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Todos os dias vai à livraria ler a nova estória. Por vezes, fica a pensar no que leu durante o resto do dia; outras vezes, sente que foi tempo perdido. Explica a uma amiga que gosta da efemeridade daquela forma de leitura: «Cada estória apenas  vive durante um dia, como as libelinhas, e depois desaparece para sempre; por muito que queiras, não podes regressar ao que leste. São textos sem existência física, apenas permanecem no espírito de quem os leu.» A amiga encolhe os ombros e pergunta: «Se tirares foto aos textos, podes guardá-los no telemóvel e lê-los quantas vezes quiseres.» E ri. 

Todos os dias vai à livraria ler a nova estória. Por vezes, fica a pensar no que leu durante o resto do dia; outras vezes, sente que foi tempo perdido. Mas começa a sentir um certo embaraço, porque nunca encontra mais ninguém a ler a estória. Será uma ideia tão tonta que não interessa a mais ninguém? Continua a regressar todos os dias, mas lê à pressa, como se temesse ser surpreendida a fazê-lo. Até que um dia tem uma ideia inesperada: será que as estórias não interessam a mais ninguém porque são escritas apenas para si? Fica a pensar nisso. Aquele apenas provoca-lhe um sorriso. Continua a regressar todos os dias; continua a ler à pressa, para que ninguém a surpreenda a sorrir. 

Todos os dias vai à livraria ler a nova estória. Por vezes, fica a pensar no que leu durante o resto do dia; outras vezes, sente que foi tempo perdido. Começa a ser essa a sensação mais frequente: a de tempo perdido. Talvez deixe de vir todos os dias. Talvez deixe de se interessar. Mas dá por si a regressar, como se fosse algo incontrolável (como uma paixão; ou um espirro). Porque a estória seguinte pode ser especialmente marcante e (quem sabe?) mudar a sua vida. Continua a regressar, à espera do incrível. Nunca o encontra, mas continua a regressar. 

Todos os dias vai à livraria ler a nova estória. Por vezes, fica a pensar no que leu durante o resto do dia; outras vezes, sente que foi tempo perdido. Mas há alturas em que se enerva com o que lê; sente-se confrontada, como se as estórias apontassem para direcções em que não quer olhar. Esse sentimento começa a torna-se mais frequente; mais incomodativo; mais angustiante. Até que desiste e decide não voltar à livraria. Na última visita diz a uma livreira, apontando para o local onde está a estória do dia: «Mais valia tirarem isso daí e substituírem por um espelho.» A livreira sorri e responde que já pensou o mesmo, apesar de ser mentira. 

Todos os dias vai à livraria ler a nova estória. Por vezes, fica a pensar no que leu durante o resto do dia; outras vezes, sente que foi tempo perdido. Há alturas em que, após a leitura, retira um caderno e faz algumas anotações breves. As livreiras reparam, uma até comenta com o escritor: «Deve gostar muitas das tuas estórias, por vezes tira notas.» Não lhe passa pela cabeça que aquilo que a leitora regista no caderno são discordâncias ortográficas e aquilo que considera incorrecções gramaticais. Erros.