euforia, em felicidade. Mas não só: havia também o movimento e a agitação, o toque em corpos desconhecidos, a intensidade de olhares, a partilha de sensações similares com toda aquela gente, ali ao lado, ali tão perto, gente estranha e, ainda assim, gente gémea; e os cheiros, os cheiros misturados de tanta gente, e o próprio cheiro do prazer, da alegria. E depois, por fim: a possibilidade de cantar; cantar em uníssono com a música, fazendo parte dela, integrando-a e dominando-a, duplicando a emoção e reproduzindo-a, mas também devolvendo-a ao mundo e aos outros, já pensaste nisso?, devolver a música depois de ela nos transformar um pouco, devolvê-la diferente e um pouquinho mais densa, mais rica, levando consigo algo de nós. É como se durante aqueles momentos fossemos aquilo que ouvimos, não sei se percebes o que quero dizer, a música somos nós e nós somos música. 

Ela (concentrada no gelado, num tom cansado e algo distante):
Yah, vejo que gostaste mesmo do concerto. 

Ele (segurando a colher cheia de gelado mas sem a aproximar da boca, permitindo que um pedaço caia na mesa):
Pois. Nem imaginas quanto. É uma coisa inexplicável, não é? Sei lá, como estar a saborear um gelado maravilhoso, tipo este que estamos a comer agora, e nada mais, mas mesmo nada mais, importasse no mundo; ou como mergulhar no mar e ser envolvido pela água, ser engolido e abraçado e protegido, tudo ao mesmo tempo; ou cair pelos ares e ser puxado por um pára-quedas, aquela sensação de vazio e euforia; ou olhar para um quadro daqueles mesmo extraordinários e…

Ela (olhando-o com alguma incredulidade, com um sorriso irónico):
Mas que conversa é essa? Tu nunca olhaste para nenhum quadro extraordinário, sabes lá o que estás a dizer… Já para não falar de pára-quedas e mergulhos e isso. Come lá o gelado, anda.

Ele (triste, quase irritado):
Não sejas assim, porra. Faz de conta, tá bem? Olha, até houve um instante em que pensei que aquela cena toda estava a ser tão magnífica e intensa que certamente iria ser o momento mais feliz da minha vida, de toda a minha vida; e quase fiquei triste, porque pode ser desesperador, não é?,  perceber, assim aos quinze anos de idade, que o momento mais feliz da vida já chegou, já passou, perceber que a felicidade máxima deixara de ser uma possibilidade para se transformar numa memória. Mas sabes o que aconteceu, mesmo no momento em que estava a pensar nisso? Ela pegou-me a mão, foi o que aconteceu; sabes, a rapariga com quem fui, acho que nem a conheces: pegou-me a mão. E cum caraças, no meio daquela intensidade toda, a música e a gente e isso, vai ela e pega-me na mão. Agarrou nela, pela primeira desde sempre, e apertou com suavidade, acomodou-a, como se a estivesse a proteger, como se fosse algo precioso. E então tive a certeza que aquele fora – estava a ser – mesmo o momento mais feliz da minha vida e jamais seria superado; mas iria ser repetido, igualado, duplicado, reproduzido tantas vezes, mas mesmo tantas, que até pensei como era algo injusto que a minha vida pudesse ser tão magnífica.

Ela (terminando o gelado, pegando num guardanapo):
Eh pá, fui a muitos concertos, sei como é. Já percebi, ok? Foste ao teu primeiro concerto e gostaste da experiência, foi uma coisa do caraças; muito bem, fico feliz. Mas não precisas de parecer tolinho. Até parece que tens doze anos, ou assim.

Ele (tom exagerado e efusivo):
Mas é que foi mesmo, mesmo mágico. Sei lá. Até acho que foi quase tão bom como fazer sexo e assim, quase tão intenso e…

Ela (impaciente):
Olha lá, pensas que eu não sei que ainda és virgem? Chiça. Acaba lá o gelado, para irmos embora. 

(Ele olha-a com uma tristeza indisfarçável no rosto, quase com desolação, sentindo-se confuso; pousa a colherzinha, parece um pouco perdido entre a confusão de risos e vozes. Então, ela abana a cabeça e sorri para si própria; depois, levanta-se, contorna a mesa e abraça-o. Ele deixa-se envolver, em silêncio, sentindo-se de imediato serenado, tranquilo, talvez feliz; quase fecha os olhos, sentindo o contacto do corpo dela, sentindo a amizade e o afecto e o amor através do toque, da proximidade; e nesse instante imagina como teria sido especial se tivesse sido ela, e não a outra, a pegar-lhe a mão no concerto, a estar lá com ele; talvez o mundo tivesse parado, pensa ele. E percebe, de repente e com surpresa, que talvez se possa sempre ser mais feliz, ainda mais, do que já se foi, do que se está a ser. Fica a pensar nisso, durante um bom bocado. Mas só muito depois de se terem separado é que repara que tinha passado todo o tempo a falar de si, que não quisera saber dela, não perguntara, não escutara; repara, demasiado tarde, como ela parecera um pouco ausente e abstraída, talvez até triste; e não fizera nada por ela, portara-se como um imbecil ou, pior, como um garoto de doze anos, egoísta e indiferente, insensível, idiota. Pensa: foda-se, assim ainda vou morrer virgem. E, contrariado, pega no telemóvel, com esperança que ela atenda.)