Coisas que me contam no consultório # 01
# 68: Ok
ELE: O quê?
ELA: Gostava que dissesses que me amas. Que olhasses para mim e dissesses: amo-te. Só uma vez, chegava.
ELE: Mas eu não te amo. Sabes isso.
ELA: Sei. Mas podias dizê-lo na mesma. Não podias?
ELE: Suponho que sim.
(Pausa.)
ELA: Não ficaste aborrecido, pois não?
ELE: Claro que não.
ELA: Não queria aborrecer-te.
ELE: Eu sei. Mas deixaste-me pensativo.
ELA: Desculpa.
ELE: Não faz mal.
(Pausa.)
ELA: Continuas pensativo.
ELE: Sim, estava a pensar que tens razão, que poderia perfeitamente olhar para ti e dizer que te amo.
ELA: Apesar de não o sentires.
ELE: Sim. Mas não é isso que importa. O que conta é que poderia dizê-lo.
ELA: Um favor que me fazias.
ELE: Não seria propriamente um sacrifício ou assim.
ELA: Não quero que faças sacrifícios.
ELE: Não, claro que não seria um sacrifício. Seria uma espécie de presente.
ELA: Como se fosse o nosso aniversário.
ELE: É, mais ou menos isso.
(Pausa.)
ELE: Então, aqui vai.
ELA: Está bem.
ELE: Amo-te.
(Pausa.)
ELA: Obrigado. Obrigado por dizeres.
ELE: Não precisas de agradecer.
(Pausa.)
ELE: E foi bom?
ELA: Ouvir-te dizê-lo? Sim, foi bom. Interessante.
ELE: Ainda bem, fico contente.
ELA: Ok.
ELE: Talvez até possa voltar a fazê-lo. Qualquer dia.
ELA: A sério? Seria simpático.
(Pausa.)
ELE: Mas achas que mudou alguma coisa? Sentes que mudou alguma coisa?
ELA: Penso que não.
ELE: Seria estranho, se tivesse mudado.
ELA: Pois seria. Mesmo estranho.
(Pausa.)
ELA: Mas, apesar de tudo, foi bom.
ELE: Agradável?
ELA: Sim, penso que é o termo adequado. Agradável.
(Pausa.)
ELA: Continuas pensativo?
ELE: Engraçado, de repente comecei a imaginar que se o dissesse mais vezes, se o fosse repetindo uma e outra vez, talvez começasse a acreditar.
ELA: Acreditar? Que queres dizer? Estás a falar de quê?
ELE: Estou a falar de dizer que te amo. Estranho, não é? Afinal, é só uma palavra. Mas poderia ir repetindo e repetindo e, quem sabe, talvez começasse a acreditar.
ELA: Achas?
ELE: Não sei, estava só a pensar nisso.
ELA: É um pensamento estranho.
ELE: Eu sei.
ELA: Mas bonito.
(Pausa.)
ELE: Sabes o que é ainda mais estranho?
ELA: O quê?
ELE: Vais rir.
ELA: Prometo que não.
ELE: Bom, levei o pensamento mais longe, até às últimas consequências.
ELA: Que queres dizer?
ELE: Estava a pensar que se acreditasse nisso, se o repetisse tanta vez que começasse a acreditar que te amo…
ELA: Sim?
ELE: Talvez começasse a senti-lo.
ELA: Senti-lo?
ELE: Sim, senti-lo. Sentir que te amo.
ELA: Amar-me mesmo? É o que estás a dizer?
ELE: Suponho que sim.
(Pausa.)
ELA: Acho que ia gostar disso.
ELE: Imaginei que sim.
ELA: Seria agradável.
ELE: Estava a pensar que poderia ser interessante experimentar. Depois deste tempo todo, tentar algo novo, algo diferente.
ELA: Sim, acho que devíamos tentar. Devíamos mesmo. Se quiseres, é claro.
ELE: Quero.
(Pausa.)
ELA: Como viste, não ri.
ELE: Pois não.
(Pausa.)
ELE: Vamos então experimentar?
ELA: Sim.
ELE: Nem que seja apenas para nos distrairmos um bocado e tal.
ELA: Para não nos aborrecermos tanto.
ELE: Isso.
(Pausa.)
ELE: Aqui vai, então.
ELA: Está bem.
ELE: Amo-te.
ELA: Ok.
(Pausa.)
ELA: Se calhar é um bocado com dizia um filósofo.
ELE: Qual?
ELA: Não me lembro, acho que era um alemão qualquer.
ELE: E que dizia ele?
ELA: Dizia que o que conta não é tanto a verdade ou os factos mas a forma como se fala dessa verdade ou desses factos.
ELE: Isso é um bocado esquisito.
ELA: Se calhar estou a fazer confusão. Mas tenho a certeza que houve alguém que defendia que o conteúdo do que é dito depende da forma como é enunciado.
ELE: Queres dizer que isso se pode aplicar ao nosso caso?
ELA: Um pouco, talvez.
(Pausa.)
ELE: Aparentemente, somos pessoas filosóficas. Quem diria.
ELA: Ninguém.
(Pausa.)
ELA: Quanto tempo achas que vai demorar?
ELE: Não faço ideia. Afinal, é só uma experiência, pode nem sequer resultar.
ELA: Sim, é verdade. Não devemos apressar a ciência.
ELE: Ciência?
ELA: Claro. Especulaste uma teoria e agora vais testá-la; é ciência pura.
ELE: Tens razão.
ELA: E a ciência, sabes como é. É científica. Implica paciência e perseverança e mais não sei quê.
ELE: É um pouco como o amor, não achas?
ELA: Sim, parece-me uma boa comparação.
ELE: Talvez o amor seja simples ciência.
ELA: Teorias e experimentações e assim?
ELE: Algo do género.
ELA: Talvez.
(Pausa.)
ELA: Nesse caso, no amor existe muita margem para o erro. Não é? Experiências que falham e isso.
ELE: É inevitável.
ELA: E connosco?
ELE: Que queres dizer?
ELA: A experiência não tem corrido mal, pois não?
ELE: Parece-me que não.
ELA: Também penso que não.
(Pausa.)
ELE: Filosóficos e científicos. Parecemos o casal perfeito.
ELA: É verdade.
ELE: Apesar de não nos amarmos.
ELA: Pois não.
ELE: Quase perfeitos, então.
ELA: É.
(Pausa.)
ELE: Achas que já posso dizê-lo novamente?
ELA: Penso que sim.
ELE: Muito bem, aqui vai.
ELA: Estou pronta.
ELE: Amo-te.
ELA: Ok.
ELE: Continua a ser agradável para ti?
ELA: Mais ou menos.
ELE: Ainda bem.
(Pausa.)
ELE: Há pouco, falaste de aniversário.
ELA: Sim.
ELE: Quando é o nosso aniversário, afinal?
ELA: Na verdade, não sei.
ELE: Não?
ELA: Não. Isso desagrada-te? Que eu não saiba.
ELE: Claro que não. De todo.
ELA: Mas ficaste surpreendido.
ELE: Um pouco. Não sei bem porquê.
ELA: Decepcionado.
ELE: Não, claro que não. Acredita que não fiquei.
ELA: Tens a certeza?
ELE: Tenho.
ELA: Ok.
(Pausa.)
ELA: Voltando à experiência.
ELE: Sim.
ELA: E tu, já começaste a sentir alguma diferença?
ELE: A acreditar, é o que queres dizer? A acreditar que te amo?
ELA: Sim.
ELE: Penso que é muito cedo.
ELA: Também pensei o mesmo, era só para ter a certeza.
ELE: Fizeste bem. Gosto que tenhas perguntado.
ELA: Por vezes, penso que estamos de tal forma em sintonia que nem precisaríamos de falar para nos entendermos.
ELE: Sim, também já senti isso.
ELA: E é bom.
ELE: Pois é.
ELA: Tanta gente que se ouve por aí, casais e isso, com conversas irrelevantes. Falam e falam e falam mas não dizem nada. Não se entendem, vê-se logo que estão apenas a falar para si próprios.
ELE: Sim, é um pouco irritante. Ou triste, conforme as situações.
ELA: Pessoas que não têm mesmo noção da figurinha que fazem.
ELE: Pois não.
(Pausa.)
ELA: Mas nós não somos assim.
ELE: Claro que não.
ELA: Filosóficos e científicos.
ELE: Isso mesmo.
(Pausa.)
ELA: Estou a ficar aborrecida.
ELE: Sim? E que te apetece fazer?
ELA: Não sei. Talvez foder um bocado?
ELE: Foder?
ELA: Só para distrair.
ELE: Ok.
ELA: Ok?
ELE: Ok.
# 66: Bimby
Quando chega a casa, ele senta-se no sofá e liga a televisão; vê o final do Portugal em Directo (por causa da meteorologia; mas, na verdade, que lhe importa que chova ou não?), o Preço Certo de princípio ao fim e o início do Telejornal, enquanto a ouve na cozinha a caminhar de um lado para o outro, pegando nisto e largando aquilo, ligando e desligando máquinas, suspirando uma e outra vez. Não gosta particularmente dos programas que vê, muitas vezes nem sequer está muito atento à televisão, mas uma apatia profunda e paralisante invade-o mal entra em casa e impede-o de se erguer do sofá para fazer seja o que for (apesar de ter consciência de que qualquer coisa que se lembre de fazer será sempre mais útil e recompensadora do que aquilo, do que aquela prostração), força-o a manter-se ali, silencioso e inconsciente, desligado, como se precisasse da televisão para se distrair momentaneamente da trivialidade da sua vida, do dia de trabalho que terminara e que se repetiria com exactidão no dia seguinte, e no próximo, indefinidamente.
Mas o que lhe custa mais, o que lhe corrói a consciência e perturba a lassidão habitual, é a permanência constante dela na cozinha, como se fosse prisioneira daquelas quatro paredes, escrava daqueles utensílios; não percebe nem vislumbra o que faz ela durante tanto tempo na cozinha (na verdade, nunca lhe perguntara; mas que poderá ela lá fazer, se não cozinhar?), não percebe por que motivo não lhe faz companhia na sala, partilhando a televisão consigo ou lendo uma revista ou simplesmente estando lá – a possibilidade de ser ele a fazer-lhe companhia na cozinha sempre lhe parecera imprudente e arriscada: e se ela reagisse com desagrado à sua presença, ou mesmo com indiferença?
Não sente propriamente ciúmes da cozinha, apesar de por vezes suspeitar (e sabe que este é um pensamento muito, muito palerma) que não tem grandes hipóteses de concorrer com a diversidade e versatilidade de ofertas de que ela pode usufruir naquele espaço (que tem ele, afinal, para oferecer à mulher que ama – ama? –, além da sua presença silenciosa e apática, do seu toque ocasional e displicente, do seu sorriso forçado? Até a Bimby, por exemplo, poderá oferecer muito mais do que isso, muito mais); mas intui que aquela presença ostensiva na cozinha, conciliada com a sua própria presença ostensiva no sofá, simboliza de modo incisivo e clarividente o crescente afastamento a que estão condenados, como se com a passagem dos anos deixassem de ter o que dizer ao outro (ou, pior: perdessem a vontade de dizer fosse o que fosse ao outro), restando apenas o silêncio e a solidão a uni-los.
Ela trouxe o jantar para a sala quando ia o telejornal na quarta notícia e agora jantam em silêncio, olhando com indiferença para a televisão; o noticiário não anuncia nada que mereça ser comentado ou discutido, não lhes proporciona nenhum pretexto para quebrarem o silêncio. Limitam-se a mastigar e pestanejar, mecanicamente, como se fossem duas Bimbys ocupadas na elaboração de um empadão, competindo para terminar em primeiro lugar. Nunca lhe ocorrera que ela pudesse detestar a sua cozinha e que todo o tempo que lá passa, fingindo-se ocupada, sirva apenas para não ser forçada – forçada? – a estar com ele (seria possível tamanha dissimulação?, perguntar-se-ia ele, sem perceber que o seu próprio interesse fingido na televisão representa igual grau de hipocrisia), sirva apenas para se proteger dele – porque, afinal, a cozinha não é uma prisão mas um refúgio; nunca lhe ocorrera que ela lá permanecesse, junto da sua ruidosa e multifuncional Bimby, apenas para evitar a sua companhia, para não o ver nem ouvir, para não ser constrangida a falar-lhe porque não tinha nada, absolutamente nada, para lhe dizer. Nunca lhe ocorrera; mas quando ocorresse (e iria certamente ocorrer, num qualquer fim de tarde, enquanto tentava adivinhar o valor da montra final do Preço Certo e o apito da Bimby inundasse subitamente a casa), era muito provável que continuasse sentado no seu sofá, a olhar para a televisão sem verdadeiramente ver ou ouvir e à espera que acontecesse o que tivesse de acontecer.
2.
Enquanto transporta a louça suja para a cozinha, ela questiona-se se, agora que chega o momento de cumprir uma vez mais a tradição de comemorar o aniversário do casamento – o décimo sétimo – com um jantar teoricamente romântico num qualquer restaurante absurdamente caro, não será a altura ideal para olhá-lo nos olhos e formular a única questão que precisa de ser formulada e que anda a mastigar há demasiado tempo: há quanto tempo terminou o nosso casamento?
Está ainda a pensar nisto, perguntando-se se alguma vez terá coragem de o fazer, quando o ouve levantar-se do sofá e caminhar com vagar pela sala, como se hesitasse na direcção a tomar; pensa que irá à casa de banho mas, afinal, entra na cozinha e dá uma voltinha por ali, confuso e embaraçado, parando finalmente em frente do armariozinho onde se encontra a Bimby; e, incapaz de a olhar directamente (há quanto tempo não se olham directamente?), pergunta: para que serve esta maquineta, afinal? Ela estranha a sua presença, a sua pergunta, o seu interesse; e não sabe como reagir. Apenas passados muitos segundos, quando o silêncio se tornara atroz (mais atroz do que o habitual), consegue responder: serve para tudo; e após uma ligeira hesitação, começa a concretizar a sua resposta, detalhando as utilidades da máquina com uma vaga irritação e contrariedade na voz mas, logo depois, com crescente entusiasmo e surpresa, ao perceber que ele a ouve com aparente interesse, com vontade, com atenção. Agradada por constatar que ele não só formulara uma pergunta como ouvia a resposta: fizera um esforço, tentara, tomara uma iniciativa, levantara-se do sofá; está ali, à sua frente, olhando-a e escutando-a, quem sabe se à beira de um sorriso.
E enquanto fala (enquanto se ouve falar), há uma ideia disparatada, de uma irracionalidade e absurdez sem limite mas de certo modo irresistível, que lhe baila na cabeça: talvez algum do sucesso comercial da Bimby resida na sua capacidade oculta de adiar o fim (salvar seria demasiado) de alguns casamentos. Sorri, surpreendida com a frivolidade da ideia – na verdade, surpreendida com a frivolidade do seu comportamento; e irritada com o facto de se contentar com tão pouco, com uma simples migalha de tempo, de atenção – e continua a tagarelar, sabendo que acabará por chegar o momento em que não haverá nada mais a dizer, o momento em que tudo voltará ao que foi, ao que sempre será.
# 65: Supositórios
MULHER (irritada): Não vou voltar à psiquiatra.
AMIGA (desatenta): Porquê? Estás curada?
MULHER: Não gozes.
AMIGA (sem verdadeiro interesse): A sério, não voltas porquê?
MULHER (contrariada): Aconteceu uma coisa esquisita, não percebi bem. Mas senti-me desconfortável.
AMIGA (levemente curiosa): Mas que te disse ela?
MULHER: Não foi nada que ela disse.
AMIGA: Então?
MULHER (num tom embaraçado): Dei com ela a olhar para mim com uma expressão esquisita.
AMIGA (curiosa): Esquisita, como?
MULHER (num tom desagradado): A olhar-me para as pernas. Com interesse, sabes?
AMIGA (espantada): Com interesse?
MULHER (irritada): Não te faças de parva.
AMIGA (tom agastado): Bom, realmente não é hábito presenteares o mundo com esse espectáculo de pernas, sempre escondidinhas nas calças, guardadas não sei para quem. Se calhar, apanhaste-a de surpresa e ela pôs-se a olhar.
MULHER (irritada; tentando não rir): Vai-te lixar. (Empertiga-se e tenta puxar a saia para baixo, protegendo-se.)
AMIGA: Ou achas que é lésbica?
MULHER: Sei lá eu.
AMIGA (provocadora): Estará interessada?
MULHER (peremptória): Não sei nem quero saber. É por isso que não regresso lá.
AMIGA: Conta-me lá como é essa tua psiquiatra, afinal. É gira?
MULHER (distraída): Nem por isso. Deve ser uns dez anos mais velha que nós. Muito formal, sempre impecável. (Pega na chávena de café vazia e brinca com ela, com gestos ligeiramente ansiosos.)
AMIGA: Mas é daquelas armadas em homem, todas tesas e assim?
MULHER: Não. É uma mulher normal. Nem gira nem feia. Passas por ela na rua e não reparas.
AMIGA (encolhendo os ombros): Banal.
MULHER: Como a maioria.
AMIGA (séria, realmente interessada): É simpática? Ri-se?
MULHER: Para mim, é sempre uma psiquiatra a dar consulta. Não a consigo imaginar de outra forma.
AMIGA (insistente): Mas parece-te uma mulher feliz? Triste? Aborrecida? Frustrada? Estimulante? Mal fodida?
MULHER (desgostosa): Estou tão arrependida de te falar disto.
AMIGA (tom firme e irritado): A sério. A mulher também lá deve ter os problemas dela, não? Está para ali todo o dia a aturar as merdas dos outros mas não consegue esquecer-se das suas próprias merdas. Que as há-de ter, não?
MULHER (desinteressada): Isso é lá com ela.
AMIGA (incisiva): Mas tu pegas nos teus problemazinhos e vais lá ver se ela te arranja um supositório para a mente. Um aliviozinho. Mas e ela, onde pode ir? Onde vão os psiquiatras que têm problemas? Com quem falam?
MULHER (tentando não se irritar): Com outros psiquiatras.
AMIGA (irónica): Achas?
MULHER (conclusiva): Acho. Ou se calhar, não falam com ninguém. Não precisam.
AMIGA (contrariada): Não precisam?
MULHER (num tom fingidamente paciente): Se conseguem dar supositórios aos outros também podem arranjar alguns para si próprios. (Concentra-se na chávena que tem nas mãos.)
AMIGA (pensativa): Isso é verdade. Anda tudo à procura de supositórios, já reparaste? É esse o mal. Em vez de se porem a pensar um bocado e tentarem compor as coisas, em vez de se analisarem, de se colocarem em questão, as pessoas preferem que alguém lhes dê soluções padronizadas e instantâneas.
(A Mulher larga a chávena e olha a Amiga, surpreendida.)
MULHER (exasperada): Hoje estás impossível.
AMIGA (tom provocatório, exagerado; fugindo ao olhar da interlocutora): Ai que o meu marido já não me fode; toma, leva o comprimido azul. Ai que o meu marido só pensa em foder; toma, leva o comprimido amarelo. Ai que o meu marido fode muito depressa; toma, leva o comprimido lilás. Ai que o meu marido quer foder em cima da arca frigorífica e eu tenho medo de a estragar; toma, leva o comprimido vermelho.
MULHER (sorrindo, contrariada): Pára com isso.
AMIGA (séria): Ninguém se põe a pensar porque raio o marido quer foder muito ou não quer foder nada. Tentar compreender. Perguntar. Não, vai-se logo pedir o comprimido.
MULHER (atenciosa): Mas que se passa contigo?
(Agora é a Amiga que pega na sua chávena vazia e a faz rodar entre os dedos, completamente abstraída.)
AMIGA: É como aquela tua colega mal cheirosa. Em vez de se lavar mais vezes, põe desodorizante; e é claro que assim não resolve nada, apenas disfarça, apenas adia. Mas é o mesmo por todo o lado, com toda a gente. (Pausa breve.) Andamos para aqui todos cheios de camadas de desodorizantes, a mamar supositórios de todas as cores, mas o cheiro a merda não desaparece.
MULHER (apreensiva): A sério. Que aconteceu? Conta.
AMIGA (irritada): Queres saber o que aconteceu?
MULHER (firme): Quero.
AMIGA (desgostosa): Pois olha que nem eu sei bem o que aconteceu.
MULHER: Contas-me ou não?
AMIGA (cansada): Não.
(A Amiga deixa que a chávena lhe escorregue dos dedos e rebole pela mesa, provocando um ruído inesperado; ambas olham a chávena, como se esperassem que caísse ao chão.)
MULHER: Regressaste da loja sem comprar nada e desististe de ir à cabeleireira, assim de repente. E pões-te para aí com essa palermice de comprimidos e desodorizantes. Só pode ter acontecido uma desgraça qualquer.
AMIGA (indiferente): Deixa lá. Fala-me da tua psiquiatra.
MULHER: Conta, porra.
(A Amiga levanta-se e desaparece; regressa muito tempo depois, com dois copos; pousa-os na mesa e bebe. A Mulher olha-a, atenta.)
AMIGA (num tom de voz algo apreensivo, quase assustado): Sabes quem encontrei quando ia a sair da cabeleireira?
MULHER (neutra): Não faço ideia.
AMIGA (contendo a revolta): O meu ex.
MULHER (surpreendida): Não.
AMIGA (abatida): É verdade.
MULHER: Então, voltou à cidade?
AMIGA (desgostosa): Parece que sim.
MULHER: Quem viu quem, primeiro?
AMIGA (contrariada): Foi ele. Pôs-se a chamar por mim, ali no meio do centro comercial. E eu toda confusa, a reconhecer a voz mas sem conseguir identificá-la.
MULHER (solidária): E depois?
AMIGA (tom triste, como se se sentisse miserável): Fico para ali meio aparvalhada, não sei bem porquê. Completamente apanhada de surpresa. E ele com sorrisinhos, a perguntar-me como tenho passado, a dizer que estou com bom aspecto e mais não sei quê.
MULHER (solidária): E tu?
AMIGA: Com vontade de fugir. Atrapalhada mas sem perceber por que motivo. Com medo não sei de quê.
(A Amiga pegou num guardanapo e está a dobrá-lo meticulosamente. A Mulher olha para as mãos dela, para o guardanapo que vai desaparecendo.)
MULHER: Mas não disseste nada?
AMIGA (forçando um sorriso, desgostosa): Nada. E então ele convida-me para tomar um café.
MULHER (incrédula): E tu aceitaste.
AMIGA (embaraçada): Lá vamos nós, de repente sem nada para dizer, meio embaraçados. Sentamo-nos na mesa mais afastada do primeiro cafezinho que encontramos. E ficamos ali a olhar para as mãos, à espera não sei de quê. Como o raio de um par de namorados.
MULHER: Mas porque não o despachaste logo?
(Agora é a Mulher que pega um guardanapo e o dobra, devagarinho.)
AMIGA (confusa): Sei lá. Porque não consegui. Porque não quis.
MULHER: E que queria ele? Chateou-te?
AMIGA: Não. (Pegando distraidamente num guardanapo e dobrando.) Foi muito civilizado. Falou do novo trabalho e das viagens e dos colegas e dos desafios. Depois, confessou que já se separou da minha substituta.
MULHER (surpreendida): A sério?
AMIGA (tom desdenhoso): Parece que sim. Explicou detalhadamente o que correu mal; tudo culpa dela, como é óbvio. (Pausa breve.) E então, muito tempo depois, percebeu que tinha estado todo o tempo a falar de si próprio. E quis saber de mim.
MULHER: E tu, que disseste?
AMIGA (irritada): Disse-lhe que me despedi e que tenho andado por aí a viajar que nem uma doida. Que me farto de comprar roupa e foder com homens mais novos. Que tenho a maior colecção de sapatos desta parte do país e que por causa disso tive que mudar de casa, que já não tinha espaço para os arrumar.
MULHER (indiferente): Não acredito.
AMIGA (tentando sorrir): Pelo menos, foi o que me apeteceu dizer. Mas limitei-me a encolher os ombros e emborcar meio litro de chá verde.
MULHER (solidária): Este tempo todo depois e ainda não o consegues enfrentar. (Pega num segundo guardanapo e dobra-o meticulosamente.)
AMIGA (tom frio e distante): Estamos divorciados há um ano. Já não há nada a enfrentar.
MULHER: Então porque não reages?
AMIGA (sorrindo): Aí é que te enganas. Reagi.
MULHER (correspondendo ao sorriso): Conta.
(Ambas as mulheres pousam os guardanapos dobrados na mesa; olham o pequeno monte e depois olham-se.)
AMIGA (tom falsamente bem-disposto, irónico): De repente, comecei a perceber as insinuações. Que tinha saudades minhas, que podíamos aproveitar os dias que ele vai ter de passar por cá, que somos os dois jovens e livres.
MULHER (perplexa): Filho da puta.
AMIGA (desgostosa): Convencido que depois da merda que fez, basta chegar aí com o sorrisinho especial e aqui a estúpida vai logo atrás.
MULHER: Mas que disseste?
AMIGA (sorrindo): Disse que também tinha saudades dele.
MULHER (perplexa): O quê?
AMIGA: Disse que precisava de ir tratar de uns assuntos, era só um instantinho. Ele que esperasse ali por mim, que comesse um gelado para ganhar energia. E fugi para aqui. Ainda lá deve estar, à espera.
(A Amiga pego um novo guardanapo; a Mulher olha-a e pouco depois imita-a.)
MULHER (cuidadosa): Mas não te sentiste tentada, pois não?
AMIGA (confusa): Tentada?
MULHER: A regressar ao café.
AMIGA (tom irritado, brutal): Achas que sou como tu?
MULHER (defensiva): Como eu, o quê?
AMIGA (acusatória): Como tu. A ganhar coragem para te divorciares há dois anos. Ou mais.
MULHER (atónita): Cala-te.
(A Mulher atira o guardanapo para cima da mesa, irritada; olha em redor, confusa; como se procurasse uma fuga; tenta acalmar-se.)
AMIGA (tom subitamente indiferente): Eu já sofri tudo o que tinha a sofrer. Posso não saber o que quero mas sei muito bem o que não quero. E uma coisa que não quero é ser o supositório dos outros. Um aliviozinho temporário. Uma distracção. (Sorri, triste; pousa o guardanapo cuidadosamente dobrado e pega de imediato num novo.)
MULHER (magoada): Estás a querer dizer que eu sou um supositório?
AMIGA (neutra): Não. Estou a dizer que andas há dois anos, ou mais, à procura de supositórios.
MULHER (irritada): Não me lixes. Que ganhaste tu com o divórcio? És mais feliz, agora?
AMIGA (após uma hesitação): Incomparavelmente.
MULHER (acusatória): Então porquê esse descontrolo todo, só porque de repente o encontras numa esquina?
AMIGA (fingindo indiferença e desinteresse): Não estou descontrolada.
MULHER (impaciente): Então estás o quê?
AMIGA (subitamente irritada): Danada.
MULHER (espantada): Danada? Porquê?
AMIGA (exasperada): Porquê? Não vês porquê? Por causa da presunção dele. Da arrogância. Da desconsideração. Da sobranceria. Percebes? Porque ele parte do princípio que está tudo bem, que o sofrimento que me causou já não conta para nada; que se pode começar tudo de novo, como se não tivesse havido um casamento que acabou miseravelmente. (Pausa breve. Atira o guardanapo que tinha nas mãos e cruza os braços, como se se quisesse impedir de pegar noutro.) Como se bastasse fazer um sinal e aqui a parvalhona vai logo a correr.
MULHER (tentando aparentar calma): Talvez estejas a interpretar mal. Talvez ele queira apenas.
AMIGA (interrompendo, furiosa): O quê? Foder? Mas se for isso, ainda é pior. Não percebes? É uma instrumentalização completa da relação entre duas pessoas. De mim.
MULHER (correspondendo à irritação; tom arrogante): Qual instrumentalização, qual quê. Chama-se casamento. Tu fazes coisas por mim e eu faço coisas por ti. Tu aturas-me e eu aturo-te. Claro que há momentos maus, momentos em que as vontades e os interesses não coincidem. Claro que há dificuldades em perceber o outro, principalmente quando se deixa de falar, quando se parte do princípio que já se conhece tudo o que há a saber sobre o outro, de tal modo que já não é necessário perguntar. É isso, um casamento. Mas qual é alternativa? Mudar de relação a cada seis meses, mal surja o primeiro indício de monotonia? Ir coleccionando?
AMIGA (agastada): Não sabes o que estás dizer.
MULHER (afrontada): Não sei? Sei é demasiado bem. Não imaginas como sei. Sei que não estou bem, isso pelo menos sei. E não é há dois anos, como dizes. É há mais.
AMIGA (impertinente): Então estás à espera de quê?
MULHER (subitamente cansada): Estou à espera de perceber como funciona isto dos casamentos, da vida. A tentar perceber se viver é como participar numa peça de teatro em que vais seguindo o teu papel, repetindo-o noite após noite, tentando atinar, tentando melhorar, obedecendo ao texto que alguém escreveu, às arbitrariedades de um encenador invisível. Será isso, a vida? (Subitamente desconsolada.) Ou é como aquela coisa que agora toda a gente faz, como se chama? Quando está um tipo sozinho no palco, a dizer graçolas.
AMIGA: Stand up.
MULHER: Isso. Está-se ali sozinho, a improvisar; tem-se umas ideias do que se quer dizer mas o discurso vai variando de acordo com os estímulos do público, de acordo com a própria vontade de se estar ali naquele momento. Não há encenador a mandar isto ou aquilo, não há determinismos nem instrumentalizações. Está-se livre.
AMIGA: Livre para quê?
MULHER: Sei lá. Livre, simplesmente. Não é o que toda a gente quer? Ser livre?
(A Mulher começa distraidamente a recolher todos os guardanapos dobrados que estão em cima da mesa, reunindo-os num montinho.)
AMIGA (tentando aligeirar o diálogo): É disso que falas lá com a tua psiquiatra?
MULHER (indiferente à provocação): Não. É o que penso quando não consigo dormir. Se viver é integrar uma equipa onde cada um sabe o que tem de fazer, sabe quem manda, sabe o que é esperado de si; ou se é estar sozinho em cima do palco e ir improvisando, tentando que os outros não se aborreçam.
AMIGA (sem qualquer provocação): E já chegaste a alguma conclusão?
MULHER (contrariada): Ide chegar, um dia destes.
AMIGA (sorrindo): E depois, que fazes com a tua conclusão?
(A Mulher encolhe os ombros, deixando claro que não irá responder; olha em redor, espreguiçando-se ligeiramente.)
MULHER (forçando um tom aligeirado, bem-disposto): Já reparaste que agora isto está sempre vazio? Vamos mas é dar uma volta. (Começa a levantar-se, perante o olhar indiferente da Amiga.) Onde vamos almoçar? (Arruma a cadeira e olha a Amiga, subitamente impaciente.) Anda lá.
(A Amiga começa a levantar-se, contrariada. Arruma a cadeira sem grande cuidado, embatendo com ela na mesa; ouve-se um ruído metálico, intenso e irritante; alguns dos guardanapos dobrados caem ao chão, esvoaçando ligeiramente, e são distraidamente pisados pelas duas mulheres, que se afastam em silêncio.)
Dão-se livros # 11
20 de Dezembro de 2005
Dão-se livros # 11
# 64: Contabilidade afectiva
Talvez o segredo do sucesso da sua relação fosse o facto de não falarem. Trocavam um sms para definir horas e locais, encontravam-se na recepção do hotel e subiam juntos, depois de se terem saudado sem grandes voracidades ou entusiasmos. O silêncio no interior do elevador não era propriamente agradável ou reconfortante; contudo, também não era particularmente incómodo. Na verdade, se pretendessem falar – não pretendiam –, que poderiam dizer um ao outro? Que havia a dizer, afinal? Talvez pudessem, por exemplo, conversar sobre o facto de a partir de certa idade – a deles –, o diálogo ser quase sempre um simples e imprescindível veículo para alcançar sexo, para superar os primeiros momentos, para justificar e disfarçar e apressar a motivação principal, muitas vezes exclusiva; sim, poderiam talvez conversar sobre isso e sorrir, agradados com a ironia, com a ilusão de subversão. Mas e depois, quando o assunto se esgotasse e não houvesse nada mais a acrescentar, como seria? Não, era preferível nem começarem. E por isso olhavam-se no espelho, sorriam silenciosamente (um sorriso diferente daquele que dirigiriam a um estranho mas, na verdade, não demasiado diferente), talvez se tocassem. Depois, o elevador teria finalmente chegado ao seu destino, um corredor seria percorrido e uma porta aberta; restaria, então (finalmente), foder. E eles foderiam.
2.
Claro que ela finge os orgasmos, todos eles, desde o primeiro; por que não o faria? É sempre mais fácil – mais confortável – fingir: dá menos trabalho e revela menos, denuncia menos, vulnerabiliza menos. Ele não imagina que é tudo fingido (como poderia imaginar, porque haveria sequer de suspeitar?), na verdade nem repara bem na actuação (na presença?) dela, não pensa nisso (como se a expressão do prazer dela, fingido ou não, tivesse pouca ou nenhuma relevância); numa ou noutra ocasião, notou que ela era um pouco ruidosa, um pouquinho mais do que o aceitável, mas como estão num hotel, anónimos e sós, não importa. A ele jamais lhe ocorreria que o ruído e o esbracejar e o frenesim (a exteriorização) pudesse ser uma distracção, destinada a desviar a atenção e iludir. E ela não é uma mulher especialmente subtil ou perspicaz ou inteligente (apenas uma pessoa normal); contudo, sabe, intuitiva e inconscientemente, que deve exagerar o que sente (ou, se for preciso, inventar; fingir que sente) e, desse modo, evitar intimidades excessivas. Contudo, é sensível (muito sensível) à atenção dele, à ternura que o comportamento dele revela e consubstancia; gosta particularmente quando ele (logo após ela fingir o seu orgasmo), a toca com cuidado e reverência, como se ela fosse frágil e preciosa; quando ele sorri, sereno e saciado, terno; quando ele diz que a ama (não é frequente mas acontece, por vezes). Gosta, muito; claro que não lhe ocorre que ele finge, que a ternura e sensibilidade e amor que ele exterioriza são tão fabricados quanto os seus próprios orgasmos.
Sim, talvez o segredo do sucesso da relação seja o facto de não falarem; caíssem nessa tentação e inevitavelmente acabariam por se denunciar, acabariam por se revelar demasiado; ambos perceberiam o fingimento do outro e cederiam ao desânimo, à revolta, à decepção, ao constrangimento. E depois, logo depois, viria o afastamento; a separação (mais uma).
3.
Ou talvez seja ao contrário: talvez ambos saibam que o outro finge; talvez ambos tenham percebido exactamente aquilo de que o outro necessita e lho ofereçam, não por generosidade mas porque assim o outro se sentirá em dívida, impelido a também oferecer algo. Talvez uma relação madura e sustentável, adulta, seja apenas isso: uma troca. Uma alternância entre débitos e créditos, uma contabilidade afectiva, uma transacção de sentimentos e expectativas e toques e orgasmos e tudo o mais que forma e alimenta a intimidade.
Sim, dirá a psiquiatra mais tarde, toda essa racionalização é muito conveniente e confortável; mas o que acontecerá quando um dos dois deixar de se satisfazer com fingimentos?
4.
(Possibilidade teórica: e se fosse ao contrário? Se ele buscasse amor e não apenas quem lhe amparasse as ejaculações? Se ela buscasse prazer, apenas prazer? Como seria?)
5.
E se eles efectivamente acabassem por conversar, poderia ser assim:
- Eu sei, compreendo o que sentes.
- Não sei se compreendes.
- Compreendo, claro que compreendo. Mas diz-me: que posso fazer? Diz-me, porque eu não sei. Fingir um orgasmo é algo que posso fazer, que consigo fazer.
- Pois consegues.
- Agora, sentir um orgasmo é que eu não sei como fazer. Gostava muito, não imaginas como gostava de sentir, sentir mesmo a sério. Senti-lo, simplesmente. E depois oferecer-te parte dessa sensação, agradecer-ta. Mas não consigo, não sei como se faz. Desculpa, mas não sei que mais dizer.
- Suponho que entendo. Ou tenho que entender, o que vai dar ao mesmo. Afinal, é verdade que também não sei como sentir amor por ti. Fingi-lo é fácil mas senti-lo, efectivamente senti-lo, confesso que…
- Desculpa mas de que estás a falar? Fingir amor? Queres dizer que…
6.
Claro que é melhor manterem-se calados. Claro que sim. Continuar a acreditar (a fingir) que fingimentos é quanto basta, é melhor que nada. Depois, chega sempre o momento em que o silêncio se torna um pouquinho mais desconfortável que antes; e então, quase de repente, ambos sentem pressa de partir, de estar noutro lado qualquer, com outra pessoa; e ambos fingem (quase em simultâneo, o que é curioso) um qualquer compromisso, uma urgência repentina, um pretexto que apresse a despedida; e convergem num fingimento conjunto, comum aos dois: a separação é o único momento em que estão em verdadeira empatia, próximos.
Mas, por enquanto, ele ainda ressona ligeiramente enquanto ela pensa como será quando tiver um orgasmo a sério, se sentirá (como tem sido hábito) sono e enfado e vontade de tomar banho, necessidade de se desligar; ou se será completamente diferente e inimaginável.
O hotel está muito tranquilo e silencioso, nada interrompe ou incomoda a languidez da tarde, nada lembra ou denuncia a pressa e o frenesim e a voracidade inerentes à vida quotidiana, à vida lá de fora, à vida além-hotel; um intervalo, pensa ela, sabe sempre bem. Sempre.
Temos que repetir isto com mais frequência, diz ela quando ele acorda. E não dirão mais nada, até que cada um deles entre no seu automóvel e zarpe em direcção à respectiva família.
# 63: O ensaio (último momento)
IRMÃ (na sua voz normal, esforçando-se por parecer descontraída): Chiça, isto foi um bocado violento.
MULHER (forçando um sorriso mas desviando o olhar): Desculpa, deixei-me levar um bocado longe de mais.
IRMÃ (encolhendo os ombros e espreitando o telemóvel; num tom excessivamente informal): Bom, esse é que é o interesse deste teu jogozinho, não é? (Pausa breve. Recuperando o tom sério, preocupado.) Mas tens aí muita porcaria dentro, muita coisa a precisar de sair cá para fora. Nunca pensei, mana. (Pausa breve.) Nunca conversam sobre estas coisas, sobre vocês? Isso faz-me um bocado de impressão.
(A Mulher encolhe os ombros, talvez ligeiramente envergonhada. A Irmã aguarda uma resposta, um comentário.)
MULHER (num tom pensativo, distante): Conheces aquela sensação de estar a falar com alguém e de repente perceberes que a pessoa não está a ouvir, que não ouviu uma única palavra do que disseste nos últimos cinco minutos? (A Irmã acena com a cabeça, enquanto brinca com o telemóvel.) E logo depois, vem-te assim uma espécie de inspiração divina e percebes que isso já aconteceu mais vezes, sem que tu suspeitasses. Desconfias que se calhar até acontece desde sempre. (Pausa breve.) Já te aconteceu? Perceberes que se calhar nem faz grande diferença, que afinal interessa pouco se és ouvida ou não, que se calhar não és ouvida porque não tens nada de especial para dizer. (Olhando a Irmã directamente, quase com desafio.) Sabes do que estou a falar? Fazes ideia?
IRMÃ (pousando o telemóvel e olhando a Mulher, aceitando o desafio): Acho que não. (Olham-se, um pouco surpreendidas com a frontalidade da resposta.) Acho que nunca aconteceu, acho que não suportaria viver uma relação em que me sentisse irrelevante. (Pensativa.) Apaixono-me e desapaixono-me com muita facilidade, como sabes. Vou andando de homem em homem e sabe bem assim porque com cada um vou tendo coisas novas e diferentes e complementares, de cada um vou recolhendo qualquer coisa especial. Nem imaginas como sabe bem ir coleccionando, ir explorando, ir descobrindo. (Num tom carinhoso.) Sabes que essa coisa do homem perfeito e do amor eterno não é para mim, não me interessa o conhecido, a repetição, a previsibilidade. (Sorri.) Mas também não tenho a pretensão de ser o amor eterno de alguém. Aborreço-me com os homens, da mesma forma que eles se aborrecem comigo. É natural, acho eu. Acontece com toda a gente.
MULHER (tom triste, agastado): É, com toda a gente.
IRMÃ: Esquisito é que a partir do momento em que isso acontece, não se reaja, não se tente seja o que for para contrariar uma situação que não é confortável nem recompensadora, que não está a funcionar. Que não se procurem estratégias, se inventem mecanismos. Ou que não se siga em frente, noutro rumo. (Pausa breve.) Isso é que me faz confusão. Não se estar bem mas não se fazer nada para melhorar.
MULHER (tentando sorrir mas sem disfarçar a tristeza): Isso é o que diz a psiquiatra. (Pausa breve.) O que ela não percebe, como tu não percebes, é que não me interessa especialmente andar por aí a experimentar este e aquele, a testar homens. Já passei essa…
IRMÃ (interrompendo, aborrecida): Não digas que é uma fase, que eu passo-me já. Detesto essa condescendência de irmã mais velha.
MULHER (calma, sem hostilidade nem arrogância): Bom, para mim foi uma fase. Passei por ela e não quero voltar. Dá-se umas fodas e aprende-se umas coisas, chora-se pouco. (Encolhendo os ombros, desviando o olhar.) Ok, tem piada. Mas não pode durar para sempre; não chega. É preciso mais. É preciso investir em…
IRMÃ (interrompendo, irritada): Investir em quê? Num gajo que não te ouve? Que não quer saber o que pensas, o que sentes? Tem paciência mas prefiro não andar cheia de ilusões e de expectativas que se vão frustrando uma a uma; de fantasias com companheirismos e almas gémeas e essas porras todas. (Pausa breve.) Prefiro foder como deve ser, o que já não é mau.
(A Mulher sorri, contrariada mas incapaz de não o fazer; abana a cabeça, como se desistisse.)
IRMÃ (conciliatória): Tu sabes que eu sempre gostei do teu marido, que sempre gostei de vos ver juntos. Que de vez enquanto até te invejo, só um bocadito. Sabes isso. (Pausa breve.) Mas não fazia ideia que tinhas uma relação frustrada…
MULHER (interrompendo, magoada): Não tenho nada uma relação frustrada.
IRMÃ (defensiva): É o que parece, depois deste teu teatrinho.
(Sem que notassem, aproximou-se da mesa uma terceira mulher que, com gestos decididos e peremptórios, puxa uma cadeira e senta-se, surpreendendo-as.)
AMIGA (sorrindo): Qual teatrinho?
MULHER (olhando a Amiga, quase assustada): Que susto, fogo. Sempre a mesma coisa. (Tentando recompor-se.) Por onde tens andado, estás atrasada.
AMIGA (encolhendo os ombros): Perdi-me numa lojinha. Temos que passar por lá, depois. Quero que me dês uma opinião.
(A Irmã pegou no telefone e fez uma chamada, aguardando que atendam. Pressente-se algum desconforto em relação à Amiga.)
AMIGA (olhando as chávenas): Apetecia-me um café. Ainda temos tempo?
MULHER (arrumando o telemóvel na bolsa, com gestos decididos): Acho que não. Já estava para ir sozinha.
AMIGA (sem pressa de se levantar): Estavam a falar de quê, afinal?
MULHER (dirigindo-se à Irmã, que aguarda com alguma ansiedade que lhe atendam a chamada): Ficas?
(A Irmã acena que sim, muda o telemóvel de orelha; a Mulher levanta-se e olha para a Amiga.)
MULHER (dirigindo-se à Amiga): Então?
AMIGA (levantando-se, contrariada): Qual é a pressa?
(A Mulher aproxima-se da Irmã e dá-lhe um beijo algo tímido, no rosto; a Irmã parece estremecer, surpreendida.)
MULHER (começando a afastar-se, dirigindo-se à Irmã): Depois falamos.
AMIGA (acompanhando a Mulher; dirigindo-se à Irmã, sem a olhar): Tchau. (Falando à Mulher, sorrindo.) Há séculos que não te via com saia.
Edward Hopper - Chop suey
# 63: O ensaio (segundo momento)
IRMÃ (fingindo-se exasperada): Ensaiar o pedido de divórcio. (Ri.) E como se faz isso?
MULHER (sorrindo): Fácil. Só tens que fingir que és o meu marido. E ires reagindo como achas que ele reagiria.
IRMÃ (abanando a cabeça): És tão infantil, tu. (Pausa breve. Verdadeiramente curiosa.) E que esperas conseguir com uma palhaçada dessas?
MULHER (irónica): Divertir-te.
IRMÃ (rindo): Estúpida. (Volta a pegar o telemóvel, confirma o ecrã; depois, espreita a sua chávena.) Apetece-me mais chá?
MULHER (abanando a cabeça): Estás à espera de alguma chamada?
IRMÃ (num tom pesaroso, triste): Já me contentava com uma mensagem. (Fica a olhar para o telemóvel, desconsolada.)
(Silêncio. As duas mulheres parecem momentaneamente distantes, quase ausentes; esquecidas da outra.)
IRMÃ (forçando-se a rir): Vamos lá, então. (Tosse. Fala numa caricatura de voz masculina.) Olá querida. Como foi a tua tarde? (Forçando o tom de paródia na voz.) Sabes o que me apeteceu todo o dia? (Tentando conter o riso.) Que me fizesses um broche. (Ri, descontrolada.)
MULHER (chateada mas incapaz de não rir): Vai-te lixar.
IRMÃ (rindo). Disseste que era para me divertir.
(Olham-se, enquanto o riso se vai dissipando lentamente. Permanecem em silêncio, confortáveis.)
IRMÃ (tom de voz masculino, incongruente, mas forçando-se a permanecer séria): Pareces cansada, amor. O dia foi duro?
MULHER (contrariada): Sabes bem que ele não me trata por amor.
IRMÃ (exasperada, no seu tom de voz normal): Queres fazer isto ou não? (Pausa breve.) Tens que me dar algum espaço, que diabo. (Olhando para o telemóvel.) Vá lá, que está a fazer-se tarde para mim. (Pausa breve. Num tom prático, decidido.) Faz de conta que já jantámos e estamos a ver o noticiário. O garoto… (Interrompendo-se.) Onde costuma estar o meu sobrinho, enquanto vocês discutem?
MULHER (irritada): Nós não costumamos discutir. O problema é precisamente esse, como sabes muito bem. (Breve hesitação; tom desconsolado, rendido.) Quem não fala não pode discutir. (Pausa breve. Percorre o olhar pela sala, como se sentisse desconfortável, aprisionada.) O menino está sempre no quarto dele, entretido com isto ou aquilo. Longe. (Sorriso triste.) Para não interromper o nosso silêncio.
IRMÃ (tentando parecer decidida, prática.) Ok. Estão os dois no sofá, a olhar para a televisão, em silêncio. Sem se tocarem. Aquele chato das orelhas grandes a apresentar as notícias do governo, todo exaltado. Ou aquela que veste mal e toda a gente diz que é sexy, não sei porquê. (Disfarça um sorriso.) O meu sobrinho no quarto a jogar playstation, aqueles jogos de carros de que ele gosta. (Pausa breve. Tom exageradamente subserviente.) Parece-te bem assim?
(A Mulher acena com a cabeça, tentando permanecer séria, tentando não sorrir.)
IRMÃ (afinando a sua imitação de voz masculina): Então começa lá. Livra-te de mim.
(Silêncio. De repente, surge um incómodo indefinido, uma tensão entre as duas. A boa disposição dos momentos anteriores desaparece por completo.)
MULHER (num tom hesitante, empertigado): Desculpa, queria falar uma coisa contigo.
IRMÃ (no seu tom de voz normal; irritada): Porra, que início mais merdoso. (Fugindo ao olhar furioso da Mulher.) Desculpa. (No tom de voz masculino, cada vez mais afectado, mais inverosímil.) Continua.
MULHER (hesitante): Acho que precisamos de falar.
IRMÃ (revirando os olhos e abanando a cabeça, não se contendo): Chiça, és pior que um filme americano.
MULHER (ignorando o comentário): Há coisas que não estão bem, que precisamos de resolver.
IRMÃ (voz masculina e grossa, tentando aparentar distracção, quase indiferença): Há algum problema com o garoto?
MULHER (irritada): Com o garoto, não. (Pausa breve.) Não é com o garoto. É entre nós.
IRMÃ (voz masculina): Nós?
MULHER (irritada mas esforçando-se por manter a calma): Sim, nós. Ou achas que está tudo bem?
IRMÃ (voz masculina): Que queres dizer com isso? Claro que está tudo bem.
MULHER (surpreendida): Achas mesmo? (Incrédula.) Acreditas nisso? Acreditas que este casamento ainda é feliz?
IRMÃ (voz masculina): Ainda? Que queres dizer com ainda? (Pausa breve.) Claro que é um casamento feliz. Eu sou feliz. (Hesitando momentaneamente.) Porquê, tu não és?
MULHER (após um silêncio, num tom tímido): Não sei. (Pausa muito breve.) Não sei se sou.
(Pausa. Espreitam-se mas logo desviam o olhar.)
IRMÃ (voz masculina): Desculpa. Apanhaste-me de surpresa. (Pausa breve.) Que queres dizer com isso? Desculpa, mas não percebo. Acho que estou chocado. (Pausa breve.) Não és feliz?
MULHER (hesitante, num tom sonhador, como se pensasse alto; completamente absorvida pela fantasia): Desculpa, não queria magoar-te. Mas nunca falamos sobre isto. Partes do princípio que está tudo bem, de que não há lugar a dúvidas nem hesitações, a perguntas. De que não há nada para falar. (Pausa breve.) E faz-me falta falar, não imaginas quanto.
IRMÃ (voz masculina): Falar? Falar o quê? (Hesitação.) Nós falamos. Fartamo-nos de falar.
MULHER (tentando não se irritar): Não, acho que não nos fartamos de falar. Mas se calhar, até está tudo bem. E a única coisa que falta é mesmo isso: falar um pouco sobre tudo isto, para perceber que as coisas afinal não estão más. Não achas? Enquanto estamos para ali às voltas na cama, sem conseguir dormir, vamos pensando e pensando e tudo parece assustador e sem solução, tudo parece perdido. Mas depois, se falamos um bocado sobre isso, a acompanhar o primeiro cigarro da manhã ou assim, se falamos com alguém que está verdadeiramente interessado em ouvir, as preocupações começam logo a parecer um bocadinho exageradas, um bocadinho apalermadas. Até parece que só por verbalizarmos os nossos medos eles perdem logo um bocado do seu poder.
IRMÃ (voz masculina): Desculpa. A culpa é minha. (Hesitação.) Não fazia ideia que te sentias assim.
MULHER (irritada, subindo o tom de voz): Claro que não sabias. (Olhando em redor, envergonhada. Baixando a voz.) Claro que não sabias. Esse é que é o problema. Eu amo-te e tu amas-me mas a verdade é que, de repente, esse amor passou a ser uma espécie de entidade separada, algo que existe sem a nossa intervenção, sem o nosso esforço. Existe e pronto. (Pausa breve. Confusa.) Amámo-nos e isso foi tão forte que o amor passou a ser auto-suficiente. Independente de nós, da nossa vontade. Uma espécie de amor de subsistência, ou assim.
IRMÃ (voz masculina): Amor de subsistência? Não percebo onde queres chegar. Não percebo o que estás a tentar dizer-me.
MULHER (baixando ainda mais a voz, ignorando a interrupção): Amamo-nos, sim. Mas já não nos conhecemos. (Pausa breve.) E isso é que é assustador, isso é que me atormenta. (Aproximando-se, como se estivesse mesmo em frente do marido): Acredito que nos amamos e que esse amor é verdadeiro e forte e eterno e tudo isso. Mas amor não é felicidade. Amar e ser amado não é suficiente, não é isso que é ser feliz.
(A Mulher desvia o olhar, talvez arrependida de ser ter revelado demasiado. A Irmã olha-a, com surpresa, com temor; com respeito, também. O silêncio é longo, desconfortável.)
# 63: O ensaio (primeiro momento)
MULHER (num tom falsamente desprendido, algo receoso): Preciso que me faças um pequeno favor.
IRMÃ (tom decidido e confiante, sem hesitações calculistas): Diz lá.
MULHER (deixando o olhar vaguear, embaraçada): Quero que me ajudes a treinar o pedido de divórcio.
IRMÃ (rindo, surpreendida mas sem antagonismo): Treinar o quê?
MULHER (sorrindo, envergonhada): O pedido de divórcio.
IRMÃ (abanando a cabeça, ainda rindo): Agora é que vai? É desta vez?
MULHER (encolhendo os ombros): Duvido. (Embaraçada.) É só para ensaiar. (Olhando em redor, desconfortável.) Ver qual é a sensação.
IRMÃ (subitamente séria, apreensiva): As coisas pioraram?
MULHER (hesitante, após uma breve pausa): Não, acho que não. (Sorrindo, sem vontade.) Até melhoraram ligeiramente, nos últimos dias.
IRMÃ (simultaneamente incrédula e satisfeita): A sério? Melhoraram como?
MULHER (incomodada): Sei lá, melhoraram. Não me apetece falar disso agora. (Pausa breve, desconfortável.) Às vezes andas tão cansada que só a intensidade do teu desejo para que as coisas melhorem é suficiente. (Encolhe os ombros.) Queres tanto que melhorem que melhoram mesmo, ou parece que melhoram. (Pausa breve.) O que vai dar ao mesmo, não é?
IRMÃ (desconfortável com a súbita agressividade da interlocutora, falando num tom hesitante): Então para que serve esse disparate de ensaiar pedidos de divórcio? (Pausa breve. Correspondendo inconscientemente com um tom igualmente hostil.) Não te percebo. Por um lado queres que as coisas resultem, nem que seja à força; por outro pareces ansiar por que terminem, de uma vez. (Pausa breve.) Em que ficamos?
(A Mulher desvia o olhar, desconfortável, talvez agastada; a Irmã olha-a com insistência.)
IRMÃ (tom acusatório, vagamente descontrolado): Às vezes, pare que tens vivido numa ilusão de casamento, entretida com uma espécie de ilusão de felicidade. Agora queres um divórcio de ilusão? (Pausa breve.) Foda-se, que me parece ilusão a mais.
(A Mulher mantém-se alheada, mas não necessariamente incomodada; como se estivesse habituada a reprimendas da Irmã.)
IRMÃ (num tom pesaroso, estendendo a mão e acariciando-lhe o braço): Desculpa.
MULHER (magoada, tentando parecer indiferente): Não faz mal.
IRMÃ (tom apologético): Sabes que isto irrita-me como tudo. A tua hesitação. A forma como adias e adias e adias. (Sorrindo, com compreensão; tentando compensar a agressividade anterior.) A tua maldita indecisão.
(A Mulher deixa-se acariciar pela Irmã, sem corresponder, quase sem reparar; não a olha; parece momentaneamente ausente, imperturbável. Confiante nas suas certezas.)
MULHER (num tom rígido, com se recitasse algo): A felicidade não é ilusão. Nem sempre. (Pausa breve.) Muitas vezes, não é. (Pausa breve.) Sabes bem.
IRMÃ (irritada): Está bem. Às vezes, não é ilusão. (Retirando a mão.) Mas e as outras vezes? A maior parte das vezes?
(A Mulher encolhe os ombros, como se desinteressada da conversa.)
IRMÃ (num tom quase impertinente): Basta ser feliz três dias por mês. E os outros vinte e sete?
MULHER (encarando a Irmã, subitamente interessada no diálogo): Três dias? Se eu fosse feliz três dias todos os meses, não me queixava de nada.
(Olham-se e riem em simultâneo. A tensão desaparece de imediato. Permanecem em silêncio, sorrindo.)
IRMÃ (curiosa, ainda sorrindo; falsamente despreocupada): Este mês já tiveste os teus três dias?
MULHER (subitamente alegre e despreocupada): Só um. Mas valeu por um monte deles.
IRMÃ (atenta): Conta lá.
MULHER (depois de uma hesitação): Hoje, não. Logo vou estar com a psiquiatra e não me apetece nada estar desbobinar a história toda duas vezes seguidas. (Estende a mão acariciando o braço da Irmã, tal como ela fizera momentos antes.) Desculpa lá.
IRMÃ (sorrindo): Estúpida. Pagar setenta euros para…
MULHER (interrompendo): Oitenta e cinco.
IRMÃ (ignorando a interrupção): Ouvires exactamente as mesmas coisas que eu te posso dizer de borla.
MULHER (num tom arreliador): Mas ela diz de uma forma mais bonita.
IRMÃ (correspondendo ao tom falsamente provocatório): E por que não lhe pedes a ela para te ajudar a ensaiar o divórcio?
MULHER (sorrindo): Isso é privilégio das irmãs mais novas. (Retira a mão do braço da Irmã.)
(A Irmã abana a cabeça, suspira; olha o relógio, pega o telemóvel que está no cima da mesa, volta a pousá-lo; ajeita o cabelo, de forma inconsciente. A Mulher observa-a, sorrindo.)
Para quando novos contos?
Obrigado, Gato (outra vez)
(Fotos de Sílvia Alves)





Dão-se livros # 10
Apenas de Passagem

DEUS (apontando o velho): Já reparaste como permanece ali completamente imperturbável e indiferente ao que o rodeia? Que estará a ler?
EU (num tom indiferente mas que poderá parecer provocador): Talvez nem esteja a ler nada.
DEUS (irritado): Então não vês como está concentrado no livro?
EU (tom misterioso): Está a olhar para o livro; isso não significa que esteja a ler.
DEUS (tom irónico, quase corrosivo): Achas que está apenas a olhar para as letras?
EU (enfático): Acho.
DEUS (irritado): Mas porquê?
EU (num tom cálido): Porque não sabe ler.
DEUS (surpreendido): Não sabe ler?
EU (indiferente): Não.
DEUS (curioso): Então por que motivo passou a manhã no meio deste café, a fingir que lê?
EU (sorrindo ligeiramente): Para recordar.
DEUS (interessado mas algo incrédulo): Recordar? Que queres dizer com isso? Recordar o quê?
EU (tom monocórdico e agastado; como se me custasse revelar o segredo do velho): Está a regressar ao seu passado, a revivê-lo. A reencontrar-se consigo mesmo, quando era criança.
DEUS (impertinente): Fingindo que lê?
EU (tom defensivo): Não precisa de ler porque recorda as frases, uma a uma; está simplesmente a revivê-las, ouvindo-as ecoar na sua mente. Escutando-as na voz da sua mãe. (Após uma hesitação, baixando a voz.) Porque esse era um dos livros que ela lhe lia, quando ele era menino.
DEUS (depois de um longo silêncio, desviando finalmente o olhar do velho): Está a recordar a mãe?
EU (num tom quase solene, que me irrita um pouco): A despedir-se, talvez. Ou a completar o ciclo da sua vida, regressando ao princípio. Deixando-se transformar imperceptivelmente em criança, na criança que foi. (Permanecemos em silêncio, envolvidos pelo burburinho do café.) Antes ouvia a voz da mãe e fingia que ele próprio lia, para se sentir adulto; agora escuta o murmúrio distante da mãe e finge que lê, para se sentir durante um fugaz momento a criança que foi.
DEUS (num tom ternurento, que nos embaraça): Não é um velho que ali está, é isso que queres dizer?
Eu (baixando a voz): É uma criança disfarçada de velho. Uma criança que viveu tanto tempo disfarçada de adulto que conquistou o direito de voltar a ser criança.
(O velho permanece completamente alheado ao que o rodeia, concentrado no livro que segura nas mãos; mas os seus olhos, quase fechados e protegidos pelos óculos, parecem não se mover. Espreitamo-lo, atentos e curiosos, reparando que ele parece esquecido da necessidade de mudar a página.)
DEUS (incapaz de não olhar o velho): Mas por que motivo está aqui, no meio deste café? Porque não se refugia em casa, num local secreto e íntimo, privado?
EU (um pouco brusco): Porque deseja estar só. (Num tom mais conciliador.) E onde nos sentimos verdadeiramente sós? Quando estamos no meio da multidão, quando estamos rodeados de pessoas que não reparam em nós, não se interessam por nós, que não percebem que existimos.
(Deus espreita-me, apreensivo e perscrutador; mas ignoro-o, decidindo não responder ao seu olhar interrogativo.)
Apenas de Passagem: Exposição + Ebook
Por agora, fica mais um exemplo.

(O homem está sentado num dos troncos, numa postura descontraída. Como se assim estivesse desde sempre, como se assim pretendesse continuar indefinidamente.)
DEUS (desinteressado): Que tem de especial?
EU (sem retirar os olhos do homem): Repara no que faz, sempre que se aproxima alguém.
(Ambos o espiamos; uma mulher aproxima-se e passa, apática e distante.)
EU (entusiasmado): Viste?
DEUS (algo agastado): Não. O quê? De que falas?
EU (paciente, talvez um pouco sobranceiro): O sorriso.
DEUS (após uma breve hesitação): Sim, sorri sempre que alguém se aproxima.
EU (excitado): Pois sorri. Mas ninguém repara nele; ninguém vê os sorrisos.
DEUS (olhando o homem com mais atenção, mais interesse): E apesar disso, sorri.
(Mais alguém que se aproxima; ambos nos preparamos para apreciar o novo sorriso do homem, expectantes.)
EU (pensativo): Porque sorrirá?
DEUS (num tom sonhador, que me surpreende): Talvez porque não consiga evitar fazê-lo.
EU (após uma longa pausa): Mas não faz sentido.
DEUS (sorrindo, com tristeza): Sentido? (Olha-me, com curiosidade; penso que irá dizer algo mas percebo a sua hesitação, a sua desistência. Mantém-se em silêncio durante muito tempo, contemplando o horizonte. Depois acrescenta, num tom displicente; ou provocatório?) Talvez seja essa a sua função.
EU (admirado): Sorrir?
DEUS (num tom introspectivo, como se falasse consigo próprio): Sim, sorrir sempre. (Hesita. Embaraçado?) Até que alguém precise desse sorriso.
EU (curioso): Mas que faria esse alguém com o sorriso?
DEUS (olhando-me): Que faria? Corresponder-lhe-ia. (Sorri.) É para isso que servem os sorrisos, para que alguém sorria de volta.
EU (incapaz de sorrir, de inventar um sorriso, de fingi-lo): Ou talvez a motivação seja outra.
(Permanecemos em silêncio; gostaria de corresponder ao seu sorriso mas não consigo fazê-lo.)
DEUS (perscrutador, ignorando o meu momentâneo e despropositado agastamento): Qual?
EU (num tom fantasista): Talvez sorria simplesmente à espera que alguém lhe pergunte por que motivo está a sorrir.
DEUS (surpreendido; verdadeiramente curioso na minha resposta): E que responderia, se alguém perguntasse?
EU (olhando o homem e reparando como a sua expressão é apática e impassível quando não está a sorrir): Não faço ideia. Talvez algo banal, talvez algo genial. Talvez nada.
(Ambos olhamos o homem, estranhando que ninguém se aproxime há algum tempo, que ninguém venha e lhe proporcione uma oportunidade de sorriso.)
DEUS (surpreendendo-me): E se experimentássemos perguntar-lhe?
(Muito tempo depois, sou eu o primeiro a levantar-me.)
Obrigado, Gato






Apenas de Passagem: Exposição + Ebook

EU (olhando-o com curiosidade, perguntando-me se estará mesmo interessado em saber): Os seus sonhos.
(Continuamos a avançar, em silêncio. A mulher parece ter alguma dificuldade em sustentar o peso do saco que transporta às costas; mas ninguém se aproxima para a ajudar, ninguém a olha sequer.)
DEUS (olhando o saco): Não percebo. Que queres dizer com isso?
(Apetece-me sorrir; mas não o faço.)
EU (num tom sério, pedagógico; talvez um pouco condescendente): É uma tradição antiga que existe nalgumas aldeias desta parte do país; quando aprendem a escrever, as crianças são encorajadas a registar em pedaços de papel aquilo que mais desejam, aquilo com que sonham. (Pausa breve.) Aquilo que esperam do futuro.
DEUS (interrompendo, ligeiramente agastado): Para quê?
EU (encolhendo os ombros, num tom algo displicente): Quem sabe, talvez apenas para exercitarem a escrita. Mas há crianças que vão crescendo e mantêm o hábito. (Incapaz de contrariar o tom provocatório.) Talvez apenas para que com a passagem do tempo e a dureza da vida não esqueçam aquilo que é importante. O que as motiva a viver.
DEUS (agastado): As pessoas não vivem apenas para concretizar os seus sonhos, as suas fantasias.
EU (num tom desinteressado): Talvez não. Por isso é que para muitas pessoas vai bastando sonhar; vão simplesmente acumulando sonhos, esquecendo-se ou desinteressando-se de os concretizar. (Pausa breve.) Basta a possibilidade.
DEUS (após uma hesitação, apontando a mulher que se afasta lentamente): Como ela?
EU (encolhendo os ombros): Há pessoas que acreditam que aquilo que possuem de mais precioso nas suas vidas são os sonhos que foram acumulando, tudo aquilo que ambicionaram e desejaram para si mas não alcançaram. (Observando a marcha da mulher.) E ainda persiste a tradição de oferecer os sonhos de toda uma vida, simbolicamente guardados em pedaços de papel, ao primeiro neto que nasce na família.
DEUS (ligeiramente comovido): Uma espécie de herança, de passagem de testemunho.
EU (num tom sério, quase solene): Aquilo que de mais precioso possuem. A possibilidade de uma vida melhor.
(Ficamos a ver a mulher afastar-se, arrastando-se com esforço. Quando acaba de cruzar a praça, imobiliza-se durante um momento, talvez para se orientar.)
DEUS (impressionado): E acumulou todos estes sonhos? (Abanando a cabeça, ligeiramente triste.) Quilos e quilos de sonhos.
(Observamos a mulher, atentos e respeitosos, certos de que em breve seguirá pela travessa que conduz à maternidade, onde o recém-nascido a aguardará. Mas quando finalmente retoma a caminhada, a mulher avança na direcção do mercado, onde entra sem hesitação. Deus olha-me, confuso e interrogador; e quase se indigna, quando depara com o meu sorriso e percebe a sua ironia. Quando se descobre enganado.)




