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Uma espécie de western: fascículo # 10

Não sinto a bala perfurar-me a pele, a carne, o sangue. E isso surpreende-me um pouco; não é a primeira vez que uma bala me atinge, que entra por mim adentro, furando a carne, atravessando-a; e de todas as outras vezes, houve sempre uma dor instantânea e fulgurante, que logo se transformou em fúria e revolta, em reacção; um choque violento e intenso, incontrolável, como se o próprio corpo – e não apenas a consciência, a sensibilidade; a alma – se indignasse com a agressão.
Mas não desta vez. Não posso ter a certeza; mas penso que o cavalo se assustou com o inesperado som da detonação e me surpreendeu com os seus movimentos bruscos e defensivos, que me atiram ao chão; e apenas no momento seguinte, quando já estou a contorcer-me na terra poeirenta é que percebo que algo anormal se passa, algo além da queda; então, vejo o sangue: e compreendo. Simultaneamente, sinto a dor já conhecida de outros tiros, já antes suportada. Mas com atraso: apenas quando consciencializo que deveria estar a senti-la.
Fico, então, a ver o cavalo afastar-se, ouvindo ainda a sua respiração ofegante e descontrolada, tentando discernir o que está a acontecer, ultrapassar a perplexidade, compreender. Concentrando-me em não sentir a dor. Ignorá-la. Fazê-la desaparecer.