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Uma espécie de western: fascículo # 04

Penso em parar; ou regressar: porque não? Mas o cavalo prossegue a sua marcha, num movimento rítmico que me embala e serena; e decido não me opor à sua vontade, submeto-me pacificamente.
Penso, subitamente, em arrependimento. Sim, julgo que poderia arrepender-me de algumas atitudes, de alguns gestos, de algumas omissões, de alguns pensamentos; talvez o faça, um dia. Mas para quê? O que mudaria?
Acaricio o cavalo, sinto-o corresponder ao meu toque. A humidade da noite começa a ser incomodativa, a distrair; mas insisto no pensamento. Arrepender-me de quê, em concreto? Como escolher, qual o critério? Arrepender-me duma morte que causei, que apressei? Ou arrepender-me de um sorriso que não tive, que deveria ter tido? Por onde começar, quando terminar? E porque não arrepender-me de tudo? Renegar a vida que tive, que ainda vou tendo, que terei. Mas o que mudaria, efectivamente? Para que serviria o arrependimento, afinal?
E por que motivo estou a pensar nisso, agora? (Como se estivesse à beira da morte, despedindo-me do mundo; estarei?)