Quando chega a casa ao fim do dia, gosta de se sentar na varanda; bebe um café enquanto olha o horizonte vasto, atento às subtilezas e novidades. Há sempre pássaros que voam como se fossem crianças ou que - invisíveis - se dedicam às suas milenares cantorias. Quase todos os dias pensa: gostava de ser pássaro. O banco onde se senta daria para três pessoas, mas apenas o seu lugar está vago. No espaço que resta estão seis plantas; gosta de se sentar ao seu lado e imaginar que contemplam o mesmo horizonte, com o mesmo entusiasmo. Juntos. Pergunta a si próprio o que verão as plantas durante o dia; será que conversam entre si? Sentirão saudades suas? Um dia, quando chegou, perguntou-lhes numa voz baixinha: então, novidades? Não houve resposta. Sentiu-se envergonhado, mas depois pensou que talvez não tivessem ouvido por ter falado tão baixo. Voltaria a perguntar, noutro dia; mas num tom mais alto. Talvez fossem um pouco surdas.