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Uma espécie de western: fascículo # 05

Paramos durante uns minutos. Salto ao chão e dou uns passos, com gosto, sentindo a terra estremecer debaixo das botas; massajo as pernas, desajeitadamente; respiro fundo. Lembro-me que deixei um maço de cigarros preso na sela do cavalo, junto com a arma; gostava de ter um espelho e contemplar o meu sorriso, enquanto acendo o cigarro; mas depois decido que não preciso de ver: basta sentir.
Vou fumando, invadido por uma sensação de tranquilidade; ou de indiferença, de desinteresse? Olho em redor, perscrutando o horizonte monótono e repetitivo; e tento imaginar-me longe daqui, algures (mas onde, para quê?). Examino a paisagem desolada, sem verdadeira curiosidade ou interesse, sabendo que o meu olhar não encontrará nada de surpreendente, nada de novo; e enquanto sopro o fumo do cigarro, ficando a vê-lo dissipar-se lentamente, recordo uma história que ouvi sobre este deserto, não sei onde nem quando: já foi uma floresta. Olho, tentando imaginar árvores, a densidade e o fulgor do verde, a imponência da vegetação; tentando acreditar.
O cavalo começa a mexer-se, impaciente. Olho-o, com atenção; pensando num nome apropriado, caso alguma vez conseguisse dar-lhe um nome. Ele sente-se observado e intensifica o movimento, transmitindo-me o seu nervosismo.
Atiro o cigarro pelo ar e fico a vê-lo voar, cair, apagar-se. Sopro o último fumo, trepo para a sela; e partimos. Sinto-me livre, completamente livre.