Statcounter

Rascunhos de Verão

Fio
«Imagina que és um papagaio de papel a voar entre as nuvens, no meio do céu azul. Sabes aquele fio fininho e quase invisível que te prende à terra e te guia, que te dá sentido e orientação? É como a memória. Se não fosse esse fio, andavas simplesmente às voltas, perdido no vento.» Diz o avô ao neto.

Estória de amor I
Era uma vez uma sereia que se apaixonou por um marinheiro. Seguiu o seu barco durante anos e anos e anos, à espera que ele a olhasse. E um dia, ele olhou-a. Nervosa, ela disse: «O meu sonho é plantar um jardim contigo. E vê-lo crescer.» O marinheiro sorriu e respondeu: «Adoro sonhos impossíveis.» 

Estória de amor II
O marinheiro construiu uma cabana numa falésia com vista para o mar; nas traseiras, havia uma pequena lagoa, onde a sereia nadava e o marinheiro passeava de canoa. Ao fim da tarde, cuidavam juntos do jardim que todos os dias crescia mais um pouco. E diziam um ao outro: «Não há sonhos impossíveis.»

Uma azeitona
O menino encontra uma azeitona no chão. Pega-a delicadamente e, com um sorriso no olhar, aproxima-se do avô, estende-lhe a mão. «Que se passa? Que tens aí?», pergunta o avô. O menino estende a mão com a azeitona e sorri ainda mais: «Trouxe-te uma árvore.»

Raízes no bolso
O avô apanha um punhado de terra e coloca-a no bolso das calças. Depois, apanha um novo punhado de terra e coloca-o no bolso das calças do neto. Responde ao seu olhar interrogador: «Faz de conta que somos árvores. E precisamos alimentar as nossas raízes, não é?»

Iupi?
Pegam num avião de papel, colocam um caracol lá em cima, põem-lhe uma carica a fazer de capacete, prendem tudo com fita-cola. E atiram o avião com força. Imaginam que o caracol voador diz “iupi”. Mas talvez tenham percebido mal. E felizmente não se aleijou. «A carica foi uma boa ideia.»

Árvore de giz
O menino decide que não é bonito guardar a sua colecção de folhas de árvore presa numa caixa. Então, desenha o tronco de uma árvore com giz, numa parede do seu quarto; depois cola as vinte e três folhas da colecção nos ramos desenhados. Quando vê a árvore de giz, a mãe ralha muito; mas por dentro, está a sorrir.

Diálogo
Há pessoas que gostam de estar em varandas e ver as nuvens passarem. Há nuvens que gostam de ver pessoas nas varandas a olharem para si. Não fosse a timidez e talvez até pudessem conversar entre si, estas pessoas e estas nuvens. Diriam: «Boa tarde». Diriam: «Está fresco, hoje». Diriam: «Até breve».

Já está
«Vou levar a lua para casa», diz o menino. A mãe encolhe os ombros e sorri. «E como vais fazer isso?», pergunta a mãe. O menino sorri o seu sorriso de menino, que é igualzinho ao da mãe; sorrisos gémeos. Depois, olha directamente para a lua como se a estivesse a ver pela primeira vez, fecha os olhos com força, respira fundo (ou seja: faz muito barulho a respirar) e diz: «Pronto, já está. Guardei-a.»

(Crónica para o
Jornal de Leiria.)