Ideias registadas em cadernos e que ainda não serviram para nada (XLIII)

Domingo de manhã. Tenho onze anos e olho para a minha bicicleta quase nova; arranjei cinco autocolantes e estudo cuidadosamente a melhor localização para os colar. Não tenho pressa, o domingo costuma ser um dia muito comprido. Antes do lanche, dou uma volta de bicicleta; não me cruzo com ninguém que repare nos autocolantes novos. Não faz mal: depois de cada domingo sempre vem uma segunda-feira. Chego à escola atrasado porque começou a chover. Dois autocolantes perderam-se pelo caminho, descolando-se com a humidade. Lembro-me disto quarenta anos depois. Hoje, agora: a bicicleta, os autocolantes, a chuva. Tudo mudou, excepto a inevitabilidade de após um domingo vir sempre uma segunda-feira. Gostaria que alguém me tivesse avisado que as memórias são como autocolantes. Teria sido mais cuidadoso.