# 75: Somos todos manequins

Agora que inicio nova colaboração com a fotógrafa Tina Azinheiro, recupero um pedaço do ebook que partilhámos em 2010 (disponível aqui). Uma estória cinzenta escrita a partir de uma foto extraordinária.


DEUS (admirado): Um manequim?

EU (sorrindo, sem tentar disfarçar a tristeza): Sim. Daqueles muito antigos, sem cabeça nem braços, sem elegância, sem dignidade.

DEUS (curioso): E que fizeste com ele?

EU (nostálgico): Coloquei-o ao fundo do quarto, junto da janela; como se fosse uma planta frágil que precisasse de luz e de brisa, da ilusão de liberdade.

DEUS (insistente): Mas para que querias um manequim no quarto?

EU (simultaneamente enfático e sonhador): Para me acordar.

DEUS (desconcertado): Não percebo.

EU (pensativo, um pouco hesitante): Sentia-me acessório e irrelevante, dispensável. (Pausa breve.) As pessoas passavam por mim como se eu fosse invisível, como se não existisse; ou existisse mas não tivesse qualquer substância, qualquer interesse; como se fosse apenas parte do cenário, uma peculiar e inexplicável agregação de átomos, sem objectivo nem utilidade.

DEUS (num murmúrio): Um manequim.

EU (distante e abstraído, entregue à recordação): Todos os dias, antes de adormecer, olhava o perfil do manequim recortado pela frágil escuridão vinda da rua e tentava sentir o que imaginava que todas as pessoas sentiam em relação a mim. (Pausa breve.) E logo depois, de manhã, quando acordava, lá estava ele, imutável e discreto, um pouco sombrio, irrelevante e deslocado.

DEUS (algo condescendente): Indiferente.

EU (ignorando-o): Olhava o manequim enquanto me vestia, lento e abstraído, e perguntava a mim próprio: que poderei fazer hoje para que os outros não me vejam como um manequim, parte do cenário? Ou melhor: para que me vejam, simplesmente? Que posso fazer para que a minha vida não seja estática e redundante, como a existência deste manequim?

(Permanecemos em silêncio, sentados na esplanada quase vazia. Do outro lado da rua, uma mulher de olhar indiferente e gestos cansados continua a despir metodicamente os manequins em exibição numa montra; as peças de roupa vão-se amontoando no chão, desordenadas e irrelevantes, enquanto a nudez artificial dos manequins é exposta.)

EU (abstraindo-me dos manequins e incapaz de desviar o olhar da funcionária da loja que os vai despindo): Foi numa dessas manhãs, olhando o manequim silencioso, que comecei a desconfiar que talvez todas as vidas fossem redundantes e estáticas. (Pausa breve.) Todas e não apenas a minha.

(Aguardo o seu comentário, que pressinto; que desejo: apetece-me ser confrontado. Discutir. Mas ele ignora-me.)

EU (subitamente incomodado; arrependido de ter cedido à volúpia da confissão; mas incapaz de me conter): Pressenti, também, que talvez apenas varie o grau de empenho de cada um em fingir que não é assim. Percebi que não interessa que a vida seja interessante ou não, basta que pareça interessante.

(Sorrio, tentando disfarçar o incómodo. Ele permanece em silêncio, pensativo. Ou será que nem está a ouvir-me?)

EU (num tom forçadamente aligeirado): Somos todos manequins, afinal. O que muda é a roupa que cada um usa; o disfarce. (Pausa breve.) Camadas e camadas de subterfúgio mas, lá no fundo, permanece apenas madeira descolorida e grosseira, quase, quase apodrecida.

(A funcionária da loja desapareceu, levando consigo toda a roupa; apenas os manequins permanecem na montra, extáticos e um pouco obscenos. Há pessoas a passar pelo passeio, apressadas e melancólicas, tristes; mas nenhuma delas olha os manequins.)

# 74: La Redoute

Estávamos a fazer sexo quando o telemóvel dela tocou. Não sei bem como aconteceu tal coisa mas a verdade é que estávamos no sofá da sala e não no quarto, logo depois do almoço, com o sol a entrar pela janela e um murmúrio de vozes vindo do apartamento do lado, as roupas amarrotadas e apenas meio despidas. Não sei se está a imaginar, doutor. Como já lhe contei, agora raramente fazemos sexo, e nunca por iniciativa dela, sempre são uns doze anos de casamento ou assim, por isso pode perceber o inesperado da situação: estava eu estendido no sofá a ver as notícias quando ela vem da cozinha e se senta ao meu lado, os corpos a tocarem-se ligeiramente, só mesmo um pedacinho; e pronto, foi quanto bastou, tal como acontecia antes, e quando digo antes, doutor, quero dizer há muito, muito tempo, bastava estarmos juntos, bastava os corpos tocarem-se momentaneamente, e o desejo brotava logo, violento e arrebatador, desculpe lá falar assim, até pareço um totó. Ficámos quietos e caladinhos durante uns momentos, os dois a pensarmos na mesma coisa, e, logo depois, ela beija-me; eu reajo, claro que reajo, não é doutor?, e ficamos entusiasmados, tudo a correr naturalmente, como sempre deveria correr, duas pessoas que se amam fazem amor a meio da tarde e pronto. Mas é então que toca o telemóvel; continuo a fazer o que estava a fazer, se é que me entende, mas ela, logo ao primeiro toque do telemóvel, imobiliza-se, como se tentasse perceber o que estava a acontecer, não sei como explicar de outra forma, tipo alguém que acorda de repente sem fazer ideia de onde está, sem fazer ideia que tinha adormecido; dois toques mais tarde, salta de cima de mim e marcha em direcção à cozinha, apressada e desengonçada. Não disse nada, não me olhou, não sorriu, não acenou ou assim, não demonstrou qualquer contrariedade por estar a ser interrompida, por interromper; aliás, doutor, de repente até parecia que eu nem estava ali, percebe o que quero dizer?; fico a vê-la afastar-se, compondo a saia, agindo como se apenas quinze segundos atrás estivesse simplesmente sentada no sofá a ver televisão ou a espreitar uma revista e não a foder com o marido, desculpe lá falar assim, doutor, mas era o que estávamos a fazer. Não imagina como me senti, ali abandonado, excitação e frustração a misturarem-se, confundindo-se e enervando-me; consegue imaginar?, eu estendido no sofá com as calças pelos tornozelos, a olhar desconsolado para o meu pénis ainda rígido e brilhante, e a tipa das notícias a falar sobre um festival da sardinha não sei onde, um festival da sardinha, não sei se está a ver. Uma sensação do diabo, doutor. Mas piora, porque logo depois ouço-a atender a merda do telemóvel e a coisa tornou-se verdadeiramente surreal; ouvi-a lá da cozinha a dizer… sabe o quê, doutor?, disse “Olá, estava mesmo a pensar em ti…”; e a rir, doutor, a rir, como se lhe tivessem respondido algo verdadeiramente divertido; ouvi-a acrescentar “Olha, ainda bem que ligaste…”, depois baixou o tom, não sei se de propósito ou se inconscientemente. E eu a perguntar-me com quem estaria ela a falar, ainda surpreendido com a agilidade com que ela mudara de situação e de estado de espírito, a perguntar-me se poderia estar realmente a pensar noutra pessoa qualquer enquanto se balanceava em cima de mim, se estaria realmente satisfeita por ter sido interrompida. Uma sensação do raio, doutor. Acho que me senti meio estupidificado, como se fosse aquela a primeira vez em que percebesse que não fazia a mais pequena ideia do que se passava na mente da mulher que julgava amar, que acreditava que me amava; e talvez tenha sido realmente a primeira vez, doutor, em que consciencializei, de forma objectiva e desapaixonada, que não faço ideia o que pensa ela quando está comigo, o que pensa ela de mim. É natural, isto? Acontece com toda a gente, doutor? Será que as pessoas apenas fingem que entendem os outros, apenas fingem conhecer os outros para que a vida em sociedade seja viável? Enfim, adiante. Ouvia-a tagarelar, agora num tom mais baixo e comedido, e imaginava-a a ajeitar as cuecas, completamente esquecida e desinteressada de mim, enquanto ia olhando para a televisão, incapaz de me decidir a vestir-me, ainda com esperança que ela regressasse com um sorriso apologético e um piscar de olho cúmplice (um piscar de olho, doutor; ela, que nunca me piscou o olho, nem uma única vez: por que raio haveria de o fazer agora?). Desejando simplesmente foder, desculpe lá outra vez, doutor, como se isso afinal pudesse significar alguma coisa ou salvar alguma coisa ou valer alguma coisa. E suponho que foi por essa altura que comecei a pensar em divórcio pela primeira vez; sei que isto parece um bocado pateta, já imaginou?, eu ali meio despido, flácido e ridículo e vulnerável, sentindo pena de mim, acho que foi isso que senti, mais do que revolta ou ódio ou decepção ou sei lá o quê, apenas uma grande pena de mim; e ao mesmo tempo, doutor, e esta foi a parte mais esquisita, senti também uma inesperada vontade de acabar com tudo aquilo, de seguir em frente, de mudar de capítulo, ou melhor, de capítulo não, de livro, doutor. Mudar de livro. Já lhe contei que estamos juntos desde a faculdade? Juntámos as bolsas e alugámos o nosso primeiro apartamento, onde passávamos as noites a planear o futuro e com pressa que o tempo passasse. Parece que foi noutra vida, não parece? Afinal, de quantas vidas é feita uma vida? Quantas vidas vivemos durante a nossa vida? Deixe lá, doutor, às vezes dá-me para devanear; voltando ao que interessa. O que aconteceu foi isto: ela continuava a tagarelar na cozinha e eu com aquela palavra, aquela ideia, a bailar-me na cabeça, algo em que nunca pensara antes, juro-lhe, doutor, nunca, algo que jamais julgara possível aplicar-se a mim. Divórcio, doutor. Uma palavra com um poder tremendo, que representa uma espécie de potencialidade libertadora ou algo do género, não acha? E eu que nunca tinha pensado nisso, nessa perspectiva, mesmo nunca, quando se pensa em divórcio, pensa-se sempre numa espécie de apocalipse ou assim. Pois pensei nessa tarde, enquanto voltava a arrumar o pénis no sítio dele; depois, levantei-me do sofá e olhei durante um momento para a televisão e, seguindo um impulso irresistível, saí para a rua. Foi o que fiz, doutor; abandonei-a. Puxei a porta sem nenhum cuidado especial, chamei o elevador e esperei que chegasse, evitei olhar-me ao espelho e decidi que não fazia mal que o meu corpo cheirasse ligeiramente a sexo, segui pelo passeio repleto de gente sem olhar para ninguém, entrei no carro, dei umas voltas sem destino, fui perguntando a mim próprio quanto tempo demoraria ela a telefonar-me e só quando já era noite percebi que ela não ligaria. E não me importei, doutor, percebi que não me importava nada; limitei-me a dar mais umas voltas e pronto. Fugira, certo que isso dificilmente significaria alguma coisa ou salvaria alguma coisa ou valeria alguma coisa; Nem sei se se pode dizer que fugi, limitei-me a mudar de sítio, para descobrir que essa simples mudança de cenário implicava mudanças inesperadas. Ok, fugi: e soube-me bem, doutor, soube-me tão bem. Foi espantoso perceber como o amor (ou melhor: aquilo que eu achara ser amor, e agora não faço ideia o que seria) se dissipou num momento, assim, com um estalar de dedos, deixou simplesmente de existir, transformou-se em nada; olhe, de certa forma, limitei-me a imitá-la: tal como ela perdera subitamente o interesse pelo sexo, naquela tarde, e me trocara por uma conversa telefónica, também eu perdi o interesse por ela, como por magia, troquei-a por não sei bem o quê. Por nada, talvez. Na verdade, esvaziei-me dela, por assim dizer; e caraças, doutor, soube-me tão bem sentir-me vazio, nem imagina. Olhe lá bem para mim, doutor; não se nota que estou diferente? Que estou oco? Acho que é esse o termo adequado, oco. Prontinho para ser enchido de novo, por assim dizer; e ainda é melhor do que nascer de novo ou assim. Mas só lhe queria perguntar uma coisa, doutor: onde se vai buscar uma vida nova, como se faz para se começar tudo de novo? É que esta está definitivamente gasta e preciso de outra. Não haverá algures uma espécie de pronto-a-vestir de vidas, um sítio onde uma pessoa possa ir buscar uma vida nova, percebe?, como se vai a uma loja buscar um casaco ou uma camisa ou umas cuecas? Ou, melhor ainda, um catálogo, sim, é isso, um catálogo de possibilidades, conhece algo do género? Tipo La Redoute, uma pessoa escolhe o que quer e manda vir e pronto, é só começar a usar. É só começar a usar, doutor. Diga-me lá a verdade: há ou não por aí uma La Redoute de vidas e tal? E onde é que me inscrevo para a receber? Onde, doutor?

(Comentários escritos pelo psiquiatra no seu caderninho, durante a consulta:
“Primeiro comentário: tenho que descobrir a que festival da sardinha se refere o homem, pode ser que ainda esteja a decorrer e possa lá dar um salto. Segundo comentário: Oh pá, vai às putas que isso passa logo.”)

Ebook # 05: Consultório



O ebook “Consultório”, que reúne seis contos originais e seis pinturas de Joana Lucas, está finalmente disponível. É só seguir o link.

# 73: Eu e a minha namorada

Eis mais uma estória da série de contos escritos a partir da pintura de Joana Lucas (desta vez, o conto escrito a partir do quadro “Eu e a minha namorada”). Dentro de dias, estará disponível um ebook gratuito com as seis estórias e os respectivos quadros inspiradores.


Hoje queria falar-lhe de um vizinho lá do prédio; pode ser, doutor? Deixe-me contar a história, que depois já percebe onde quero chegar. Está bem? É uma pessoa normalíssima, este vizinho; diz boa tarde ou boa noite conforme a hora, como todos os outros, quase sempre sem olhar para a pessoa a quem se está a dirigir, mas isso também é normal; sossegado e silencioso, muito vagaroso, sempre muito vagaroso, como se não tivesse pressa de nada, como se nunca fosse esperado por ninguém, algures; o que é um pouco estranho, num homem assim novo, mas enfim, até sabe bem uma pessoa cruzar-se com alguém que não age permanentemente como se o mundo estivesse para acabar, alguém que parece dizer-nos, assim com um sorriso e tal, eh pá, tem lá calma que ainda há morte que chegue para todos. Sempre sozinho, o que também não é lá muito normal, mas paciência. Lá anda ele metido na sua vida, que não deve ser muito diferente da vida dos outros todos, entra no elevador e sai do elevador, abre as portas quando há uma senhora por perto, queixa-se da merda que os cães de alguns vizinhos deixam plantada nos passeios do condomínio, enfim, distrai-se com a vida, que é o melhor que temos a fazer; e isto é o que vemos, porque do resto da vida do homem nada sabemos, como é óbvio. Até aqui, tudo normal. Certo? O que tem piada, doutor, é o saco que ele usa. Não sei se está a ver, aqueles sacos que agora as pessoas usam para tudo, em substituição dos velhinhos sacos de plástico, para transportar as compras do supermercado e assim. Ele anda sempre com o mesmo, não falha. E nem é um saco que dê muito nas vistas, reproduz o rosto de uma mulher e nada mais, uma mulher normal, percebe?, e não uma actriz ou assim, apenas o grande plano do rosto de uma mulher normal, igual às mulheres que todos conhecemos, e pronto, é apenas isso. Mas que tem então o saco de especial?, pergunta o doutor. Bom, o que acontece é que o homem usa o diabo do saco desde que veio viver para o prédio, portanto para aí há uns dois anos; sempre o mesmo, nunca ninguém lhe viu outra coisa nas mãos; mas há mais: é que o saco está sempre impecável, como se nunca tivesse sido usado; até parece que ele tem lá um stock infindável de sacos iguais em casa e vai renovando. Admita lá, doutor, é uma coisa uma bocado esquisita, não? Quero dizer, não daquele esquisito assustador e perigoso mas do esquisito engraçado. E sabe como é, as pessoas não têm nada melhor para fazer do que comentar a vida alheia, é sempre melhor rir dos outros do que lamentarmo-nos de nós próprios; resumindo: a malta topou aquilo dos sacos e começou a falar, tornou-se uma espécie de pretexto para especulações variadas e geralmente maldosas; mas coisas inofensivas, claro. E é isto que se tem passado nos últimos dois anos. Até que, esta semana, o mistério se resolve. Ou melhor: não se resolveu, na verdade até complicou um bocado, mas lá se deu um passo em frente, e por isso é que estou aqui a contar-lhe a história. Descobrimos o significado dos sacos, doutor. E garanto-lhe que vai achar piada a isto. Então é assim: a foto que ele pôs nos sacos é o retrato da namorada. Parece que, certo dia, a mulher desapareceu, sem despedidas nem explicações; evaporou-se, doutor. Não se sabe se o abandonou, se foi raptada, se morreu algures, se foi levada por extraterrestres. Desapareceu e o homem nunca mais foi o mesmo, ia dando cabo da vida mas lá acabou por se recompor, à força dos remédios que o doutor bem conhece; mudou de emprego e de cidade, foi então que lá apareceu no prédio. Sempre com os sacos da mulher atrás, como se aquilo fosse um pedido de ajuda ambulante, um pedido de ajuda não muito ostensivo mas, ainda assim, um pedido de ajuda. Tipo anúncio de pessoa desaparecida, percebe?, como os americanos põem fotos de meninos desaparecidos nas caixas de cereais e nos pacotes de leite, não tanto para os encontrarem mas, isto é o que eu penso, mais para arruinar os pequenos-almoços das outras pessoas todas, do género já que eu estou miserável, tu também não hás-de estar feliz, olha lá para o pacote e vê o que te pode acontecer. Ou então é uma despedida ou uma forma de mostrar ao mundo que foi feliz com aquela mulher ou um estratagema para ela perceber, caso o veja na rua, que ele não a esqueceu. Sabe-se lá o que vai pela cabeça do homem; porque, motivações, não deu nenhuma; limitou-se a clarificar o significado do saco mas não avançou justificações, confessou apenas que era a namorada que estava nos sacos e acrescentou alguns dos pormenores que acabei de lhe contar. Está a ver, doutor? Que lhe parece uma coisa destas? Parece coisa de filme. Bom, a verdade é que estou aqui a falar disto com jovialidade e tal mas aquilo mexeu um bocado comigo, tirou-me uns minutos de sono. E, doutor, a verdade completa é que tenho andado a pensar na história do homem, a pensar nele e na sua namorada de plástico. A extrapolar, por assim dizer. É que, e veja lá se me percebe, comecei a pensar que ele talvez quisesse andar com o saco para se sentir acompanhado. Acompanhado pela namorada, para não desfilar pela rua sozinho, para sentir de alguma forma a sua presença, a sua companhia; para andar de mão dada com ela, pelo menos metaforicamente. Isto parece-lhe muito estapafúrdio, doutor? Talvez seja, mas se todos pensássemos apenas coisas inteligentes, estava o mundo cheio de Einsteins, ou não era? Sabe o que mais pensei? Eu digo-lhe. Pensei assim: se calhar, o homem não é assim tão diferente de todos os outros. Ele vive com uma fotografia emplastrada num saco de plástico; mas, e os outros? Nós? Por vezes, vivemos com a memória de alguém que amámos, com o fantasma da pessoa que amámos. Ou não é verdade? Quantos casamentos não subsistem apenas à custa da recordação de momentos passados de felicidade absoluta, e da ingénua crença na possibilidade de repetição dessas recordações? Como já adivinhou, estou a referir-me ao meu caso pessoal. Ali estava ao lado da minha mulher, ouvindo-a ressonar muito ligeiramente, encolhidinha no seu canto da cama para não haver o risco dos nossos corpos se tocarem, tão misteriosa para mim com uma das luas de Júpiter, é esse que tem as luas, não é?, e ia pensando assim: há relações em que as pessoas apenas se mantêm porque tem que ser, porque um dos elementos agarra-se ao outro e não larga, um dos elementos arrasta o outro para o casamento, ou, de certa forma, arrasta o casamento às costas, tal e qual o meu vizinho arrasta o seu saco e uma relação que já não o é. Foi o que pensei, a noite passada, enquanto ouvia a minha mulher respirar alto, é deselegante afirmar que uma mulher ressona, e a pensar qual dos dois arrasta mais o casamento às costas, qual dos dois é o Júpiter que atrai a lua e não a deixa partir pelo espaço fora em busca de melhor órbita, livre. E depois, lá adormeci; tive um pesadelo do caraças, acordei tarde, atrasei-me; e de manhã, lá desço no elevador com o vizinho mais o seu saco, há coincidências que até arrepiam, e eu a pensar porra, que isto só pode ser um sinal. Será um sinal, doutor? Dê-me lá a sua opinião.

(Comentário escrito pelo psiquiatra no seu caderninho, no final da consulta:
Talvez o apego do homem ao seu saco represente, afinal, uma forma simultaneamente subliminar mas incisiva de desprezo, uma forma cruel de anunciar ao mundo a mensagem de ódio e despeito que dirige à ex-companheira, algo do género
antes servias para cozinhar e foder, agora serves para transportar arroz e papel higiénico. Uma forma algo ingénua, pouco sincera, de publicitar que está só e feliz com isso?)

# 72: Princesas

No início deste ano, desafiei-me a escrever alguns contos a partir dos maravilhosos quadros de Joana Lucas. Estão finalmente concluídos e, em breve, estarão disponíveis num ebook. Por enquanto, fica a estória “Princesas” – escrita a partir do quadro com o mesmo título – e um profundo agradecimento à Joana.


Oh doutor, há quanto tempo é que eu ando a caminhar para aqui? Mais de um ano, não é?, bem mais. No outro dia, dei por mim a pensar: mas que raio ainda terei eu para lhe dizer? E não me lembrei de nada, a verdade é que não me lembrei de nada novo; se calhar, devia comprar um daqueles caderninhos pretos que toda a gente usa, assim como esses que o doutor aí tem, e, ao longo da semana, ir apontado as coisas de que poderia falar quando aqui chegasse. Tem clientes que fazem isso, não tem? Desculpe lá, estou a brincar consigo. Mas agora a sério: haverá alguma coisa que não saiba de mim, doutor? Por esta altura, deve saber mais de mim do que eu própria. Já ouviu falar daquelas pessoas que têm uma vida tão monótona que quando chegam ao sofá do psiquiatra, põem-se a inventar, vão fantasiando o que calha, a ver se o homem não se enfada demasiado? Porque o que querem é falar, que alguém as escute; é para isso que pagam, para serem ouvidas. Bom, doutor, eu nunca precisei de inventar. Contei-lhe tudo. Estou farta de lhe falar do meu casamento, da prisão em que estou, e de como não consigo libertar-me, por mais que pareça simples e fácil, não consigo. Todas as semanas lhe falo disso, não é? Mais detalhe, menos detalhe, mas a história não tem evoluído muito, há coisas que estão destinadas a não mudarem muito. E também lhe falei do casamento dos meus pais, não foi?, falei-lhe abundantemente disso; de como discutiam, de como a minha mãe chorava e o meu pai gritava, de como bebiam e atiravam coisas, de como se olhavam com fúria e ódio, falei-lhe de tudo isso. Falei de como eu fugia, sempre que sentia uma discussão aproximar-se; de como me escondia nos armários, debaixo da cama, na varanda. Falei-lhe muito da varanda, não foi?, e até parecia uma daquelas histórias inventadas que as pessoas contam. Lembra-se, doutor? Pendurava-me na varanda e ficava à espera que a tempestade passasse, enquanto pensava em coisas de criança; pensava, por exemplo, que num daqueles dias talvez aparecesse por ali um príncipe que me levasse, salvando-me de tudo aquilo; um príncipe que andasse perdido pela cidade, em busca de meninas que pudesse salvar. Porque fantasiam tanto as crianças com príncipes, doutor? Falámos disso mas não chegámos a nenhuma conclusão, desculpe lá que lhe diga mas nunca se chegam a muitas conclusões, aqui. E como não bastasse estar triste por causa das discussões dos meus pais, vinha aquela nova tristeza de esperar por um príncipe que nunca chegava. E se os príncipes apenas salvam princesas?, perguntava-me eu. Mas sentia-me uma princesa, apesar de não o ser; e, por isso, julgava-me no direito de ser salva por um príncipe. Criancices, doutor. Criancices. Contei-lhe tudo isto, como lhe contei que num momento mais desesperante e confuso da minha vida de adulta, cedi à tentação de repetir os comportamentos que tinha quando era miúda. Confessei-lhe como, certo dia, me pendurei na varanda e lá me deixei ficar, sentadinha e de pernas a abanar, calçada com os meus melhores sapatos de princesa que não é princesa a sério, à espera que viesse um príncipe que me salvasse daquele casamento miserável, que eu não conseguia salvar-me sozinha; que viesse um príncipe e matasse o dragão. Uma mulher de trinta e dois anos sentada na varanda à espera de príncipes. Tem piada, não tem? Já agora, uma curiosidade: por estes dias, neste nosso século de internets e carros que estacionam sozinhos, de que forma se deslocam os príncipes? Será que ainda andam a cavalo? Deixe lá, doutor, não ligue, como vê, hoje estou um pouco alterada. Deve ser do calor. O que importa é que lhe contei tudo isto, não tenho segredos para si, e, já que aqui estamos e ainda temos muito tempo, aproveito para lhe contar mais uma coisinha. Voltei a ir à varanda. É verdade, doutor, voltei. E lá estava eu, se é que consegue imaginar tal coisa; foi terça-feira, lembra-se como estava um dia magnífico? Pois foi o dia em que voltei a perder o juízo. Tinha uns sapatos novos, lindíssimos, que comprei num impulso, vítima de um capricho, e que ainda não usara, porque por estes dias não há na minha vida qualquer pretexto que justifique usar uns sapatos daqueles. Vermelhos, doutor, uns sapatos vermelhos. Pois calcei-os e segui para a varanda; esperava príncipes mas apenas passavam autocarros, repletos de velhinhos e de estudantes, deitando fumo; autocarros, que de certa forma são a antítese dos príncipes: previsíveis e regulares, monótonos. Foram passando e eu fui esperando. Como imagina, não esperava nada de especial, a partir de certa altura esperamos apenas por hábito, da mesma forma que respiramos ou sorrimos, apenas por hábito, sabemos que não vai chegar nada, sabemos que atingimos o plafond, e apesar disso insistimos em esperar. Fui esperando, portanto. E sabe o que aconteceu, doutor? Afinal, sempre tenho qualquer coisa nova para lhe contar, porque o que aconteceu foi algo inesperado. Gostava de lhe dizer que o que aconteceu foi cair-me um dos sapatos novos do pé e acertar na cabeça de um moço que na altura fosse a passar, e calhar o moço olhar e surpreender o meu olhar, e ficarmos para ali a olhar, o sapato no chão e um alto a crescer-lhe na cabeça, o tempo a passar, os autocarros também, e de repente, pimba, percebíamos apenas através do olhar que nos amávamos e que iríamos ser felizes para sempre, ou ainda por mais tempo. Gostava de lhe contar uma historieta destas, sabe porquê, doutor, porque gostava mesmo que me acontecesse uma historieta destas. Mas, infelizmente, o sapato não me caiu do pé, azar. O que realmente aconteceu foi menos extraordinário. Sabe o que foi, doutor? Eu conto, como lhe contei tudo o resto. De repente, percebi que não viria príncipe nenhum. Quer dizer, não percebi, que isso já eu tinha percebido há muito tempo. Não, o que aconteceu foi que aceitei que não vinha príncipe nenhum, que apenas continuariam a passar autocarros e nada mais; por muito bonitos que fossem os sapatos, doutor. Não viriam príncipes. E essa consciencialização súbita foi libertadora. Porque o que eu pensei foi isto: não virão príncipes e ainda bem porque eu não preciso de ser salva. Está a perceber, doutor, o alcance disto? Uma verdadeira revolução na minha vida. Um break-through dos valentes. Pela primeira vez na minha vida percebi que não preciso de ser salva por ninguém, que não preciso de príncipes nenhuns para nada; quero lá eu saber de príncipes, foi o que eu pensei, ainda pendurada na varanda. Percebi, assim de repente, como se tivesse sido atingida por um raio, que não existem por aí príncipes nem princesas, doutor; apenas gente que vai fazendo pela vida; e os outros. Desculpe lá o simplismo das minhas teorias mas é mesmo assim, não consigo explicar melhor. Princesas só as da televisão e já se sabe que essas acabam sempre mal; foi o que eu compreendi lá no poleiro da varanda. Levantei-me e regressei ao interior e… bem, doutor, sabe o que fiz? Tratei de pôr a minha vida em ordem, foi o que fiz. Comecei logo ali e ainda não parei. Mas isso agora não interessa, doutor, porque o que eu queria dizer-lhe é que sinto que não preciso mesmo de príncipes para nada. Nem de príncipes nem de psiquiatras, como já deve ter percebido, tenha paciência mas é mesmo assim, doutor. Tenho pena.

(Comentário escrito pelo psiquiatra no seu caderninho, no final da consulta:
Ora foda-se.)

Kellerman Remixed

Está em marcha o projecto “kellerman remixed”. Convidei uma série de amigos, com ou sem obra publicada, para reescreverem estórias minhas e as remixes começam a chegar (espantosas e surpreendentes). Entretanto, uma delas assumiu contornos inesperados: António Cova enviou uma música e não uma estória. Chama-se “Fodidos estamos” e poderá facilmente tornar-se um hino geracional. Eis então o single de apresentação do livro… Enjoy.

# 71: Enxotar a tristeza

ELE: No outro dia aconteceu-me uma coisa um bocado assustadora.
ELA: Sério? Conta.
ELE: Quero dizer, na verdade foi uma coisa sem jeito nenhum.
ELA: Mas assustadora.
ELE: Sim.
ELA: E queres falar disso.
ELE: Quero.
ELA: Ok. Avança, tenho uns minutos.
ELE: Então, foi assim. Estava lá no apartamento, na varanda, sentadinho na minha poltrona, a ouvir música e assim. Descansado da vida.
ELA: E depois?
ELE: Ia pensando numas merdas, nada de especial, daquelas coisas que passam pela cabeça e um gajo nem percebe de onde veio aquilo. Estava completamente distraído, sabes, apenas isso, e fui pensando e pensando e pensando.
ELA: Assustador, realmente. Tu quando pensas…
ELE: Pois. E quanto mais pensava…
ELA: Sim? E quanto mais pensavas?
ELE: Bom, fui ficando triste.
ELA: Triste?
ELE: Triste.
ELA: Porquê?
ELE: Não sei. Não faço ideia. Não estava triste e de repente comecei a ficar. Pronto. Sei lá explicar. Fiquei triste. Triste e apreensivo e ansioso. Uma data de coisas.
ELA: Estou a ver.
ELE: Coisas depressivas. Percebes? Comecei a sentir-me… Deprimido.
ELA: Assim de repente? E que fizeste?
ELE: Nada, não fiz nada. Deixei-me estar, a ver onde é que aquilo me conduzia. À espera que passasse.
ELA: Tudo acaba por passar.
ELE: Pois. Mas, antes disso, houve a tal parte assustadora.
ELA: Que aconteceu?
ELE: Deu-me uma vontade danada de saltar da varanda.
ELA: Foda-se. Sério?
ELE: É.
ELA: Saltar cá para baixo? Saltar mesmo? É isso que queres dizer?
ELE: Saltar, saltar mesmo. Fugir. Desistir de tudo. Acabar com a tristeza, com a incerteza, com a falta de sentido. Sei lá.
ELA: Ena. Estás mesmo mal. Mesmo, mesmo mal.
ELE: Durante um instante, senti uma tentação tremenda, nem imaginas. Senti mesmo, durante uma fracção de segundo. Não sei explicar, foi mesmo estranho. Não me mexi, estava esparramado na poltrona, a música continuava a entrar-me pelos ouvidos, os olhos continuavam a deslizar pelo azul do céu… mas o espírito, ou sei lá o quê, algo dentro de mim, estava a afastar-se, e a tentar que o corpo o seguisse. A puxar por mim…
ELA: Estás a falar a sério? Sentiste-te mesmo tentado? Não acredito. Foda-se, olha que nunca te ouvi falar assim. O espírito a afastar-se, e não sei quê, parece conversa de tolos, foda-se. Foda-se, mesmo, que estás a assustar-me.
ELE: Não vale a pena assustares-te. Passou, como disseste tudo acaba por passar. Senti uma tentação, admito que senti, não sei porquê, não sei de onde veio, foi uma coisa fugaz e instantânea, fulgurante, mas senti. E agora, que estou a falar disso, parece tudo um bocado palerma, mas não altura foi… não sei. Intenso.
ELA: Mas, e depois?
ELE: Controlei-me, assumi o controlo de mim próprio, por assim dizer; obriguei-me a assumir o controlo, a afastar o devaneio. Mas aquele instante, aquele momento, foi efectivamente tentador. E isso é que foi assustador, o mais assustador.
ELA: Temes que volte a acontecer, é isso? E que seja ainda mais tentador.
ELE: Mais ou menos.
ELA: Estou a ver. Estás mesmo fodido, desculpa que te diga.
ELE: E que achas disto tudo?
ELA: Sei lá, não acho nada… O que queres que ache? O que é que tu achas?
ELE: Acho que… Não sei. Julgo que, depois disto, percebi que não gosto de estar sozinho, que não me apetece estar sozinho em casa… Não te rias, é a verdade.
ELA: Isso é uma conclusão um bocado extrema, não?
ELE: É o que sinto. Sei lá se é extrema.
ELA: E, na verdade, não estás verdadeiramente sozinho.
ELE: Desculpa?
ELA: Não estás sozinho. Tens o tal espírito a acompanhar-te, lembras-te? O tal que te quer puxar.
ELE: Não gozes.
ELA: Ok, não gozo. Mas que pensas fazer? Já procuraste um psiquiatra, para arranjares uns comprimidos?
ELE: Não.
ELA: E então? Estás à espera de quê?
ELE: Bom, na verdade era mesmo sobre isso que queria falar contigo.
ELA: Explica-te lá, não estou a ver onde queres chegar.
ELE: Tenho andado a pensar que não devia estar sozinho.
ELA: Não devias?
ELE: Não quero.
ELA: Ok.
ELE: E… Bom. Há quanto tempo andamos?
ELA: Quase um ano. Mas que tem isso a propósito do espírito saltador?
ELE: Um ano. É muito tempo, não é? Se calhar, podíamos… não sei. Estás a ver?
ELA: Desculpa lá. Estás a acabar comigo, é isso?
ELE: Não. Claro que não. Porra, não. É o contrário.
ELA: O contrário?
ELE: Sim, o contrário.
ELA: O contrário. Estás a perguntar-me se quero viver contigo?
ELE: Ou casar e assim.
ELA: Desculpa?
ELE: Casar.
ELA: E assim.
ELE: Pois.
ELA: Estás a pedir-me em casamento? É isso? Tu estás a pedir-me em casamento?
ELE: Acho que sim. Acho que estou.
ELA: Ok, ok, ok. Já percebi. Estou a perceber, já estou a perceber onde queres chegar. Desculpa a reacção. Ou melhor: a falta de reacção. Nunca ninguém me pediu em casamento, sabes isso; não sei bem como é que se faz. Não estava à espera, não estava mesmo.
ELE: Tudo bem.
ELA: Apanhaste-me de surpresa. Completamente.
ELE: E então?
ELA: Não sei o que te dizer.
ELE: Não sabes.
ELA: Não sei.
ELE: Alguma coisa deverás querer dizer.
ELA: Suponho que sim.
ELE: Então…
ELA: Então… E foi a cena da varanda que desencadeou isto tudo. Certo? O susto e isso. Foi o que te deu a ideia de casar?
ELE: Pelo menos, fez-me pensar um bocado.
ELA: Fez-te pensar.
ELE: Sim, é o que tenho feito nestes dias. Pensar.
ELA: E assustaste-te, pensaste tanto que te assustaste. Percebeste que não queres estar sozinho. Que a presença de alguém lá por casa talvez enxote a tristeza e tal. Que precisas de companhia na varanda.
ELE: Porque estás a falar nesse tom?
ELA: Olha, desculpa o tom, já te disse que isto de pedidos de casamento é novo para mim. Mas se estás realmente com medo que o espírito ou lá o que é te faça saltar da varanda abaixo, não seria mais fácil desceres do quinto andar e comprares um apartamento no rés-do-chão?
ELE: Desculpa?
ELA: Pensa nisso que eu tenho que ir, já estou atrasada, mesmo atrasada. Mas a sério, pensa nisso: um rés-do-chão; ok? Resolvia-te os problemas todos, de certezinha. Não achas? Se calhar, pensaste tanto, que te desorientaste; ou então, tens estado a pensar na direcção errada, por assim dizer. Bom. Tenho mesmo que ir. Xau, depois diz qualquer coisa.

Pausa

É verdade que a Gaveta tem estado quase ao abandono; o que não significa que eu esteja completamente parado. Quem quiser ir acompanhando as (poucas) novidades que vão surgindo, pode procurar por estes lados, onde será bem-vindo.
Quanto a estórias, por aqui continuarão a aparecer. Mais dia, menos dia...

# 70: Cento e catorze mortos

Quando ela o viu entrar no bar, reconheceu-o imediatamente; teriam passado uns oito anos, talvez nove – não: oito; definitivamente –, desde o ano em que lhe dera aulas de língua portuguesa durante alguns meses, como professora de substituição, e nunca mais o vira, nunca mais pensara nele; ainda assim, reconheceu-o inequivocamente mal o viu, teve a certeza de que era um antigo aluno, conseguiu visualizá-lo de imediato (um rapaz envergonhado que nunca falava, nunca sorria, que se sentava a uma mesa recuada e olhava muito pela janela). Foi saboreando a bebida enquanto o espreitava, tentando calcular a sua idade – vinte e sete ou vinte e oito, algures por aí – e apreciando a sua desenvoltura e a forma confiante como circulava pelo bar, estudando o seu corpo, o seu sorriso, as suas mãos; (recordou, de súbito, que fora nesse ano lectivo que casara mas logo se concentrou em afastar essa memória, em focalizar-se no presente). Tentou perceber se o rapaz aguardava alguém, ou se era esperado por alguém, enquanto tentava lembrar o seu nome, enquanto se perguntava se ele a recordaria, se a olharia com interesse ou com agastamento, se gostaria de a reencontrar; enquanto ponderava, especialmente, se seria demasiado estranho e degenerado e desesperado ir para a cama com um ex-aluno.
Quando terminou a bebida (olhou distraidamente em redor, tentando perceber se alguém lhe viria oferecer outra; mas ninguém reparara em si, ninguém iria gastar três euros e cinquenta cêntimos consigo), decidiu que quando recordasse o nome dele, o abordaria e logo se veria como correria a conversa, logo se veria se as suas necessidades momentâneas seriam compatíveis ou não; pensava, por isso, em nomes – António, Diogo, Carlos, Francisco, Duarte, João, Afonso, Miguel, Tiago; como são banais e indistinguíveis os nomes, pensava ela: como se o nome de alguém não fizesse, afinal, grande diferença, nenhuma diferença –, tentando associar qualquer um desses nomes àquele rosto sereno e belo, tão jovem. Sim, iria abordá-lo, esperando que aquela ténue ligação mantida num passado distante e quase esquecido fosse suficiente para sustentar e impulsionar uma relação, mesmo que fugaz, no presente.

– Estás bom, João?
– Desculpe, mas conheço-a?
– Será que estou assim tão diferente? Não vais dizer que estou velha, pois não?
– Oh senhora, vai-me desculpar mas…
– Bolas, João. Não me chames senhora, que me fazes sentir ainda mais velha do que realmente sou.
– Não queria ofendê-la mas não estou a ver de onde…
– Fui tua professora, há uns anitos. Língua portuguesa, décimo segundo ano; professora de substituição, estivemos juntos apenas um trimestre. Mas lembro-me muito bem de ti, João; lembro-me que não ouvias nada do que dizia, que passavas o tempo a olhar pela janela.
– Stora Patrícia?
– Que querido, afinal até te lembras do meu nome.
– Está diferente, stora. Mesmo diferente.
– Para melhor, espero.
– Claro, claro que sim. Para melhor.
– E gostas do que vês?
– Desculpe?
– Gostas do que vês?
– Acho que sim, stora, acho que gosto.
– A sério? Bom, se me ofereceres uma bebida, podes tratar-me por tu.
– Ok. Sabe, se usasse esse tipo de roupa nas aulas, de certeza que eu não teria olhado tanto pela janela; suponho que foi por isso que não a reconheci. A roupa muda tudo, altera as pessoas; disfarça-as um pouco. Mas bebe o quê, stora?

Beberam e riram durante um bocado, trocando recordações e insinuações, piadinhas, olhares. Ela percebeu como ele ficou um pouco perturbado quando consciencializou que a noite iria terminar em sexo, que era isso – apenas isso? – que ela desejava dele; talvez até se tenha sentido desconfortável ao compreender que estava a ser um pouco manipulado, que iria servir como mera distracção de uma quarentona solitária. Mas também percebeu que ele estava curioso, que estava interessado; e sentiu-se lisonjeada, sentiu-se leve e confortável, sentiu-se feliz. Mais que tudo: sentiu-se aliviada.
Foi ela que pagou a conta, foi ela que decidiu para onde iriam; ele submeteu-se à sua liderança sem protestos nem sugestões, como se ainda estivessem na sala de aula, como se ainda existisse uma hierarquia a uni-los. Durante a viagem, tentaram falar um pouco da matéria que ela lhe ensinara e de que ele não recordava absolutamente nada, falaram do que ele sentia quando olhava pela janela e do que ela sentia quando via os alunos olharem pela janela; ela falou do seu casamento fracassado e ele falou dos seus namoros fracassados – ela teve a sensação que ele estava a exagerar, que as suas relações não teriam sido assim tão fracassadas, e sentiu-se comovida com o esforço dele. Falaram um pouco de música e bares, de filmes, de sítios interessantes para passar férias; falaram do facto de estarem a fazer algo que habitualmente não faziam – engatar pessoas num bar, colocar a necessidade de sexo à frente de tudo – mas não se esforçaram em justificar os seus actos. Falaram do tempo. Falaram do estado do país e de política e da crise e dos problemas dos professores e do desemprego dos licenciados. Falaram do facto de haver dezasseis anos de diferença a separá-los – ele disse que ela estava muito bem para a idade que tinha, mesmo mesmo bem, e ela quase acreditou.
Por fim, chegaram ao bairro onde ela vivia desde o divórcio (deram uma voltas em busca de um lugar para estacionar; e ambos sentiram que se não aparecesse rapidamente um lugar, o desconforto cresceria até se tornar insuportável, talvez tivessem que abortar o projecto, esquecer aquela noite). Ela conduziu-o ao seu apartamento, depois de subirem sete andares de elevador no mais completo silêncio, afastados um do outro, como se fossem desconhecidos – na verdade, eram desconhecidos. Entraram e durante um instante não souberam o que fazer, como começar. Não conseguiram, sequer, olhar o outro, enfrentar o olhar do outro.
Então, ela disse uma coisa absolutamente parva: vamos lá ver se mereceres um vinte. Ele sorriu, embaraçado – apenas embaraçado e não intimidado; aproximou-se e tocou-a, pela primeira vez; tocou-a no peito, que por acaso era onde ela queria mesmo ser tocada – um dos sítios em que queria ser tocada, na verdade; afastou-lhe a roupa, que fora escolhida considerando o grau de facilidade com que poderia ser removida, e baixou a cabeça com naturalidade, passou a língua pelo mamilo; ela fechou os olhos, quase sorriu; ele movimentou a língua com perícia, ela gemeu um pouco (achou que ele deveria estar à espera de um gemido); e etc., pela noite fora.

Quando terminaram, sentiram-se confusos e desconfortáveis, prisioneiros da escuridão e do silêncio que os envolvia, dos seus próprios cheiros, do eco dos seus gemidos mais ou menos forçados; sentiram-se quase à beira do arrependimento; e por isso (para se manterem ocupados, para se distraírem), também porque não havia absolutamente mais nada que pudessem fazer, foderam de novo.
E enquanto o faziam, com empenho e voracidade, fustigando os corpos – como se tentassem expulsar deles a apatia e a indiferença, forçando-os a sentir qualquer coisa, a reagir –, pensavam no que aconteceria depois, no que fariam e diriam, na forma como se olhariam, ambos percebendo que aquela relação – que ainda não era propriamente uma relação; que, na verdade, nunca chegaria a ser uma relação – estava condenada; ambos recordaram relacionamentos anteriores (fracassos anteriores), em que se sentiam prisioneiros porque deixara de existir comunicação possível (não havia nada a dizer ou a escutar), relacionamentos tão estáticos que seria necessário um sismo para os fazer mover nalguma direcção, e perguntavam-se como fora possível deixarem-se arrastar para uma nova situação sem futuro.
Iam simplesmente fodendo, mentes absortas enquanto os corpos interagiam – pensado, talvez, como serão infelizes aquelas pessoas que juram ser incapazes de fazer sexo quando não existe amor e ternura e cumplicidade e tralará; como conseguirão? –, ignorando que afinal havia algo a uni-los, a aproximá-los: a incapacidade e inépcia em se relacionar com alguém (e se, simplesmente, conversassem sobre isso? Poderiam partir daí e seguir em frente, sem pressa).

– Obrigada, João.
– Porquê?
– Por teres vindo. Por teres ficado. A sério, João. Obrigada.
– Não digas isso. Sinto-me esquisito.
– A sério, nem imaginas como me tenho sentido só e desapreciada. Foi muito importante, isto. Não imaginas, mesmo.
(Nem ela própria conseguia perceber se estava a ser totalmente sincera, ou pelo menos um bocadinho sincera; talvez precisasse apenas de se sentir agradecida, bastando verbalizar esse sentimento – se o conseguia verbalizar, talvez existisse mesmo. Afinal, a partir do momento em que se diz algo, deixa de importar se efectivamente se sente o que se acabou de se expressar; não é? Se está dito, dito está, end of story.)
– Olha, já que estamos a falar e assim, queria confessar uma coisa.
– Confessar? Confessar o quê, João?
– A verdade é que não me chamo João. Desculpa.
– Não?
– Não.
– Não te chamas João?
– Não. Desculpa não ter dito antes.
– Tinha a certeza que te chamavas João. Quase a certeza.
– Não faz mal.
– Pois não. Acho que não faz mal.
(E como ela não lhe perguntou qual era afinal o seu nome, ele sentiu-se um pouco envergonhado e não foi capaz de dizer mais nada.)

Tinham dormido um pouco, ou fingido que dormiam; entretanto, amanhecera. Estavam na varanda, partilhando um cigarro (excesso de intimidade, talvez?), quando ela fizera uma pergunta inesperada (costumavas imaginar-me nua, imaginar como seria o meu corpo, quando te dava aulas?) a que ele respondera sem pensar, instintivamente (claro que sim); ela percebeu a mentira e sentiu-se magoada, ele percebeu que ela estava magoada e sentiu-se verdadeiramente arrependido de estar ali (afinal, pensou lugubremente, uma boa foda – sim, fora boa – não vale tudo). Depois disso, não conseguiram voltar a dialogar, limitando-se a dividir o cigarro (e que aconteceria, o que fariam, quando o cigarro terminasse?); compreendiam que precisavam de iniciar o processo de separação, que seria necessariamente diplomático e hipócrita, mas não sabiam como. (Ele queria simplesmente dizer: olha, foi bastante bom mas tenho que ir, ok?; ela gostaria de dizer: dou-te um dez e meio, está bem?)
Poderiam retomar um dos assuntos da noite anterior mas, na verdade, já tudo fora dito; poderiam, talvez, fazer planos para o pequeno-almoço ou até fantasiar sobre uma qualquer viagem que fariam em conjunto (planeá-la com fingido entusiasmo, na certeza de que jamais a realizariam), perspectivar um próximo encontro, algures; poderiam confessar o que tinham considerado mais surpreendente no desempenho sexual do outro, confessar o que ainda gostariam de fazer com o corpo do outro; poderiam falar sobre o tempo, do estado do país e de política e da crise e dos problemas dos professores e do desemprego dos licenciados; e dos falsos recibos verdes. Poderiam esforçar-se: mas não conseguiam, não quiseram. E, por isso, limitavam-se a partilhar o cigarro, a soprar o fumo, a olhar em frente, a respirar silenciosamente; à espera que acontecesse algo, qualquer coisa que os salvasse, uma distracção, um pretexto de conversa, uma fuga; qualquer coisa.

Primeiro, ouviram um barulho estranho que não conseguiram identificar e, logo depois, viram o avião; viram como estava demasiado próximo, demasiado baixo; viram que havia uma asa em chamas, um rasto de fumo preto; viram que o avião ia cair na cidade, mesmo em cima da cidade, ali pertinho, que estava tão baixo que jamais conseguiria chegar ao aeroporto; viram quando embateu no chão, mesmo perante eles, no meio da auto-estrada, numa tentativa fracassada de aterragem forçada; viram como se arrastou, como embateu numa ponte, como explodiu tal e qual como acontece nos filmes. Não viram mas imaginaram pessoas a gritar, pessoas a chorar, pessoas a desesperar, pessoas a explodir, pessoas a morrer.
E sentiram-se agradecidos (apesar de horrorizados) porque agora havia um pretexto para suspender o desconforto que sentiam, para se esquecerem de si próprios durante uns minutos; não precisariam de falar do pequeno-almoço, de fingir que iriam voltar a estar juntos. Não precisariam de se expor, de se vulnerabilizar, agora que havia algo externo a uni-los; bastaria, por isso, deslumbrarem-se um pouco com aquela desgraça e, quando chegasse o momento, voltar a acender um cigarro; entretanto, o tempo passaria e, naturalmente, chegaria o momento da separação (ela ficaria a arrumar e a arejar o apartamento, ligaria a máquina de lavar, talvez comesse um iogurte; ele teria de chamar um táxi, demoraria algum tempo a escapar à confusão do trânsito provocada pelo acidente mas lá acabaria por chegar a casa).
Mais um dia, mais uma foda, mais algumas horas gastas; e a vida a prosseguir.

– Achas que morreu muita gente?
– De certeza.
– Coitados. Tenho pena das famílias. E também das pessoas que agora vão ter que andar pela auto-estrada a apanhar os pedaços de corpos.
– O trânsito vai ficar fechado durante dias, vai ser uma confusão.
– E de certeza que não vão conseguir recolher tudo. Já imaginaste passares ali daqui uma semana ou duas e teres a sensação que acabaste de pisar um pedaço de osso ou de crânio?
– Se calhar, quando um avião se incendeia e explode, os corpos das pessoas também se incendeiam e explodem, transformando-se em cinzas.
– Achas que terá sido um atentado?
– Duvido.
– Já alguma vez pensaste como gostarias de morrer?
– Não, nem por isso. Vou para dentro, ver o que estão a dizer na televisão sobre o acidente. Ficas?

Cento e catorze mortos, ao que parece. Foi o que disseram na televisão.
Talvez até possam falar disso, agora que sabem mais detalhes sobre o acidente (cento e catorze, já imaginaste? Mesmo ali à nossa frente, a caírem mesmo perante nós, como se fosse uma chuvada ou assim), caso um dia se voltem a cruzar num qualquer bar.

(Num jornal qualquer foi publicada a lista dos cento e catorze nomes; mas nenhum deles reparou, nenhum deles se interessou – na verdade, alguém teria lido os cento e catorze nomes? –. Afinal, eram apenas nomes; e como são banais e indistinguíveis os nomes, pensariam eles, pensa toda a gente: como se o nome de alguém não fizesse, afinal, grande diferença, nenhuma diferença.)

Esboço # 90

Parazo de validade expirado.

Esboço # 89

Prazo de validade expirado.

# 69: Apologia das telenovelas

ELE: Juro que não percebo o fascínio dela pela merda das telenovelas. Com a tua mulher é igual?
EU: Nem por isso.
ELE: Pois com a minha é sagrado; chega àquela hora e o mundo desliga, deixa de girar. Nada mais interessa, nada conta; é impossível tirá-la de perto da televisão, fazê-la sair de casa. Não sei se estás a ver.
EU: Estou.
ELE: E aquilo mói, sabes? É uma coisa que se põe entre nós, um muro intransponível. Podíamos estar a fazer montes de coisas, sei lá… Podíamos ver outra treta qualquer na televisão, um filme ou assim… ou podíamos beber um copo e conversar sobre o futuro e sobre ter filhos e sobre os amigos que se foram divorciando, podíamos ir para a varanda fumar enquanto contávamos estrelas, podíamos foder um bocado, podíamos ir a um bar ou ao teatro ou visitar uns amigos, podíamos fazer qualquer coisa juntos. Mas não, enquanto aquela merda dura, não há hipótese, não se mexe dali. Parece-te normal?
EU: Acho que sim.
ELE: A sério?
EU: Já pensaste fazer-lhe companhia?
ELE: A ver a telenovela? Estás a gozar comigo ou quê?
EU: Os casais estão sempre a desafiarem-se silenciosamente, a envolverem-se em duelos patetas. Uma espécie de luta não assumida pela liderança, pela supremacia; ou pela subsistência de alguma individualidade.
ELE: Grande tanga.
EU: A vida matrimonial é uma grande tanga. Até aposto que sei como são as coisas, lá em casa. Tu a ver se ela se farta das telenovelas e te faz a vontade, ela a ver se tu lhe fazes companhia nem que seja só uma noite; e se ninguém cede, apesar de serem cedências muito simples, a coisa vai-se arrastado, há-de chegar o momento em que um ou outro acaba por se desinteressar do que o outro faz ou deixa de fazer.
ELE: Que raio de conversa, tiraste um curso de psicólogo por correspondência ou quê?
EU: Olha lá, qual é que te parece o motivo dela, para ver telenovelas?
ELE: Isso gostava eu de perceber. Aquilo parece tudo tão básico, tão estereotipado. E ela é uma mulher inteligente, sabes isso. Porra, é mais inteligente que eu, muito mais, e sensível e pragmática e culta e sei lá que mais. E isso é que me faz confusão, ela perder tempo com aquilo. Deixar-se manipular, permitir que brinquem com as suas emoções de uma forma despudorada, como se fosse uma criança. Faz-me uma confusão que não imaginas.
EU: Pensa nisto. Quando olhas para uma telenovela, vês uma coisa; mas outras pessoas podem olhar exactamente para o mesmo e ver algo muito diferente. Ver algo que nem te passa pela cabeça.
ELE: Não compliques, carago.
EU: A sério. Olha lá, que representa para ti uma telenovela?
ELE: Perda de tempo.
EU: Está bem, mas e que mais? Que pensas quando ouves o conceito “telenovela”?
ELE: Conceito? Eh pá, não me fodas com filosofias.
EU: Talvez penses em histórias básicas e elementares, estruturadas em conflitos primários e oposições simplistas, histórias previsíveis e arrastadas, manipuladoras. Falhei muito?
ELE: Nem por isso. Mas o mais irritante é a previsibilidade. Um gajo vê cinco minutos daquilo e adivinha de imediato como tudo vai acabar, passados nove meses. E sabes o que é mais ridículo? Mesmo que ela não conseguisse prever quem morre e quem casa, quem é pai e quem é irmão, não haveria problema; sabes porquê?
EU: Porquê?
ELE: Porque antes de ver, lê tudo na porcaria das revistas. Já sabe o que vai acontecer, porque é fácil adivinhar e porque leu, e mesmo assim vê aquilo tudo, com prazer e ansiedade, como se estivesse a assistir a algo verdadeiramente inesperado e importante.
EU: Estás a dar-me razão.
ELE: Estou?
EU: Estás a confirmar aquilo que te dizia. Ela olha para aquilo de maneira diferente, vê algo muito diferente do que tu vês.
ELE: Mas que vê ela, afinal?
EU: Já experimentaste perguntar-lhe?
ELE: Já.
EU: E que respondeu ela?
ELE: Encolheu os ombros.
EU: Mas insististe?
ELE: Nem por isso.
EU: Não insististe?
ELE: Já disse que não, porra.
EU: Eh pá, não percebes muito de mulheres, pois não?
ELE: Vais tu ensinar-me, se calhar.
EU: Talvez devesses ver um bocado de uma telenovela e aprender qualquer coisa sobre mulheres. O básico e assim.
ELE: Ou talvez vá pedir à tua ex-mulher que me ensine uma coisas.
EU: Já pensaste que as telenovelas são metáforas da vida?
ELE: E a dar-lhe. Metáforas e conceitos e filosofias e o catano. Isso é palavreado de quem não sabe o que dizer. Estar para aí a gastar palavras, mais nada.
EU: Foste tu que puxaste a conversa.
ELE: E já me arrependi.
EU: Sabes, esta não liga muito mas a minha primeira mulher gostava de telenovelas, era mais ou menos como a tua. Sabes porquê?
ELE: Não. Porquê?
EU: Precisamente por causa daquilo que te estava a dizer.
ELE: O quê?
EU: Aquilo das telenovelas serem metáforas da vida.
ELE: E como sabes que era por isso que ela via telenovelas?
EU: Perguntei-lhe.
ELE: E ela respondeu? Disse, naquela voz de fumadora dela: gosto de telenovelas porque são metáforas da vida.
EU: Mais ou menos.
ELE: Suponho que te explicou que porra quer isso dizer.
EU: Não. Não foi preciso.
ELE: Não foi preciso? Tão esperto que o meu amigo é, percebe logo tudo. Ou já tinhas tirado o curso por correspondência?
EU: As telenovelas são previsíveis e repetitivas, repletas de momentos desnecessários e supérfluos, de ilusões e equívocos, são entediantes, enganadoras, são lineares, são incoerentes, são deterministas e circulares, são… Bom, resumindo são muito parecidas com a vida, ou pelo menos com uma certa visão que muita gente tem da vida, são retratos condensados e estilizados da vida comum, da vida de todos nós. Aquelas personagens somos nós, estás a ver?, aquelas histórias são as nossas vidas.
ELE: Falas tanto e não dizes nada. Repara que estou a dizer isto com um sorriso. Mas estou a dizê-lo. E se não mudas de disco, vou repeti-lo.
EU: Acho que foi algo do género que a minha ex quis dizer com a história da metáfora. Que via telenovelas porque se identificava com elas… Ou melhor, porque se identificava nelas. Via-as para se confrontar com a sua própria vida, para redimensionar a sua própria telenovela privada, para projectar a sua vidinha num contexto mais amplo, mais abrangente, mais clarificador.
ELE: Hum hum.
EU: Ou talvez tivesse esperança de ser surpreendida pelas telenovelas que via, uma esperança secreta de que apesar da previsibilidade e repetição dos argumentos, apesar das revelações que lia nas revistas, acabasse por assistir a qualquer coisa inesperada, a um desenlace surpreendente ou um rumo imprevisto ou um acontecimento inexplicável. Porque se isso acontecesse, e lembra-te que na perspectiva dela as telenovelas são imitações da vida quotidiana, talvez houvesse esperança de algo semelhante ocorrer na sua vida, uma surpresa qualquer que perturbasse a rotina dos dias, que lhe mudasse o destino.
ELE: Já viste, um gajo faz um comentário qualquer, só para fazer conversa e tal, uma perguntazinha inocente ou assim, e acabas sempre a falar de ti, nunca falha, pões-te logo com teorias e desculpas e tretas.
EU: É capaz de ser verdade.
ELE: E sabes que mais? Isso irrita, foda-se, nem imaginas o que irrita. Aliás, de certeza que foi por isso que ela se divorciou de ti. De certezinha.
EU: Divorciou-se porque percebeu que estava a viver na telenovela errada. E a tua mulher, pelo que contas, deve estar quase a perceber o mesmo.
ELE: Não digas isso nem a brincar.
EU: Ok, não digo. Mas que queres que te diga, afinal?
ELE: Tudo menos isso.
EU: Olha, acho que já percebi o que queres. Queres que te assegure que, na verdade, as telenovelas são apenas entretenimentos simplistas para alienar as pessoas, para distraí-las das coisas mesmo importantes como a crise e assim. O ópio do povo e tal. É isso, não é? Tal e qual a história do pai natal que contei ao meu filho; olha que ele acreditou, ainda acredita, e isto é mais ou menos igual. Ou não é? Porque eu consigo ser bastante convincente a contar histórias da carochinha; apesar de saber que o segredo é apenas contá-las a quem está predisposto a acreditar nelas, a quem precisa de acreditar nelas. Voltemos ao princípio, então. Como é que perguntaste, no início da conversa? Qual é o fascínio dela pela merda das telenovelas, não foi? Ou algo do género. Bom, eu respondo. Respondo-te assim. Deixa-a lá, não te preocupes com isso, é apenas uma forma de fuga e descompressão, uma forma ingénua e inofensiva de aliviar o stress do quotidiano e tal. Ok? Então vamos embora, que se faz tarde.

Coisas que me contam no consultório # 01

No outro dia fomos jantar naquele restaurante novo que abriu junto ao rio, eu e a minha mulher; tínhamos voltado a discutir por causa da universidade do miúdo e, talvez por isso, estávamos um pouco mais silenciosos do que o normal, mais distantes e rancorosos, mais isolados; sabe como é. Talvez tenhamos ido ao restaurante apenas para não ficarmos os dois em casa, silenciosos e agastados, acumulando ressentimentos e desviando propositadamente os olhares, calculámos – separadamente – que talvez fosse mais seguro estar em público, rodeados de gente, para não cedermos à tentação de nos agredirmos, para não cedermos à tentação fácil de provocar uma reacção do outro, forçando-o a fazer qualquer coisa má apenas para depois o podermos acusar de ter feito essa coisa má. Bom, a verdade é que não sei bem porquê mas lá fomos. Lá estávamos. E então, como precisava de me distrair um pouco, tal como o senhor doutor diz, não é?, procurar focos de interesse que permitam aliviar a tensão latente e isso, comecei a fazer o que costumo fazer algumas vezes, que é olhar para as pessoas, observá-las e estudá-las, espiar um pouco. Já falámos sobre isso, lembra-se? Nada de novo, portanto. Bom, acontece que acabei por reparar num casal que estava na mesa ao lado. Mais jovens do que nós, no início dos trinta; gente com bom gosto; bonita, ela. Lá estavam, caladinhos, ainda mais apáticos e distantes do que nós, como se nem se conhecessem, como se fossem dois desconhecidos que tivessem sido forçados a partilhar uma mesa; era o que pareciam, dois anónimos surpreendidos numa situação constrangedora. E afinal, talvez tenha sido por isso que concentrei a minha atenção neles, por intuir que enquanto casal estavam ainda em pior estado do que nós. Ele olhava para a televisão, absorto e inerte, talvez um pouco esquecido do local onde se encontrava, quase agindo como se estivesse sozinho em casa, estendido no sofá à espera que o sono chegasse ou o tempo passasse, o que calhasse acontecer primeiro. E ela comia devagarinho, o garfo na mão direita, levando espaçadamente pequenos pedaços de comida à boca; tal e qual uma criança contrariada, uma criança aborrecida; uma criança de castigo, foi o que pensei: olha, esta age como se o casamento fosse um castigo. Claro que não faço ideia por que motivo concluí que se tratava de um casal, talvez nem fosse, poderia ser um primeiro encontro, ou um blind date, ou outra coisa qualquer, sei lá eu, mas também não importa. Parti do princípio que eram casados e fui espiando. Bom, foi então que, por acaso, foi mesmo por acaso, reparei que ela tinha a mão, a outra mão, entre as pernas, ali esquecida e arrumadinha, como se estivesse a aquecê-la ou assim; ou como se estivesse a escondê-la, a protegê-la, não sei bem; percebe? Uma coisa banal e irrelevante, sem interesse; mas logo depois notei que, por vezes, ela movia a mão de uma forma que me chamou a atenção: discretamente mas com intenção, sabe? Não era uma acção distraída e inconsciente, havia intenção. Como se estivesse a acariciar-se, percebe? Propositadamente e em público, em frente do namorado ou do marido ou lá o que era. A mão entre as coxas, ali mesmo junto do sexo, está a ver? Não que fosse um toque descaradamente sexual, uma espécie de tentativa de masturbação em público ou assim, não é isso que estou a dizer, mas também não se tratava de um simples toque ocasional e inócuo, inofensivo. Isso, não era; e sabe porquê? Porque sempre que o fazia, sempre que se tocava, apenas as calças justas a separar os dedos e o sexo, desculpe por falar assim, ela olhava o marido; olhava-o, como se estivesse a desafiá-lo; ainda pensei que seria para o vigiar, para se certificar que ele não a surpreendia, tal como uma criança vigia o pai para perceber se ele já notou que está a dar comida ao gato aninhado ali ao lado da cadeira, mas depois percebi que era mesmo desafio, talvez até provocação; como se pretendesse ser surpreendida, talvez forçá-lo a quebrar a indiferença, a reagir; a regressar ao restaurante. Fui assistindo, levemente excitado, já lhe disse que ela era uma mulher bonita; sentia-me um pouco envergonhado mas continuava a espiar, deixando-me seduzir por aquele pequeno drama um pouco pateta, talvez até imaginado, quem sabe?, podia ser tudo imaginação minha. Fui espreitando, esquecendo-me das minhas circunstâncias, do local onde me encontrava, do que devia estar a fazer ou a dizer. Fugindo de mim e dos meus problemas, tentando entrar um pouco à força num mundo diferente, desconhecido e cativante, novo. É sempre assim, não é senhor doutor?, temos aversão ao vazio, precisamos é de ocupar o cérebro com qualquer coisa; e é sempre mais fácil distrairmo-nos com os problemas dos outros do que dar atenção aos nossos, vale tudo desde que não pensemos nos nossos dramazinhos, se não fosse assim não precisávamos de psiquiatras para nada, não acha senhor doutor? Enfim. Não sei quanto tempo durou este devaneio mas, de repente, a minha mulher falou, apanhando-me desprevenido, foi quase um susto, tinha esquecido completamente que ela estava mesmo ali à minha frente; ouvi-a e vi-a e voltei subitamente a tomar consciência do seu perfume, assim de repente. Regressei. Perguntou-me se o bacalhau não me parecia um pouco salgado. Uma banalidade completa, está a ver?, mas sabe melhor do que eu como os casais gastam as coisas relevantes que têm a dizer entre si logo no primeiro ano de casamento, depois limitam-se a ir repetindo fórmulas, numa tentativa por vezes desesperada de encontrar novas formas de dizer as mesmas coisas, que de qualquer modo vão perdendo a relevância por já terem sido tão repetidas, foram-se esvaziando devagarinho; e o resto, são insignificâncias que se vão dizendo apenas para preencher o silêncio ou para dar sinal de vida. Coisas como aquilo do bacalhau, que ela me perguntou assim de repente. Disse que sim, forçando-me a regressar à minha realidade, à minha mesa; ela respondeu que não comia um bacalhau decente há décadas, eu disse que não estava assim tão mau, ela não soube como continuar a conversa. Ficámos a olhar para os pratos, para o bacalhau. À espera de qualquer coisa que pudesse acontecer, é um bocado triste quando uma pessoa se habitua a esperar que as coisas aconteçam, quando desiste de provocar e controlar os acontecimentos. É triste mas é mesmo assim, paciência. Mas olhe que foi bom termos conversado sobre o bacalhau, se é que aquilo se pode qualificar como uma conversa, foi um sinal de que tínhamos esquecido a zanga, um sinal de que era altura de seguir em frente. Como vê, até as conversas mais indigentes têm a sua utilidade, o que é certamente um consolo para os idiotas. Não se ria, é mesmo assim. A apatia lá foi caindo suavemente sobre nós, na realidade não chegara a dissipar-se verdadeiramente, não é? Talvez nunca chegue a dissipar-se, sei lá eu. Tudo como antes, mais ou menos. Os minutos a arrastarem-se e o olhar a fugir-me para a mesa do lado. Lá estava ela, a mãozinha entre as pernas. Deixei-me estar a olhar. Depois, espreitei a minha mulher, apenas para conferir que não me espiava; vi a expressão reflectiva e distante, pensei maldosamente que talvez ainda estivesse a pensar no bacalhau, mas que sei eu do que pensa ela, afinal? Contudo, houve algo nessa expressão que me fez deter o olhar e me impediu de regressar à mesa do lado; havia no seu rosto, no seu olhar, um halo, gosto desta palavra, senhor doutor, foi a minha mãe que ma ensinou, um halo de distância e de apatia, de desinteresse, que me incomodou de uma forma especialmente desconfortável. Sabe porquê? Porque compreendi, assim de súbito, numa daquelas epifanias de que falam nos filmes, que era uma expressão muito semelhante à da mulher da mesa do lado; mesmo muito semelhante. Igualzinha, para dizer a verdade. E então, logo de seguida, veio a dúvida, uma dúvida atroz: será que a minha mulher já fez algo semelhante? Algo tão… como dizer? Desesperado, talvez seja a palavra. Desesperado. Percebe, doutor? E se ela estivesse a fazer precisamente a mesma coisa naquele momento, lá do outro lado da mesa? Ou algo do género, um qualquer disparate típico de gente desesperada. Como um garoto que rouba fruta apenas para chamar a atenção dos pais, porque o castigo que possa sofrer sempre é melhor que o desinteresse; não me saía esta ideia da cabeça, um garoto a roubar fruta. Talvez me consiga explicar o significado desta ideia em concreto, senhor doutor; ou, se calhar, não tem significado nenhum, é apenas uma ideia. Somos todos um pouco como os garotos, não acha? Ou, na verdade, nunca deixamos de ser garotos? Não interessa. O que importa é que percebi, assim de repente, que é a maneira como se percebem as coisas importantes, sabemos que algo é importante apenas porque percebemos o seu significado ou impacto de repente, caso contrário não seria importante, não sei se concorda, e… e perdi-me, desculpe senhor doutor. Ora bem, o que estava a querer dizer é que percebi, de repente, como lhe estava a explicar, o quanto estávamos afastados, eu e a minha mulher, o quanto aprendêramos a desconhecer-nos; percebi como havia muito pouco a ligar-nos, a aproximar-nos, a unir-nos. Nada em comum, na verdade; nem o bacalhau, já reparou? Nenhum interesse em saber do outro, em olhar para o outro. Percebe onde quero chegar, senhor doutor? É que, na verdade, se ela estivesse a fazer qualquer coisa, fosse o que fosse, algo semelhante ao que estava a fazer a mulher da mesa do lado, isso pouco me importaria. Pouco, nada. Mesmo nada, nadinha. Por isso, diga-me lá: acha que fiz mal em avançar assim de repente para o divórcio? Bom, de repente não foi, há quem diga que é no dia do casamento que se começa a preparar o divórcio e não sou eu que vou discordar. Mas a verdade é que… Bom, a verdade é que durante um bocado ainda pensei que talvez fosse melhor seguir o sentido oposto; não sei porquê mas pensei nisso; sei lá… levá-la numa viagem qualquer, por exemplo; uma coisa romântica tipo segunda lua de mel, está a ver?, passear de mãos dadas e abraçá-la e tal, fazê-la sentir-se amada ou pelo menos desejada, ou pelo menos ouvida, sorrir-lhe e fazê-la sorrir, beijá-la em público, oferecer-lhe uma pulseira que ela tivesse espreitado numa montra, dividir um jornal na esplanada do hotel e sei lá que mais; disparates que os rapazes de vinte anos fazem quando julgam que estão apaixonados; está a perceber, doutor? Confesso que ainda pensei nisso, admito que sim, pensei. Mas olhe lá, deixe-me perguntar-lhe isto: parece-lhe que eu ainda tenha idade para romantismos? É que eu acho que não tenho.

# 68: Ok

ELA: Sabes, desculpa falar nisto mas gostava de te pedir um favor.
ELE: O quê?
ELA: Gostava que dissesses que me amas. Que olhasses para mim e dissesses: amo-te. Só uma vez, chegava.
ELE: Mas eu não te amo. Sabes isso.
ELA: Sei. Mas podias dizê-lo na mesma. Não podias?
ELE: Suponho que sim.
(Pausa.)
ELA: Não ficaste aborrecido, pois não?
ELE: Claro que não.
ELA: Não queria aborrecer-te.
ELE: Eu sei. Mas deixaste-me pensativo.
ELA: Desculpa.
ELE: Não faz mal.
(Pausa.)
ELA: Continuas pensativo.
ELE: Sim, estava a pensar que tens razão, que poderia perfeitamente olhar para ti e dizer que te amo.
ELA: Apesar de não o sentires.
ELE: Sim. Mas não é isso que importa. O que conta é que poderia dizê-lo.
ELA: Um favor que me fazias.
ELE: Não seria propriamente um sacrifício ou assim.
ELA: Não quero que faças sacrifícios.
ELE: Não, claro que não seria um sacrifício. Seria uma espécie de presente.
ELA: Como se fosse o nosso aniversário.
ELE: É, mais ou menos isso.
(Pausa.)
ELE: Então, aqui vai.
ELA: Está bem.
ELE: Amo-te.
(Pausa.)
ELA: Obrigado. Obrigado por dizeres.
ELE: Não precisas de agradecer.
(Pausa.)
ELE: E foi bom?
ELA: Ouvir-te dizê-lo? Sim, foi bom. Interessante.
ELE: Ainda bem, fico contente.
ELA: Ok.
ELE: Talvez até possa voltar a fazê-lo. Qualquer dia.
ELA: A sério? Seria simpático.
(Pausa.)
ELE: Mas achas que mudou alguma coisa? Sentes que mudou alguma coisa?
ELA: Penso que não.
ELE: Seria estranho, se tivesse mudado.
ELA: Pois seria. Mesmo estranho.
(Pausa.)
ELA: Mas, apesar de tudo, foi bom.
ELE: Agradável?
ELA: Sim, penso que é o termo adequado. Agradável.
(Pausa.)
ELA: Continuas pensativo?
ELE: Engraçado, de repente comecei a imaginar que se o dissesse mais vezes, se o fosse repetindo uma e outra vez, talvez começasse a acreditar.
ELA: Acreditar? Que queres dizer? Estás a falar de quê?
ELE: Estou a falar de dizer que te amo. Estranho, não é? Afinal, é só uma palavra. Mas poderia ir repetindo e repetindo e, quem sabe, talvez começasse a acreditar.
ELA: Achas?
ELE: Não sei, estava só a pensar nisso.
ELA: É um pensamento estranho.
ELE: Eu sei.
ELA: Mas bonito.
(Pausa.)
ELE: Sabes o que é ainda mais estranho?
ELA: O quê?
ELE: Vais rir.
ELA: Prometo que não.
ELE: Bom, levei o pensamento mais longe, até às últimas consequências.
ELA: Que queres dizer?
ELE: Estava a pensar que se acreditasse nisso, se o repetisse tanta vez que começasse a acreditar que te amo…
ELA: Sim?
ELE: Talvez começasse a senti-lo.
ELA: Senti-lo?
ELE: Sim, senti-lo. Sentir que te amo.
ELA: Amar-me mesmo? É o que estás a dizer?
ELE: Suponho que sim.
(Pausa.)
ELA: Acho que ia gostar disso.
ELE: Imaginei que sim.
ELA: Seria agradável.
ELE: Estava a pensar que poderia ser interessante experimentar. Depois deste tempo todo, tentar algo novo, algo diferente.
ELA: Sim, acho que devíamos tentar. Devíamos mesmo. Se quiseres, é claro.
ELE: Quero.
(Pausa.)
ELA: Como viste, não ri.
ELE: Pois não.
(Pausa.)
ELE: Vamos então experimentar?
ELA: Sim.
ELE: Nem que seja apenas para nos distrairmos um bocado e tal.
ELA: Para não nos aborrecermos tanto.
ELE: Isso.
(Pausa.)
ELE: Aqui vai, então.
ELA: Está bem.
ELE: Amo-te.
ELA: Ok.
(Pausa.)
ELA: Se calhar é um bocado com dizia um filósofo.
ELE: Qual?
ELA: Não me lembro, acho que era um alemão qualquer.
ELE: E que dizia ele?
ELA: Dizia que o que conta não é tanto a verdade ou os factos mas a forma como se fala dessa verdade ou desses factos.
ELE: Isso é um bocado esquisito.
ELA: Se calhar estou a fazer confusão. Mas tenho a certeza que houve alguém que defendia que o conteúdo do que é dito depende da forma como é enunciado.
ELE: Queres dizer que isso se pode aplicar ao nosso caso?
ELA: Um pouco, talvez.
(Pausa.)
ELE: Aparentemente, somos pessoas filosóficas. Quem diria.
ELA: Ninguém.
(Pausa.)
ELA: Quanto tempo achas que vai demorar?
ELE: Não faço ideia. Afinal, é só uma experiência, pode nem sequer resultar.
ELA: Sim, é verdade. Não devemos apressar a ciência.
ELE: Ciência?
ELA: Claro. Especulaste uma teoria e agora vais testá-la; é ciência pura.
ELE: Tens razão.
ELA: E a ciência, sabes como é. É científica. Implica paciência e perseverança e mais não sei quê.
ELE: É um pouco como o amor, não achas?
ELA: Sim, parece-me uma boa comparação.
ELE: Talvez o amor seja simples ciência.
ELA: Teorias e experimentações e assim?
ELE: Algo do género.
ELA: Talvez.
(Pausa.)
ELA: Nesse caso, no amor existe muita margem para o erro. Não é? Experiências que falham e isso.
ELE: É inevitável.
ELA: E connosco?
ELE: Que queres dizer?
ELA: A experiência não tem corrido mal, pois não?
ELE: Parece-me que não.
ELA: Também penso que não.
(Pausa.)
ELE: Filosóficos e científicos. Parecemos o casal perfeito.
ELA: É verdade.
ELE: Apesar de não nos amarmos.
ELA: Pois não.
ELE: Quase perfeitos, então.
ELA: É.
(Pausa.)
ELE: Achas que já posso dizê-lo novamente?
ELA: Penso que sim.
ELE: Muito bem, aqui vai.
ELA: Estou pronta.
ELE: Amo-te.
ELA: Ok.
ELE: Continua a ser agradável para ti?
ELA: Mais ou menos.
ELE: Ainda bem.
(Pausa.)
ELE: Há pouco, falaste de aniversário.
ELA: Sim.
ELE: Quando é o nosso aniversário, afinal?
ELA: Na verdade, não sei.
ELE: Não?
ELA: Não. Isso desagrada-te? Que eu não saiba.
ELE: Claro que não. De todo.
ELA: Mas ficaste surpreendido.
ELE: Um pouco. Não sei bem porquê.
ELA: Decepcionado.
ELE: Não, claro que não. Acredita que não fiquei.
ELA: Tens a certeza?
ELE: Tenho.
ELA: Ok.
(Pausa.)
ELA: Voltando à experiência.
ELE: Sim.
ELA: E tu, já começaste a sentir alguma diferença?
ELE: A acreditar, é o que queres dizer? A acreditar que te amo?
ELA: Sim.
ELE: Penso que é muito cedo.
ELA: Também pensei o mesmo, era só para ter a certeza.
ELE: Fizeste bem. Gosto que tenhas perguntado.
ELA: Por vezes, penso que estamos de tal forma em sintonia que nem precisaríamos de falar para nos entendermos.
ELE: Sim, também já senti isso.
ELA: E é bom.
ELE: Pois é.
ELA: Tanta gente que se ouve por aí, casais e isso, com conversas irrelevantes. Falam e falam e falam mas não dizem nada. Não se entendem, vê-se logo que estão apenas a falar para si próprios.
ELE: Sim, é um pouco irritante. Ou triste, conforme as situações.
ELA: Pessoas que não têm mesmo noção da figurinha que fazem.
ELE: Pois não.
(Pausa.)
ELA: Mas nós não somos assim.
ELE: Claro que não.
ELA: Filosóficos e científicos.
ELE: Isso mesmo.
(Pausa.)
ELA: Estou a ficar aborrecida.
ELE: Sim? E que te apetece fazer?
ELA: Não sei. Talvez foder um bocado?
ELE: Foder?
ELA: Só para distrair.
ELE: Ok.
ELA: Ok?
ELE: Ok.