Basicamente, era um caracol preguiçoso. Gostava de estar sossegado no seu canto da floresta, indiferente às pressas do mundo. Havia um pássaro seu amigo que lhe dizia: «Oh pá, tu és o único caracol que tem duas conchas. Essa em que vives e onde te proteges da chuva. E outra, que não se vê mas que é a mais rija: aquela onde te escondes do mundo.» O caracol encolhia os ombros (faz de conta, porque os caracóis não têm ombros), o pássaro encolhia os ombros (faz de conta, porque os pássaros não têm ombros) e ficavam os dois a olhar para as árvores. Depois, o pássaro cansava-se do silêncio e falava dos seus voos. Contava como era bom furar as nuvens com o bico e sentir a sua brancura húmida, como era inebriante sobrevoar o mar e sentir os salpicos das ondas nas penas, como gostava de voar na direcção do pôr-do-sol e sentir que um dia chegaria até junto dele, como sentia serenidade quando pousava no cimo do farol e contemplava aquela linha mágica onde o azul do céu se mistura com o azul do mar. E suspirava. Para afastar a fantasia, o caracol dizia uma qualquer coisa pragmática e anti-sonho, como por exemplo: «És palerma. Então não sabes que se conseguisses chegar junto ao sol, te queimavas todo? Pode parecer mais fraquinho quando está a desaparecer mas olha que mesmo assim está quente. Uns cinquenta e nove graus. Pelo menos.» A fantasia afastava-se. E antes de regressar aos seus esvoaçamentos, o pássaro dizia: «Gostava de te levar comigo, um dia. Mas o peso das tuas conchas é demasiado para mim.» Contudo, ambos sabiam que quando partilhava os seus voos e os seus sentires, o pássaro transportava o amigo consigo. Depois do pássaro partir, o caracol percorria os seus caminhos de sempre e deixava neles o seu rasto pegajoso; mas, na verdade, estava a voar; o seu espírito voava. E de tal forma esses voos eram reais que começaram a corroer as suas conchas. Foi por isso que, certo dia, deu por si a planear um voo verdadeiro. Como perceber em que momento um sonho se transforma num plano? Talvez isso seja tão difícil de determinar como perceber onde termina o azul do céu e começa o azul do mar. Mas que importa? Há dois azuis e de repente ambos se transformam apenas num, em algo que é muito mais do que uma simples soma de duas partes. 1+1=∞. «Oh pá, é magia. E não penses mais nisso.», diria o pássaro. Houve, portanto, um momento em que o sonho passou a plano. E, na segurança da sua concha, o caracol começou a preparar uma viagem de descoberta. Um voo. Uma caminhada, que é aquilo que os caracóis fazem quando precisam sair das suas conchas e sentir o mundo. Planeou que caminharia até ao farol, porque de tudo o que o pássaro lhe contava era o farol o que mais o fascinava. Não diria nada a ninguém, limitar-se-ia a ir (talvez amanhã, porque basicamente era preguiçoso. Mas iria…); e após uma longa e difícil jornada até ao topo do farol, contemplaria a imensidão do horizonte e talvez conseguisse sentir-se verdadeiramente parte do mundo; nesse momento, as suas conchas ficariam mais leves, tão leves que nem as sentiria. E poderia aguardar a chegada do pássaro, para o surpreender: «Que andas a fazer por aqui?», diria num tom sério. E depois ririam, juntos. Leves.

(Crónica para Jornal de Leiria)

Pelo menos numa coisa concordamos

«Se agora pudesses fugir, para onde irias?»
«Porque haveria de querer fugir?»
«Todos queremos fugir. Porque seria diferente contigo?»
«Tu queres fugir?»
«Claro que sim. Por vezes. Muitas vezes.»
«E porque não o fazes?»
«Porque para fugir é preciso ter coragem.»
«É?»
«Claro que sim. A ideia de que a fuga é a opção dos cobardes parece-me bastante parva. Já pensaste nisso? A maior parte das vezes, a alternativa mais fácil é precisamente ficar. A permanência é mais fácil, a continuidade é mais fácil. Uma fuga é uma quebra da ordem, um desafio à ordem. Exige coragem, não achas?»
«Não sei. Nunca tinha pensado nisso.»
«Não? Nunca pensas em fugir?»
«Queres que te diga a verdade? Todos os dias penso em fugir.» 
«De quê?»
«Nem sei. É preciso fugir de alguma coisa?»
«Geralmente, fugimos porque algo nos persegue. E a maior parte das vezes esse algo somos nós próprios. Somos nós que nos perseguimos, que forçamos a nossa própria fuga.»
«Isso parece-me demasiado filosófico. E dizem que a filosofia é a ciência do saber pensar mas cá para mim é a ciência do conseguir complicar. É verdade que não reflecti sobre isto mas parece-me simples. A necessidade de fuga pode ser um mero desejo de estar noutro lado, não? Quero estar ali e não aqui, apenas isso. E provavelmente quando chegar ali percebo que já não quero estar lá.»
«É assim que se passa contigo?»
«Por vezes, é. Ou melhor, acho que é o que se passa sempre. Mas já me habituei a não reparar, a fingir que não percebo.»
«A tua vida é um fingimento?»
«Não poupas nas perguntas, tu.»
«Desculpa.»
«Não faz mal.»
«E então? É?»
«Gosto de ti. Quero impressionar-te, quero seduzir-te, quero agradar-te; porque gostaria que também gostasses de mim. Parece simples, não achas? E no fundo podemos reduzir tudo a isso: à necessidade de ser gostado. Queremos que gostem de nós. Apenas isso. E se sentimos que não gostam, tendemos a fingir ser algo que não somos, algo que imaginamos que os outros possam apreciar em nós. Fingimos porque precisamos.»
«Que perspectiva sombria da vida.»
«E não será assim com toda a gente?»
«Preocupas-te com o que os outros pensam de ti?»
«Por vezes, claro que sim. Mas também me preocupo com o que penso de mim. No fundo, a opinião que temos de nós próprios acaba por determinar tudo.»
«E que opinião tens de ti próprio?»
«Geralmente, a opinião que tenho de mim é muito condicionada pela opinião que os outros têm de mim; como se me precisasse de olhar ao espelho, sabes? Se não te olhares ao espelho durante um mês, acabas por começar a esquecer o aspecto do teu rosto. Podes até correr o risco de não te reconheceres de imediato. Não acontece isso contigo?»
«Nem por isso.»
«E se não vês o teu reflexo nos outros, também acabas por perder um pouco a noção daquilo que és. Se ninguém te diz que tem saudades tuas, por exemplo; isso reflecte algo, penso eu. Reflecte que ninguém gosta de ti o suficiente para sentir saudades tuas, que ninguém sente verdadeiramente a tua ausência. Que não fazes falta.»
«E não poderá apenas significar que as pessoas não querem ou não conseguem dizer que têm saudades, apesar de as sentirem? Há muita gente que prefere não o fazer, que julga que dizer que tem saudades é uma forma de pedir atenção, de se intrometer na vida no outro. Não dizer que tem saudades pode ser um acto de respeito pelo outro. De respeito pelo seu espaço e pelo seu tempo; e pelos seus sentires, claro.»
«É verdade. Mas se toda a gente agir desse modo, ninguém verbaliza o que sente. E a partir de certo momento, todos seríamos forçados a intuir os sentimentos dos outros. Porque se não o diz, não podemos ter a certeza. Resta-nos adivinhar.»
«Mas não é a palavra que confere certeza seja ao que for. Não é por ser dito, por se transformar em palavras, que um sentimento ganha consistência.»
«Pois não. Mas por outro lado, se o outro não diz o que sente, como poderás saber? Vais falar-me de olhares, de gestos, de atitudes? Claro que um olhar pode dizer mais que uma biblioteca cheia de palavras. Mas o ideal, parece-me, é que o gesto coincida com a palavra. Que o gesto seja demonstrado mas também dito.»
«Não é o facto de ser dito que o torna mais real, mais concreto. Um sentimento está muito além das palavras que o possam descrever. Aliás, as palavras são apenas uma convenção. Sentes de determinada forma e é conveniente que dês uma designação a esse sentimento; e então atribuis-lhe uma palavra pré-definida, que consensualmente descreve aquilo que sentes. No fundo, a mania de reduzir tudo a palavras é uma forma de preguiça.»
«Achas mesmo?»
«Diz-me, o que preferes: que diga que te amo ou que te beije de uma forma que te mostre o quanto te amo?»
«Tu não me amas.»
«Mas se amasse? E já agora, como sabes que não te amo? Porque não te disse? Para ti, o amor apenas existe a partir do momento em que se anuncia formalmente?»
«Achas que isso pode vir a acontecer?»
«O quê?»
«Que venhas a amar-me.»
«Primeiro teríamos que definir o que significa amar, não é? Vês como as palavras apenas complicam as coisas?»
«Estás a fugir à pergunta.»
«E não posso fugir às perguntas que quiser? Diz-me tu, então: achas possível que eu venha a amar-te? Seja lá o que signifique isso de amar.»
«Parece-te normal estarmos para aqui a falar de amor? Quando, no fundo, nem meia dúzia de vezes falámos?»
«Também foges às perguntas, afinal.»
«Se calhar é demasiado cedo para fazer certas perguntas.»
«O problema nunca está nas perguntas mas nas respostas. E não devemos fazer as perguntas se não estivermos preparados para as respostas.»
«És tão sentenciosa.»
«Estás preparado para a resposta à tua pergunta? E se disser que te amo? Estás preparado para isso?»
«Estás a brincar com as palavras.»
«Tu é que és defensor do uso da palavra. E se as palavras permitem que se brinque com elas, é mau sinal. Já com os sentimentos, é mais complicado brincar.»
«Também estás a brincar com os meus sentimentos, de certa forma.»
«Desculpa, então. Não, não te amo. Não faço ideia se alguma vez amarei. Nem sei, sequer, se quero amar-te.»
«Se queres? Mas então o amor é um acto de decisão? De opção?»
«Tens razão. Agora, expressei-me mal. Se calhar, estou defensiva.»
«Porquê?»
«Não sei. No fundo, é como dizes. É um pouco disparatado estarmos aqui a falar de amor quando mal nos conhecemos.»
«Mas o facto de o estarmos a fazer talvez seja revelador de algo, não?»
«De que somos parvos, talvez.»
«Porque estás defensiva?»
«Talvez porque o amor me assuste. O amor é avassalador, não se controla, não se liga nem desliga. Ou existe ou não existe, ponto final. E, por isso, assusta-me. Porque me vulnerabiliza completamente. O amor é aquilo que, simultaneamente, mais nos fortalece e enfraquece, já reparaste? O que queria dizer era que não sei se neste momento da minha vida me quero vulnerabilizar.»
«Tens medo do que sentes, do que podes sentir?»
«Claro. Agrada-te a ideia de que possa apaixonar-me por ti? Excita-te?»
«Que disseste há pouco? Se não estiveres preparada para as respostas, não faças as perguntas.»
«Agrada-te?»
«Tu agradas-me.»
«Achas que esta conversa vai conduzir a algum lado?»
«Todas as conversas conduzem a algum lado. E gosto do destino desta.»
«Não achas disparatado falar de futuro quando o presente deveria merecer toda a nossa atenção? Quando o presente é feliz.»
«É? Estás feliz?»
«Claro. Falar contigo faz-me feliz.»
«Porquê?»
«Racionalizar a felicidade é algo que não me interessa. Uma perda de tempo, acho eu.»
«Sim, talvez seja. Afinal, o problema da felicidade é o pós-felicidade, não? Estamos felizes e parece que o mundo parou, nada mais interessa; somos o mundo. Mas de repente, a felicidade cessa. E pronto. Cessa, simplesmente; ponto final. E os momentos que se seguem a essa constatação são desoladores. Como se tivéssemos acabado de perder tudo, como se fossemos forçados a recomeçar sempre e sempre; como se, no fundo, tudo o que vivemos acabe por ser quase irrelevante.»
«Lá está, essa é mais uma forma de misturar presente e futuro. Quando o que importa, acho eu, é desligar o presente do passado e do futuro. Interessa o momento, em si.»
«Mas o momento apenas pode ser verdadeiramente valorizado quando enquadrado numa continuidade, numa linha evolutiva. Cada momento, por si, isolado, vale pouco. O que o valoriza e potencia, o que o intensifica, é o enquadramento. Este momento, por exemplo. É um momento feliz, em si próprio. Mas o que o torna verdadeiramente especial é tudo o que conduziu até aqui e tudo o que seguirá. O cadenciar de momentos, a sequência.»
«Como se a vida fosse um dominó. Conheço a perspectiva. As peças que se tocam, que estão interligadas, que são interdependentes; que apenas cumprem a sua função quando conjugadas com as outras peças, etc., etc., etc. Já reparaste que é uma perspectiva que menoriza o valor individual de cada peça? Que insinua que importa mais o conjunto do que a individualidade. Uma espécie de comunismo. E a verdade é que não sei se concordo muito com isso. Percebo mas não concordo.»
«Esta conversa faz-te feliz, mesmo que não tenha qualquer continuidade? Mesmo que nunca mais nos vejamos? A possibilidade que daqui uns dias nos voltemos a encontrar não contribui em nada para que este momento, o aqui e agora, seja mais feliz?»
«Será que concordamos em alguma coisa?»
«Sim. Pelo menos numa coisa concordamos. Nisto.»
E beija-a.

Obrigado...



"«Serviços mínimos de felicidade», de Paulo Kellerman (Leiria, 1974) é um hino à angústia de uma mulher que sofre o acidente maior: o da própria filha que jaz inconsciente numa cama de hospital. Sentimos o seu monólogo interior com a força de um terramoto que conduz à ruína. Quando nos achamos sem abrigos o que resta, senão a honestidade que nos devemos. Eis o que mais me comoveu na obra, a autenticidade da voz desta mãe, agora sem a força de o ser, que não se poupa. Exaustiva, minuciosa e massacrante, mas também leve, distraída, errante e, por isso mesmo, redentora. A filha é sempre mencionada como P. . P de palavra impronunciável na dor indescritível de repetir o nome daquela que talvez não torne a abraçar. Lemos a noite mais longa. Não são as horas que custam a passar, até à certeza do que acontecerá ao seu amor maior. São os segundos. E enquanto os sente, de forma insuportável, numa dormência do corpo e dos sentimentos, entretém-se a «usar o pensamento para fugir» (pág. 31), projectando a sua vida numa tela privada, assistindo ao desenrolar da película da sua existência, na mais absoluta solidão. Conhecemos pormenores desde o momento decisivo da desgraça que estilhaçou as três vidas, passando pela construção da vida em comum com Afonso, o marido, pai de P., a quem mal conhece, até à trivialidade de um vestido bonito numa mulher sedutora, mais o encanto de algumas das paisagens que a habitam.

Qualquer momento é apropriado ao recomeço, inclusive, quando nos parecer que já morremos, muitas vezes, embora ainda não o tivéssemos constatado. Esta mulher fala-nos das suas várias mortes, consciencializando-se de cada uma delas, à medida que a atingem, implacáveis. Falta-nos o ar na maior parte das linhas.

É curioso que apenas Afonso, invisível nos afectos, seja identificado. Apenas o pai-condutor-responsável pode ser gritado, acusado, julgado. Identificar o desamor nos outros é mais fácil do que detectá-lo ao espelho. Eis que esta conversa, consigo mesma, a obrigará ao confronto com o que é, com o que julgava ser e lhe aparece agora desprovido de sentido, desfazendo, neste combate, todas as ilusões de poder ser alguma coisa através de terceiros.

Mais do que encontrar respostas para todas as questões que a narradora se coloca, importa repensar. Colocarmo-nos no seu lugar sem nome que é o de todos nós.

Se chegarmos àquele momento em que tudo muda, irremediavelmente, aquele que poderá ser o derradeiro, andámos a escolher o que desejávamos? O que podia ela ter feito diferente para não assassinar os sonhos da filha com pessimismo, realismo e afins? O que podia ela ter feito diferente para não ter desistido dos seus próprios sonhos? Sendo tarde para a filha, ainda o é para si?

Eis que o livro chega ao fim. Nos nossos olhos, silêncio, todavia, a sua música continua a tocar para nós, como nos auscultadores de P. logo após o desastre.

«Quem disse que terá de existir uma relação directa entre falar e amar?» (Pág. 62)

Talvez não haja. Sou parca em certezas. Tenho esta: este romance, que escava a esperança sob o desespero, é um acto de amor.

Obrigada, Paulo.

Felicidade














12.11.2016. Livraria Arquivo. 
Apresentação de Serviços Mínimos de Felicidade. Por VEIA – Vertente Exploratória em Intervenção Artística. 
Fotos de Gil Álvaro de Lemos.

Janelas

Oh menino, tenho mais que fazer do que andar a queixar-me. Desculpe lá chamar-lhe menino, mas é por causa do olhar. Tem um olhar de criança, e isso é raro. O mais comum é encontrar olhares de velho, sejam velhos ou não; aquele olhar de quem está desinteressado no que vê, um olhar virado para dentro. E vivo num lar, certo?, é natural que esteja rodeada de gente com olhar de velho. Quando encontro alguém com olhar de criança é uma festa porque é bom ser mesmo vista e não apenas olhada. Mas acabei de dizer que tenho mais que fazer do que queixar-me, e aqui estou eu a queixar-me. Enfim, não há mal nenhum em ser contraditória, antes isso que estar cheia de certezas. Aqui, as pessoas têm muitas certezas, é uma coisa que piora com a idade. E são todos velhos não só de corpo mas também de espírito. Alguns até já estão mortos mas ainda não o perceberam; é como se esperassem uma oficialização. No fundo, são pessoas respeitadoras de preceitos e burocracias, precisam de papéis para tudo; até para morrer. Mas não ligue, menino. Por vezes dá-me para a tolice. A tolice é como uma janela, não concorda? Se não a abrimos de vez em quando, é como se estivéssemos sempre fechados numa sala escura. O sonho também é uma janela, e essa devia estar sempre aberta. É verdade que tenho sessenta e oito anos mas não será isso que me impedirá de sonhar. Quer saber o que sonho? Tolices, claro; acho que são duas janelas que se comunicam, a do sonho e a da tolice. Olhe, sonho com rojões, nunca fazem disso aqui; ou com filhós de abóbora. Sabe aquilo que se diz sobre tratarem os velhos como crianças? Passa-se muito na alimentação, é triste uma pessoa não poder comer o que deseja. Que mal há em rojões e filhós? Mas se falo nisso, olham-me como se fosse doida, dizem: coma lá o iogurtinho, que lhe faz bem. Enfim. Sonho que alguns dos meus antigos alunos me venham visitar. Sonho com o meu filho, que está no estrangeiro, e com o meu marido, que morreu há três anos; sonho com eles quando durmo, e então acordo com um sorriso; ou sonho com eles quando estou acordada, e então sorrio na mesma. Sonho com excursões à Serra da Estrela ou ao Alentejo. Aqui, apenas fazem excursões a Fátima, não sei bem porquê. Sonho estar rodeada por gente que encare a velhice de forma menos dramática e egoísta, gente que não passe a vida a dar com as muletas na cabeça das auxiliares e a fazer escarcéus por causa da comida e dos remédios. Sonho não ter dores. E por vezes até sonho com um mundo melhorzito, mas estão a dar cabo disto tudo e uma pessoa vai perdendo esperança. Até deixei de ler jornais, davam-me azia. E de ver os telejornais. Aos domingos vêm aí as visitas e por vezes trazem garotos. Faz-me impressão, estão sempre agarrados aos telemóveis; e isso ainda é mais triste do que ver os telejornais. Houve aí uma assistente social que andou a criar facebooks para os velhos. Então certo dia um velho fez uma birra porque queria um telemóvel igual ao do neto para ir ao facebook e o filho não lho dava. Já viu? Este mundo está a ficar um bocado estrampalhado, menino. E nem a sonhar uma pessoa consegue sair da sala escura. Enfim. Mas fale-me de si, diga-me tolices. Não foi meu aluno, pois não?

(Crónica para o Jornal de Leiria.)

Calou-se. Saiu. Saltei.

O filme "Calou-se. Saiu. Saltei" (2014), de Bruno Carnide, e cujo argumento escrevi, pode ser visto integral e gratuitamente.



Bom dia

Gosta quando lhe desejam “bom dia” mas a maioria das pessoas diz simplesmente “Um café” ou “Era um café”. Gosta que a olhem quando falam consigo mas parece que toda a gente está demasiado ocupada ou demasiado desinteressada ou demasiado entretida com o telemóvel. Gosta quando a tratam por você – de igual para igual – mas a maioria aborda-a como se fosse uma criança, tratando-a por tu. Gosta quando usam o seu nome, que está bem visível na placa que tem de trazer ao peito, mas isso só aconteceu três ou quatro vezes desde que começou a trabalhar no café; e não gosta nada que lhe chamem “coisinha” ou “jeitosa”. Gosta que lhe perguntem se está tudo bem mas, das poucas vezes em que isso aconteceu, percebeu que a pessoa não estava realmente à espera de resposta. Gosta quando as pessoas sorriem. De um modo geral, não gosta nem desgosta de trabalhar no café. Tem dezoito anos e é o seu primeiro emprego. A escola podia ter corrido melhor. Se lhe perguntarem quais os seus sonhos, não sabe bem o que responder; e tem noção de que isso – não ter sonhos – é triste e um pouco assustador; mas acha que seria ainda pior se fingisse que tinha sonhos ou se adoptasse os sonhos de outras pessoas. A vida é o que é, agora é isto e depois logo se vê: podia ser pior, podia ser melhor. Por enquanto, passa o dia a tirar cafés e a fazer torradas. «Isto das torradas até é engraçado, no outro dia estava a pensar: se cada fatia de pão tiver dois centímetros, e considerando que devo fazer umas cinquenta por dia, sabe que distância dava se encostasse todas as fatias lado a lado, em fila? Trezentos metros. Já viu, trezentos metros de pão? Mais três meses e chego ao meio quilómetro.» À noite, conversa no facebook com as amigas; riem das senhoras que pedem abatanados porque a palavra é engraçada e dá para fazer trocadilhos parvos; queixa-se das pessoas que dizem “Um nata”, em vez de “Um pastel de nata”, o que a irrita por nenhum motivo que consiga entender; fala com tristeza dos velhos que passam o dia sentados nas mesas do canto, a olhar para o vazio ou a dormitar, porque não têm para onde ir, não têm quem os espere (e não entende por que motivo não se juntam e falam uns com os outros); lamenta-se dos engravatados e das madames que a olham com uma expressão de pena ou de arrogância, como se fazer torradas e tirar cafés fosse um trabalho inferior aos outros; segue com orgulho as aventuras académicas das amigas que andam a tirar cursos de esteticista e de professora de educação física e de enfermeira. Por vezes, essas amigas aparecem no café perto da hora de saída e pedem em coro “Oh coisinha, traz um nata e um abatanado”; e riem todas, bem alto; juntas. Pela manhã, de regresso às torradas e aos cariocas, olha o tráfego matinal enquanto aguarda o autocarro e pensa que gostaria de tirar a carta. Pensa, também, que gostaria de fazer um workshop de desenho e pintura; que gostaria de viajar um bocado; que gostaria de ter um namorado melhor que o último; que gostaria de ajudar mais os pais; que gostaria de voltar a estudar. «Olhe, afinal parece que até tenho sonhos. Agora é só lutar para os concretizar, não?» 

(Crónica para o Jornal de Leiria)

Caixões separados


O conto Caixões Separados foi lido por Filipa Leal e ilustrado por André Caetano para o programa Literatura Aqui (episódio 38), da RTP 2. Pode ser visto e ouvido aqui.  

Contágio

«Mas por que motivo vens sozinho?»
«Não há ninguém que possa vir comigo. Porque ninguém sabe.»
«A sério? Não contaste a ninguém?»
«Não, não contei.»
«Não quiseste? Ou não foste capaz?»
«Penso que ambas as coisas. Mas, principalmente, porque não quis. Sim, julgo que isso foi o mais importante: não quis contar a ninguém. Parece-te estranho?»
«Um pouco. Não sei. Cada pessoa tem uma forma diferente de reagir à doença, de lidar com essa nova realidade. Suponho que o secretismo seja uma opção tão válida como outra qualquer.»
«Qual é a reacção mais frequente?»
«As pessoas costumam ficar revoltadas. Ou com muita pena de si próprias. São os dois grandes grupos; as duas maiores tendências, digamos assim.»
«Penso que não fiquei propriamente revoltado. Ou talvez ainda seja demasiado cedo para isso. A primeira reacção foi de incredulidade, penso.»
«E com pena de ti, ficaste?»
«Pena? Que queres dizer?»
«Sei lá. Aquele discurso tipo: ai, o que vai ser de mim, só tenho azares na vida. Blá blá blá.»  
«Não, nem por isso. Nunca fui pessoa de me queixar muito.»
«Então é mesmo uma reacção atípica. Nem queixas, nem ódios.»
«E isso terá algum significado? Essa incapacidade de reagir normalmente?»
«Talvez seja como digas. Ainda estás na fase da incredulidade. O resto virá depois.»
«Mas eu já aceitei que estou realmente doente. E que isto poderá correr mesmo mal.»
«Aceitaste?»
«Aceitei.»
«Como?»
«Que queres dizer?»
«Como se faz? Um dia acordas e decides: bom, pode ser que morra nos próximos meses mas que se foda, não há-de ser nada. É assim?»
«Claro que não. Estás a hiper-simplificar, não achas? Aliás, deves saber melhor do que eu. Passas a vida a lidar com pessoas como eu.»
«Como tu?»
«Doentes.»
«Sim, é verdade. E sabes o que acontece com quase todos? Recusam-se a aceitar que poderão estar perante o fim. A maioria das pessoas convence-se que irá escapar, que algo de bom irá ocorrer, que alguém as salvará.»
«A sério? A maioria?»
«Sim. Incluindo muitos que fingem que não. Mas, no fundo, secretamente, estão convencidos que vai correr tudo bem, por mais que as indicações e os prognósticos indiquem o oposto. Têm esperança, mesmo que seja uma esperança secreta e inconfessável. E em parte é também por isso que contam às famílias, aos amigos. Porque depois toda a gente faz questão de contribuir para essa esperança. Toda a gente acredita, ou finge que acredita, que não haverá morte. E a esperança vai-se consolidando.»
«Comparando com essa tal maioria, parece que desisti. Não tenho esperança nem quero que ninguém me dê esperança.»
«O que não deixa de ser uma forma de estares com pena de ti próprio.»
«Afinal, sou como todos os outros.»
Conversavam numa pequena sala sem janelas onde os pacientes do hospital podiam aguardar os resultados dos exames médicos que tinham efectuado; não seria tanto uma sala de espera mas antes uma sala de ansiedade, uma sala de tensão, uma sala de medo, uma sala onde o pior poderia acontecer. Havia uma máquina de vending com chocolates e sumos, algumas mesas aparafusadas ao chão, cadeiras de plástico. Posters com conselhos médicos genéricos acompanhados por rostos sorridentes tornavam o ambiente da sala algo surrealista pois, de um modo geral, quem tivesse o azar de aguardar naquela sala teria muito poucas razões para sorrir. Uma sala desconfortável que ninguém iria recordar com simpatia ou saudade, já que a própria arquitectura e decoração inequivocamente hospitalar intensificava e perpetuava o desconforto e a angústia inerentes à doença. Não era a primeira vez que aguardava ali veredictos e sentenças mas nunca acontecera estar acompanhado. Já tinham conversado antes, conversas rápidas e algo fragmentárias mas interessantes, recompensadoras, inesperadamente cúmplices e íntimas considerando que ele era o paciente e ela uma enfermeira de serviço; conversas que o surpreenderam e perturbaram. Mas nunca tinham estado assim: frente a frente, como dois velhos amigos; ou dois novos amigos que se descobrem, fascinados.
«Gostas de ser diferente? De te sentir diferente?»
«Talvez goste. Um pouco.»
«E és?
«Duvido.»
«Todos gostamos de nos sentir especiais. Não é? Mas raramente o somos. O que acontece é que por vezes nos cruzamos com pessoas que nos acham especiais, que nos fazem sentir especiais. Não há nada de assinalável em nós, os outros é que por um qualquer erro de avaliação ou de interpretação ou de análise ou sei lá, sentem que somos especiais. E nós acreditamos nisso, porque queremos muito acreditar, precisamos de acreditar.»
«Mas se alguém nos considera especiais, na prática somos mesmo especiais.»
«Isso é um bocado simplista, não?»
«Tu sentes-te especial?»
«Sinto. Por vezes, sinto. Mas sei que não sou.»
«Não és?»
«Não, não sou.»
«Eu acho-te especial.»
«Mal me conheces.»
«Não acreditas no amor à primeira vista?»
«Amor? Por que estás a falar de amor?»
«Estou a falar por falar. Amizade à primeira vista, então.»
«Já somos amigos, é?»
«Gostava que fossemos. E afinal, estou a contar-te coisas que não conto nem ao meu melhor amigo. Sobre a doença, por exemplo.»
«Eu sei da tua doença porque sou enfermeira. Lembras-te? Trabalho aqui.»
«Verdade. Tu e mais umas dezenas de enfermeiras. Mas não conversei com mais ninguém nem ninguém manifestou qualquer interesse em conversar comigo.»
«Que significa isso, na tua opinião? Porque, aposto, para ti certamente terá um significado qualquer.»
«Não sei. Mas posso querer acreditar que aconteceu porque és uma pessoa especial. E, de qualquer forma, a tua atenção faz-me sentir especial.»
«Somos os dois especiais, então.»
Interrogava-se, algo distraidamente, algo envergonhadamente, algo excitadamente: estaria a ser seduzido? Na verdade, já não se lembrava como era ser seduzido, não se lembrava da última vez em que alguém o tentara seduzir. Ou estaria inconscientemente a seduzir aquela mulher? Seria ele o sedutor? Não o confessaria em voz alta mas sentia-se quase bem, apesar de estar num hospital a tentar lidar com um cancro; ela fazia-o sentir-se quase bem. Da mesma forma que o cancro limitava de forma cruelmente irrevogável e definitiva as possibilidades do seu futuro, a presença dela – a forma natural como se entendiam e apreciavam, como se atraíam – tornava esse mesmo futuro estranha mas irresistivelmente incerto. Ao conversar com ela, sentia-se não apenas menos assustado mas também um pouco excitado
«Por que estás aqui, neste momento?»
«Porque quero conhecer-te.»
«Boa resposta, essa. Mas por que me queres conhecer?»
«Não sei. Quero, simplesmente. Eu não sou de pensar muito, darling. Não racionalizo demasiado. Porque quando penso, fico mais presa; refém de mim própria, percebes? Por isso, evito pensar. Sigo o instinto.»
«Mas o instinto é uma forma de racionalização.»
«É?»
«Penso que sim. O instinto é uma espécie de decisão inconsciente; ou de pré-decisão. O cérebro apresenta-te uma solução racional mas como não percebes os mecanismos intelectuais que a produziram, como não tens consciência da forma como essa decisão se originou, não a entendes como uma decisão. E chamas-lhe instinto, como lhe poderias chamar outra coisa qualquer. Não sei se isto faz algum sentido para ti. É como aquilo do dejá-vu, que resulta de uma espécie de delay, de atraso infinitesimal, na consciencialização de algo que já sabíamos. Como quando nos vimos inesperadamente num espelho e demoramos um instante e perceber que estamos a olhar para nós próprios.»
«Pronto. Então pré-decidi conhecer-te.»
«Quando? Em que momento?»
«Houve um dia em que se fez um exame e te deixaram sozinho no quarto. Lembras-te? Eu entrei, já não me lembro porquê, e reparei na forma como me olhaste. Um olhar de confusão e desamparo, como o olhar de uma criança. Já te tinha visto antes mas foi essa expressão que me fez olhar-te com outra atenção. Ou com intensão, se quiseres. E depois, a forma como desviaste o olhar, como fugiste.»
«Há uma empatia qualquer entre nós, algo que nos aproxima. Não achas? Uma vontade de conhecer o outro e ser conhecido pelo outro; e, em simultâneo, uma certa sensação de que sempre nos conhecemos.»
«Um dejá-vu.»
«Pois.»
«Ou como se nos tivéssemos conhecido numa vida anterior.»
«É uma ideia curiosa, essa. Mas não acredito na vida para além da morte.»
«Neste caso, não seria vida além da morte. Mas vida anterior ao nascimento.»
«Que engraçadinha.»
«Quando vais contar à tua mulher, à tua família?»
«O quê?»
«Da doença.»
«Não sei. Nunca.»
«Nunca? Imagina que morres, desculpa falar assim. Morres e a pessoa com quem vives há não sei quantos anos descobre que estavas doente apenas no dia do funeral? Isso é de um egoísmo atroz.»
«Egoísmo talvez fosse contar-lhe. Estaria apenas a transferir o sofrimento, de mim para ela. Não era?»
«Isso é um argumento de miúdo.»
«Talvez. Mas não deixa de ser válido.»
«Tens medo de quê, afinal? Da reacção dela? Como achas que reagiria?»
«Em silêncio. Intimamente.»
«Que significa isso?»
«Uma reacção interior, cerebral. Pensaria indefinidamente, tentando analisar tudo. Como se pensar detalhadamente sobre um problema fosse o suficiente para o resolver.»
«Mas não seria solidária? Não te apoiaria?»
«Claro que sim. De forma obsessiva.»
«Como se fosse um problema dela?»
«Sim. Existiria uma espécie de apropriação da doença.»
«E isso incomodar-te-ia? Essa apropriação?»
«Sim. Incomodaria.»
«Mas não é essa a essência de uma relação? Que os problemas de um se tornem os problemas do outro? Que exista solidariedade e complementaridade?»
«Tens razão.»
«E quando não acontece desse modo, o que existe não é bem um casamento. É mais um ajuntamento de duas pessoas.»
«Que farias, se fosse contigo? Se fosses minha mulher e descobrisses a existência da doença?»
«Que faria? Não sei. Numa relação, há sempre certos segredos que não se deveriam partilhar; mas a partir do momento em que são conhecidos, não é possível que tudo permaneça como antes.»
«Raio de resposta. Estás a fugir»
«Pois estou. Por vezes, é necessário.»
«É?»
«É.»
A lata de sumo de laranja que ele retirara da máquina de vending quando se refugiara na pequena sala de espera estava esquecida à sua frente, quase cheia. Apenas se lembrou dela quando viu o modo descontraído como ela a pegou distraidamente e bebeu lentamente; fê-lo com à-vontade, como se fosse natural que os seus lábios se tocassem assim, através da lata. Talvez fosse um gesto banal e inconsequente mas achou-o sedutor, excitante, provocador. E ficou a olhar para a lata, tentando forçar-se a não lhe pegar. Porque a verdade – inconfessável, nem sequer assumida a si próprio – é que gostaria de sentir os lábios dela. E essa consciência não assumida desconcertava-o e perturbava-o, provocava-lhe ansiedade e nervosismo, culpa, ressentimento; a verdade é que durante um breve momento essa consciência (essa possibilidade?) o perturbou mais do que o cancro, do que a incerteza e a angústia provocada pela doença.   
«Diz-me uma coisa que adores na tua mulher.»
«Porquê?»
«Porque sim. Porque estou a pedir. Porque quero saber.»
«Está bem. Digo-te uma coisa.»
«Sem pensar. A primeira que te vier à cabeça.»
«Havia uns bilhetes que ela escrevia. Coisas simples como “estás no meu pensamento” ou “neste momento estou a sorrir para ti”. Escrevia pensamentos bonitos e fazia uns desenhos, tipo sorrisos ou corações.»
«Como os adolescentes apaixonados.»
«Sim. Depois, escondia os bilhetes em locais improváveis. E quando eu os encontrava, sentia uma surpresa deliciosa. Adorava essa surpresa.»
«Qual foi o sítio mais estranho onde ela escondeu um bilhete?»
«Sabes aquele triângulo de sinalização que é obrigatório ter no carro, que se coloca na estrada em caso de acidente? Para avisar? Foi aí, guardadinho lá dentro da caixa do triângulo. Dizia: “aviso-te que o meu amor por ti está a aumentar perigosamente”.»
«O amor é sempre uma coisa um pouco patética.»
«O amor em si, não. A expressão do amor, a sua verbalização, é que pode ser algo patética. Ou muito.»
«Pois. Isso.»
«Certo dia, tive um acidentezito e foi preciso usar o triângulo. Lá estava eu, todo enervado, com o carro lixado e a apanhar chuva, no meio da estrada. E vejo o papelito.»
«Que fizeste?»
«Sorri. E quase deixei de estar enervado.»
«E os papelinhos continuaram a aparecer indefinidamente?»
«Houve um dia em que encontrei um bilhete escondido numas cuecas lavadas. Dizia: “tenho saudades de te chupar”.»
«Uau.»
«Não sei por que raio te estou a contar estas coisas. Mal nos conhecemos. É irracional, tudo isto.»
«Contas porque queres, porque podes. Porque confias em mim. Porque estamos a iniciar qualquer coisa. Porque nos estamos a descobrir. Porque queremos que o outro faça parte da nossa vida e, para isso, precisa de saber de nós, precisa de ser integrado nessa vida. E porque temos pressa.»
«Temos?»
«Temos. Recuperar o tempo perdido.»
«É uma ideia curiosa, essa. E algo perturbadora.»
«Que aconteceu com os bilhetes?»
«Começaram a tornar-se exclusivamente sexuais. Recados, pedidos, marcações. Esse género de coisa.»
«E concretizavam, depois?»
«Sim, sempre. Ou quase sempre.»
«Parece divertido.»
«Era divertido.»
«E tu, não escrevias bilhetes?»
«Não.»
«Porquê?»
«Não sei. Por nenhum motivo particular. Apenas porque não.»
«Diz-me uma coisa. És uma pessoa reactiva?»
«Reactiva?»
«Sim. Limitas-te a reagir, sem tomar iniciativas. Como nessa história dos bilhetes. Ou, se preferires, dou outro exemplo: o teu interesse por mim é uma reacção ao meu interesse por ti? Limitaste-te a reagir ao meu interesse?»
«Não. Não sei. Quem sabe. Talvez.»
«Não te parece um pouco triste, isso?»
«Triste? Não diria triste.»
«Dirias o quê, então?»
«Não sei. Não sei o que diria.»
«Encolhes os ombros. Pelo que dizes, a tua vida é um permanente encolher de ombros.»
«Por que estás a ser cruel?»
«Tens razão, estou a ser cruel. Desculpa.»
«Tudo bem.»
«Mas deixa-me voltar à história dos bilhetes. Seria simplesmente um jogo? Ou um estratagema para superar uma qualquer dificuldade de comunicação?»
«Dificuldade de comunicação? Não creio.»
«Adoravas os bilhetes porque gostavas de ser surpreendido. Não foi o que disseste? E nunca te ocorreu que a tua mulher… como se chama a tua mulher?»
«Não interessa, isso.»
«Nunca te ocorreu que ela também quisesse ser surpreendida? Quando foi a última vez que a surpreendeste?»
«Estou a surpreendê-la agora mesmo. Não lhe contando que estou a morrer com um cancro.»
«Agora és tu que está a ser cruel.»
«É verdade.»
«Que aconteceu com os bilhetes, depois?»
«Um dia, a nossa filha encontrou um.»
«Ui»
«E de repente tudo aquilo pareceu uma coisa um bocado parva, percebes? Não falámos sobre o assunto, não fomos capazes de o fazer, seria constrangedor. Abandonámos a brincadeira e não voltámos a pensar nisso.»
«Podias escrever um bilhete a dizer “tenho cancro”; e escondê-lo tão bem que ela apenas o encontraria depois de teres morrido.»
«Estás a brincar, certo?»
«Claro que estou. É evidente.»
«Uma brincadeira um bocado estúpida, não?»
«Tens razão. E cruel, outra vez. Desculpa. Parece que a crueldade é uma espécie de tentação.»
«Deve ser isso. Uma tentação.»
«Sabes? Por vezes, sou um bocado parva.»
«Gosto de parvoíces.»
«Gostas? Ainda bem. E tu, nunca fazes coisas parvas? Ou só gostas das parvoíces dos outros?»
«Faço cada vez menos. Mas claro que o excesso de seriedade é sempre mal visto. Se és demasiado sério e não fazes coisas tolas, consideram-te alguém que não se sabe divertir, que não sabe aproveitar a vida.»
«Suponho que não concordes.»
«Não, não concordo. Parece-me uma simplificação um pouco idiota.»
«Então por que dizes que gostas de coisas parvas?»
«Não sei. Mas gosto. Por vezes, gostamos daquilo que não somos, que não conseguimos ser. Não é? Gostaríamos de ser diferentes, de ser outra pessoa qualquer.»
«Gostavas de ser menos sério? Mais descontraído e relaxado? Mais parvo?»
«Talvez. Quem sabe?»
«E por que não tentas?»
«Bom, somos o que somos. Podemos sonhar ter cabelo azul que não será por isso que ele deixará de ser castanho. Até o poderemos pintar de azul mas na essência nunca deixará de ser castanho.»
«Raio de exemplo, darling. Até parece que estás a falar com uma criança. Falas assim com a tua filha?»
«A minha filha já não é criança.»
«E a tua mulher? Aprecia essa seriedade toda?»
«É esquisito falares assim. Como se a conhecesses.»
«Incomoda-te?»
«Um pouco.»
«És mesmo sério, tu. Olha lá. Já que dizes que gostavas de ser mais parvo. Achas que se pode ficar parvo por contágio?»
«Por contágio? Que queres dizer?»
«Se conviveres com pessoas parvas será possível que fiques também um pouquinho mais parvo, que percas um pouco dessa seriedade toda? Que ocorra uma espécie de transferência de parvoíce.»
«Tu és demais, fazes-me rir. Tens cada ideia.»
«A sério. Imagina que faço agora mesmo uma enorme parvoíce que me está a apetecer fazer. Que aconteceria depois? Considerando que és uma pessoa reactiva. Corresponderias à minha parvoíce? Serias parvo?»
«Mas de que estás a falar? Que parvoíce te apetece fazer?»
Olhou-o em silêncio durante alguns segundos e sorriu. Depois aproximou-se lentamente dele e beijou-o.